O Debate prestou uma homenagem a si mesmo em 'Melancaronca'


Dez anos após a gravação, quase seis anos depois do final da banda, a Debate reaparece com um disco/homenagem ao que a banda foi um dia. Para quem não lembra ou conhece, a Debate foi um trio de rock experimental criada pelo músico, produtor e antigo dono de selo Sergio Ugeda (Diagonal). Hoje, ele mora no Arkansas e por lá toca um programa de rádio com muita música brasileira pros gringos ouvirem.

Dias atrás, Sérgio me enviou um e-mail com o terceiro trabalho da Debate. Melancaronca foi gravado nos Estados Unidos durante a tour da banda por lá em 2007 e mixado por Steve Albini. O trio era formado pelo Ugeda na guitarra e nos gritos, Richard Ribeiro na bateria e Marcelo Mandaji no baixo.  O trabalho hibernou 10 anos e está sendo liberado agora, numa forma de homenagem póstuma, que será disponibilizada em 500 cópias de vinis para os mais chegados entusiastas do rock torto gritado. Aproveitei pra bater um papo rápido com o Ugeda sobre o trabalho.

Escute Melancaronca abaixo e leia a entrevista.


 

Ouvindo o terceiro trabalho da Debate, me remeteu diretamente ao primeiro EP de 2006. Vi aqui que esse foi gravado em 2007, antes mesmo daquele segundo lançamento da fase mais pop do Debate, por que só lançar ele agora? 

O lançamento do disco mesmo vai ser daqui a três meses em 500 cópias de vinil. O processo todo (gravação, mixagem e master) foi feito por ídolos e ter o disco físico em minhas mãos e colocar a agulha nele sempre foi o objetivo final. Agora só tenho que ir carregar as caixas e procurar amigos animados em ajudar no custo e lembrar da banda. Ter a oportunidade no momento de pagar por tudo isso sozinho foi o motivo básico da demora, mas a verdade é que o Debate como banda acabou antes mesmo da mixagem, então. Demorou para ter vontade e desapego de mostrar o som de uma banda que não existe mais. 10 anos depois parece certo, meio solene. Dá para mim uma perspectiva de como penso música diferente sem tanto grito e barulho desde então.

Neste trabalho também temos "Cadafalso" e "Zé Rico", ambas canções daquele primeiro EP. Foram regravadas por algum motivo especial?

Essas seis músicas eram o setlist-base da turnê que fizemos entre março e abril de 2007 por cinco semanas. Ocasionalmente tocávamos alguma música a mais, mas esses 25 minutos resumiam bem a coisa toda com porrada o tempo inteiro. Gravamos todas as músicas em dois takes de gravação ao vivo como um show. “Cadafalso” e “Zé Rico” eram as músicas mais fortes do primeiro EP e em especial acabar com “Zé Rico” dava um tom de grandiosidade para o fim.



O que este EP difere do de 2006? Na formação da banda, no método e local de gravação, etc. 

A formação da banda é a mesma. Em 2006 fizemos tudo com um pouco mais de calma e overdubs de vocais testando efeitos, ao longo de uma semana em SP com o grande Fernando Sanches no antigo El Rocha. A gravação em Chicago começou ao meio-dia e terminou quase meia-noite, umas 3h ou 4h passando os microfones, 3h gravando e ouvindo as músicas e o resto mixando. Em 2012 o Steve re-mixou comigo por Skype a versão final e a diferença entre a versão mixada no dia em 2007 e a final agora lançada é somente a minha voz.

Foi uma honra trabalhar com o Steve. No final, é um set ao vivo da banda mais ensaiada do que jamais esteve com a gravação dele no estúdio dele.

Todas as letras são suas? Eu percebo sempre um tom melancólico/duvidoso e também saudosista nas suas construções de letras. É por ai? 

Sim, todas as letras são minhas com exceção de uma do primeiro EP em que o Richard [Ribeiro] ajudou com versos, “Nocaute”. Depois de gravada tomamos a música como chata ao vivo e nunca mais tocamos. Sobre o tom que você perguntou, tem de tudo. Com certeza melancolia e dúvida. Para mim tem também uma vontade de que cada letra ofereça uma interpretação (ou mais) dentro dela mesma e não há entre as músicas um tema pré-definido, melancólico ou saudosista ou nada em particular. Mas também tem bom humor e muita piada interna. Meta-piadas. Letra inspirada em esconde-esconde ou jogo de truco gritando “Seis, marreco!”.

A Debate ainda vive ou vai voltar? Digo isso porque você tá morando nos EUA. 

