Mostra de Cinema Feminista - O cinema como espaço de empoderamento feminino

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Mostra de Cinema Feminista - Créditos: Letícia Souza

A Mostra de Cinema Feminista chegou a sua terceira edição. Acontecendo dentro da programação da Diversas - Feminismo, Arte e Resistência, neste ano ela acontece no SESC Palladium, entre os dias 8 e 12 de março com todas as sessões gratuitas, além de debates e mesas. Realizada pela Coletiva Marta, a Mostra vem com o desejo de contribuir para o empoderamento feminino e apresentar o olhar de mulheres diretoras sobre diversos temas.

Querendo saber um pouco mais sobre a mostra, o que move as meninas da Coletiva Malva e o crescimento do número de mulheres em várias áreas artísticas, conversei com a Leticia Souza e a Rita Boechat.

A Mostra de Cinema Feminista surge em 2015, dentro da programação da Diversas - Feminismo, Arte e Resistência. Como foi esse começo? Desde o início eram vocês quatro organizando a mostra?

A Mostra de Cinema Feminista surge em 2015 junto com a Diversas, um festival que reunia centenas de mulheres artistas de Belo Horizonte, com o objetivo de difundir sua arte ou seu discurso, sendo que todo o processo foi autogestionado. Assim também foi a construção da Mostra. O processo foi bem simples, sem muita expectativa do que poderia ser, pensamos as exibições no intuito de agregar o audiovisual no debate artístico da mostra da Diversas. Recebemos 6 horas de filmes que foram exibidos ininterruptamente no Baixo Centro Cultural, no dia 8 de março.

Em sua primeira edição, a Mostra aconteceu em espaços abertos no centro. No ano seguinte, teve uma edição itinerante que ocupou locais como o Espaço Comum Luiz Estrela e o Cine Sem Churumelas, em Contagem. Quais as vantagens e as dificuldades de levar a Mostra para dentro de um espaço institucional como o Sesc Palladium?

Tradicionalmente, o cinema clássico – a sala escura, o telão – se faz entre quatro paredes. O espaço era reservado somente para grandes produtoras de cinema do mundo a serviço do grande mercado que se tornou o cinema, principalmente o cinema hollywoodiano. Nesse sentido, essa experiência de estar num espaço institucional que te acolhe e aposta nesse tipo de cinema insurgente que propomos é extremamente relevante, e mais ainda nesse momento delicado de abalo da democracia pelo qual estamos passando. Todo dia a gente acorda e se depara com novos golpes. A mulher, nesse contexto, e principalmente a mulher negra, pobre e trans, são as que mais sofrem com as consequências dessas arbitrariedades cinematográficas porque ela são instaladas num lugar fixo, a partir de uma única representação. Enquanto sabemos bem que uma mulher não pode ser representada de uma única maneira. É a partindo dessa premissa que as integrantes da Coletiva Malva adotaram como critério principal a direção do filme ser realizada por uma mulher. O olhar de uma mulher sobre as temáticas feministas e qualquer outro tema nos interessa.

Ter o privilégio de exibir e abrir alguns debates dentro do Sesc Palladium é importante, mas não deixamos de lado a ideia de fazer uma itinerância da mostra, construída em espaços alternativos como a rua, coletivos, praça, bares ou teatros. Esses locais são sempre bemvindos como parceiros. A intenção é atingir diferentes públicos. Assim como fizemos com nossa parceira Dayane Gomes, idealizadora do Cine Sem Churumelas, descentralizando a mostra com exibição em Contagem. Existe essa questão que é levar o cinema onde ele não está ou onde ele não é acessível.

Nos últimos anos, vimos crescer o número de coletivos de mulheres em diversas áreas artísticas. Na opinião de vocês, qual o impacto desses coletivos tanto na produção artística, quanto no combate ao machismo?

Sobre o impacto, talvez a gente não possa dizer muito sobre isso porque estamos no meio dele... estamos também sendo impactadas. Mas não há dúvida que fomos muito inspiradas por esse movimento crescente de coletivos artísticos e sentimos a necessidade de disseminar por aí as obras de mulheres que não tinham espaço nos festivais tradicionais.

O desejo é que a mostra contribua no sentido de empoderar as mulheres, mostrar a elas o que há por trás do discurso patriarcal e capitalista. As pessoas saem modificadas de uma sala de cinema. E acreditamos que não é diferente com muitos homens. Aliás, a gente quer ver muitos deles durante a Mostra. E sabemos que cada vez mais eles estão presentes.



Quando e por que surge a Coletiva Malva? Vocês podem nos contar um pouco da história de vocês? E quais os planos daqui para frente?

