Ouça 'FRUTO II' o novo lançamento da Fluxxx Records



FRUTO é um projeto movido por duas cabeças bastante atuantes no vaporwave e na música eletrônica/experimental independente. Thiago Miazzo é velho conhecido aqui do Altnewspaper e de quem acompanha o Hominis Canidae. Além do trampo homônimo, ele é uma das cabeças do GRUTA e também toca o projeto Pallidum. Miazzo talvez seja um dos nomes mais atuantes no harsh noise nacional, sendo também um dos responsáveis pelo antigo selo, TOC Label, ao lado de Cadu Tenório. O outro nome do FRUTO é o produtor paulistano Victor Lucindo, mais conhecido pelo seu trampo com a alcunha de Iridescent e que no ano passado lançou um novo projeto usando seu sobrenome Lucindo bem legal, além de ser um dos responsáveis pelo selo Fluxx.

Reunindo suas influências é possível antecipar que FRUTO é um show de colagens e cortes, emulações na velocidade do som e muitos loops. O que deixa o trabalho único é que ele foi desenvolvido a partir de trilhas sonoras de novelas dos anos 80. Um prato cheio de brasilidades oriundas de muito jabá radiofônico e que povoam o imaginário de praticamente todo mundo que tem trinta anos e nasceu neste país tropical.

FRUTO II, segunda mixtape do projeto, é o novo lançamento do selo Fluxx, que você ouve em primeira mão aqui no Alt. Resolvemos bater um papo rápido com os dois sobre as ideias que povoam o projeto.




Queria saber o que os trampos solos de vocês somam neste trabalho e no que diferem.

Miazzo: Somam pois ensinam os macetes, e alguns deles servem pra quase qualquer coisa. E a prática ensina mais do que tudo. Gravar algo quando se está inspirado é prazeroso, mas a inspiração vem e vai quando quer e por isso não substitui o método.

Lucindo: Cara, eu acho que tem alguns pontos em comum. A gente gosta de ir processar sons sampleados de hits ou TV ou seja lá o que for e isso acaba dando num material que chega ali pro vaporwave, não sei se conscientemente ou pelo fato da gente estar maltratando esse tipo de material. Mas tem outras coisas da gente solo que não tem nada a ver umas com as outras.

Vocês acompanharam novelas nos anos 80 ou é apenas um revival maravilhoso dos tempos que não vivemos? Por que eu nasci em 82 e lembro da maioria das novelas dos anos 80 nas reprises, não necessariamente naquele momento.

Miazzo: Lembro dos anúncios de trilhas de novela nas propagandas de televisão. A publicidade de uma maneira geral me é mais nostálgica do que a maioria das novelas e demais programas da época.

Lucindo: Eu lembro das reprises também, já ali pro início dos anos 90 no Vale a Pena Ver de Novo. Eu sempre ouvi muita música gringa e foi só depois de adulto e de já estar produzindo há um tempo foi que eu saquei o quanto a música dessas novelas tá ali escondido no meu imaginário. Pelos hits, pelos timbres de synth das trilhas incidentais. Então eu nem tinha idade pra ter visto nem necessariamente assistia muito as reprises, mas tá ali no imaginário, e é interessante dissecar isso.

Como foi realizar um trabalho a partir das trilhas sonoras desta década? Rolou alguma pesquisa dos sons ou vocês selecionaram as novelas que mais gostavam?

Miazzo: O Lucindo chegou com algumas trilhas completas e a partir disso, a escolha foi meio aleatória. Foi uma pesquisa sem afeto, tudo picotado na hora. Eu sabia o que estava procurando e deixei o álbum rolar.

Lucindo: Na real a gente sequer pensou muito na novela em si. Não sei qual foi o processo de escolha do Thiago, mas pra mim a textura e os timbres são o que mais pesa na hora de pesquisar, mais do que a novela ou as canções originais em si. Porque é ali que rola pra mim essa pesquisa de em que essas lembranças estão guardadas e que papel elas tem.



Vocês também acham que a Marieta Severo não envelhece? 

Miazzo: Eu acho que ela está ótima!

Lucindo: Eu não canso de olhar pra essa capa, a Marieta tá gatissima.

A ideia de mixtape vem exatamente do período que vocês usaram como norte para o trabalho. Existe aquela teoria dos 20/30 anos a moda volta, queria saber como vocês enxergam o retorno das mixs e atrelado a ideia de mixtape, o retorno dos k7 também. Vocês estão usando o formato?

Miazzo: Ouço mixtapes sempre e aprendo muito com elas. Gosto da ruptura, do acúmulo de tracks e informação. Quanto ao k7, eu tenho usado tapes por toda a vida, foi nesse formato que gravei as minhas primeiras demos e que lancei diversos álbuns desde então. Apesar dos transtornos, é o meu formato favorito.

Lucindo: Eu particularmente não ouço muito mix. Acho que pro FRUTO funciona porque estamos picotando um monte de material em pequenos trechos de vários estilos em outros tantos. Então o material se encaixa muito nessa estética de mix, mudando de estilo e ritmo sem muito aviso. Acho que é um resumo de como seria se o FRUTO fizesse uma festa de brasilidades (risos).

O Thiago usa k7, eu nunca fiz. FRUTO II a gente vai soltar inicialmente numa tiragem em mini-CD, e embora a gente não tenha conversado sobre isso, acho interessante porque esse trampo acaba ficando com significados de épocas bem diferentes sobrepostos.

Como vocês enxergam o anacronismo do formato e modelo de trabalho com a tecnologia (internet e computador) usados para produzir os sons?

Miazzo: A tecnologia torna o processo mais simples e visual. Pescar sample quando se encara o espectro sonoro na bolinha do olho resulta em algo bem diferente daquilo que você conseguiria com uma fita de loop, por exemplo. Tem coisas que aprendi a fazer bem no computador, outras não. No fim das contas, é uma ferramenta de trabalho como qualquer outra.

Lucindo: O disco tem esse anacronismo estampado meio de propósito, eu acho. Dois caras que fazem música sem muita ligação com nada brasileiro, que nunca (eu, pelo menos) ouviram muita brasileira na vida, investigando lembranças de sons que a gente não lembra de novelas que a gente só viu reprise. A gente tem toda essa herança estética que talvez se construa de maneira bem menos consciente do que imagina e quando você começa a investigar elas se conectam de formas estranhas. Tem coisa ali no disco que é propositalmente digital mas que tá cumprindo um papel ali que um corte tosco de k7 numa mix caseira faria. É meio escrachado, de um jeito quase sem querer. No fim, com o disco pronto, acho que a gente conseguiu fazer um monte de paralelos pessoais, estéticos, até políticos e isso não foi nada projetado.

Também é legal transformar em funk futurista algo que é na tua memória soa nostálgico e quase singelo.

Por que FRUTO?

Miazzo: FRUTO’ é bem tropical, na verdade era o nome da série que acabou sendo incorporado ao projeto.

Saudosismo enquanto forma de arte: Vaporwave, downtempo, noise, experimentação sonora. 

Lucindo: Criar a partir de coisas que eu acho que lembro é um exercício em entender muita coisa que tá acontecendo agora e vão acontecer depois.
 

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