Não existe desde 2011 quando fizemos aqueles shows no nordeste tocando até no Coquetel Molotov, a banda acabou de vez junto com a minha falta de capacidade de tocar as músicas com alguém de novo. Desde então começou até o Rebate, shows com dois violões que fiz com um amigo australiano também chamado Steve que passou um tempo comigo em uma fazenda aqui em SP. Toquei muito viola caipira em algumas cidades pelo Sul nos EUA durante o ano passado e de vez em quando até encontro amigos que lembram de quando tocamos como trio por lá dez anos atrás, é um sentimento muito bom quando lembram dos shows. Estou morando no Arkansas com um programa de rádio tocando música brasileira toda quinta-feira por duas horas.

Por que não existem composições em inglês para a Debate?

Até antes do Diagonal como adolescente escrevia letras para minhas músicas gravadas em fitinhas K7 naquele Gradiente clássico do meu pai e elas sempre foram em português. Faz muito mais sentido para mim para encontrar algum sentido de interpretação pessoal dentro da letra. Antes de qualquer coisa e qualquer um, faço música para mim mesmo. Acho que compor em inglês reduz o número de pessoas ao redor que entendem o que é cantado e isso é muito ruim. Cantar em português para plateias americanas só nos fez ser melhores tocando os instrumentos também e chamando a atenção só para ritmo, melodia e harmonia sem mensagem ou discurso literal.

"Saudades" é o grande momento do Richard no disco e um dos melhores momentos do trabalho. Como é trabalhar com o Richard? Você também o considera um dos grandes bateristas do Brasil? Por ue eu considero e acho que ele é pouco reconhecido até. 

Claro que considero. Como músico dispensa elogios e na hora de tocar faz o ritmo impossível que quiser soar natural e descomplicado. Sobre ser reconhecido, sei como é disputado o tempo dele com baquetas na mão pelos melhores e maiores nomes da música por aí e acho que com quem ele tem trabalhado mostra isso muito bem.



Debate na Casa do Mancha por Samuel Esteves

Por que uma Dodge na capa do trabalho?

Essa é a Vanusa, comprei por U$ 4000 no Craigslist, foi onde viajamos, dormimos e sobrevivemos em 2007 costa a costa cruzando todo o deserto e até debaixo de neve. Fiz outras duas turnês com ela entre 2007 e 2008 e em 2009 até o Garotas Suecas fez sua primeira turnê nos EUA comigo como motorista.

O que significa "Melancaronca"? 

Bom. “Melanca” era o apelido do Marcelo dentro do turnê. Cabeça de melancia. Melanca. Humor de moleque, tem que assumir. Mas rir é fundamental durante stress e fazíamos todo tipo de piada um com o outro para passar o tempo. Ele também era o maior ronco que eu já ouvi na vida. Agora ele se tratou com uma operação e está muito melhor. Ainda bem. De qualquer forma, eu sugeri o título na época por representar o que mais acontecia todos os dias durante o nosso tempo na estrada: o Melanca ronca.

De onde você tira as suas letras? É tudo baseado em fatos da sua vida ou quais referências? 

Tiro de alguma situação. “Remete” além do truco tem verso inspirado em aposta jogando FIFA no videogame em um hotel em Florianópolis pelo que eu lembro. “Zé Rico” tem frase como “sorte ou revés” que é uma homenagem ao Banco Imobiliário que joguei muito quando criança. No caso dessas músicas o instrumental era ensaiado e composto em ritmos puxados de ensaio e depois eu tentava encaixar algum grito entre os compassos e nessas horas o que eu escrevo pode vir de qualquer coisa que tenha acontecido durante o tempo de composição das músicas.

Algum tempo atrás num papo sobre o Diagonal você disse que usa a "música como interação social"? Ainda existe essa indole no fazer musica?

Para o Cláudio escrever letras partia de uma inspiração muito forte engajada como crítica social. Ele é um professor e muitas vezes ele chegava a cantar como um. Algo muito forte somado na voz poderosa que tem. Ele até hoje mantém um site chamado Sinal de Menos em que esse viés fica bem claro. Eu sempre admirei profundamente as letras dele desde do Page 4 e tocar com o Cláudio foi uma formação musical completa. Mas respondendo a pergunta, fazer música parte de qualquer tipo de experiência pessoal mais do que uma abordagem conceitual direta. É um registro de uma emoção a ser ouvida e dividida mas não tem que ter nenhuma interpretação justificada. A “Interação Social” partia de shows onde o Cláudio chegava até a dar palestras como o show em BH que foi o último que fizemos juntos. Mas, para mim, música é tocada e ouvida sem ser (muito) explicada.


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