A Coletiva Malva surgiu em 2015 com Leticia Souza, Mirela Persichini e Rita Boechat fazendo alguns trabalhos de produção para algumas mostras institucionais. Mas desde a primeira edição da Mostra, Daniela Pimentel já fazia parte da equipe somando na produção, que na época reunia outras mulheres também. Em 2016 a parceria se firmou ainda mais com a realização da segunda edição da Mostra de Cinema Feminista e do Cine-Rua Feminista, atividade da Virada Cultural.

A coletiva, então, se constrói de forma muito despretensiosa e audaciosa. Nós somos quatro mulheres com formação em história, ciências sociais, psicologia e comunicação. Nós gostamos de cinema e estamos temos como objetivo difundir outros discursos. A gente sabe da responsabilidade do trabalho que fazemos e nosso desejo é poder a partir do olhar de uma mulher, mostrar a realidade que nos foi negada. Sempre falaram da mulher a partir de uma ficção. Nós utilizamos a ficção e o documentário para mudar o paradigma de representação ao qual nós fomos subjugadas.

Esse ano a gente está tendo um retorno da imprensa e dos amigos muito bacana. Algumas diretoras já entraram em contato demonstrando interesse em realizar a mostra em outros locais, como Florianópolis e Ouro Preto. Algumas delas virão prestigiar o evento e agregar na discussão depois das exibições.

Nós estamos fechando uma parceria com o MIS (Museu da Imagem e do Som) e Rede de Saúde Feminista para mais uma mostra com debates focados em temas muito específicos da condição da mulher ontem e hoje. Há um interesse em realizar uma mostra na rua Guaicurus, reduto da prostituição em Belo Horizonte, em escolas e ocupações.

Nós estamos constituindo um acervo com uma temática bem diversificada que nos permite criar série de sessões. E só podemos fazer isso porque as diretoras autorizam a exibição dos filmes no ato da inscrição na Mostra, possibilitando que as obras caminhem e continuem promovendo um discurso fundamental no avanço da sociedade.

Quais realizadoras e projetos inspiram vocês? E quais os filmes imperdíveis de diretoras, do Brasil e do mundo?  

Letícia: as mulheres fazendo cinema e interferindo nesta arte ainda tão dominado por homens nos interessam bastante e isso é muito importante. Nesse sentido, considero que os EUA por ser uma indústria mais forte no cinema, tem também iniciativas mais avançadas como é o caso da distribuidora Array de Ava DuVernay, diretora do filme Selma, que tem como foco distribuir trabalhos de mulheres e minorias. Além do filme Selma, Ava DuVernay também lançou o 13ª Emenda no Netflix, que considero um filme imperdível. Outra mulher estadunidense que admiro muito é a cineasta, roteirista e produtora Shonda Rhimes. No Brasil, recebemos mais de 100 filmes de cineastas maravilhosas somente nesta mostra, fica até difícil destacar, dentre estas e outras tantas poderia destacar Paula Saccheta, Day Rodrigues, Claudia Matos, Cris Ventura, Hannah Serrat, Joice Temple, Susan Kalik, Susanna Lira, Rodriane DL, Stheffany Fernanda, Beth Formaggini, Fabiana Leite, Juliana Antunes, Marília Rocha, Iasmin Tayná, Sabrina Fidalgo, Viviane Ferreira, Juliana Vicente e por aí vai.

Rita: projetos muito parecidos com a proposta da Malva estão borbulhando por aí como você mesma diz e muitas delas me apreciam, as Subjetivas que se propõem a criar um entrelaçamento de olhares femininos no audiovisual e recentemente lançaram um plataforma online pra manter e divulgar esses trabalhos, a Mostra das Minas que cada mês faz uma exibição somente de realizadoras, o Coletivo Vermelha um grupo de diretoras e roteiristas que agora também estão construindo uma mostra de curta metragens dirigidos por mulheres. São movimentos de mulheres muito semelhantes  a nós que nos inspiram a seguir. Pessoalmente me toca muito a possibilidade do cinema como contador de uma nova história e também como buscador da realidade, nesses sentido cito Helena Solberg e Maria Clara Escobar no que se propõem em enfrentar a consolidação da maneira de se fazer documentários na construção de seus discursos frente a uma historicidade masculina. Fico embasbacada com a insurgência imagética e a força do cinema de Yasmin Thayná. Ainda vivo o movimento que os filmes da Mostra causaram em mim, Topofilia de Amanda Pontes e Retalho de Hannah Serrat me aguçam profundamente pela maneira que foram montados e construídos: a fluidez dos deslocamentos tanto reais entre cidades, quanto ficcionais, na obviedade da possibilidade de sempre se ter uma nova história daquilo que foi contado, surpreendem no que causam com o cotidiano de mulheres e um homem em seus movimentos pessoais.

Terceira Mostra de Cinema Feminista
Onde?
SESC Palladium - Av. Augusto de Lima, 420 - Centro - Belo Horizonte - MG
Quando? De 8 a 12 de março a partir das 17hs.
Quanto? De graça.
Info? Facebook

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