Os 'Cortes Curtos' do Kiko Dinucci


Os pequenos cortes são os piores porque normalmente você não sabe de onde vieram e são os que mais incomodam, ardem e coçam. Na música, palavras, arranjos distorcidos, sonoridades agressivas, ferem tanto quanto os cortes e Kiko Dinucci fez isso de maneira impecável no seu mais recente trabalho — o décimo sétimo se contarmos todos os trabalhos disponíveis pra download em seu site, mesmo que este seja o primeiro no qual o compositor paulistano assina solo, todos os outros vem com parceiros como o bando Afromacarrônico, Juçara Marçal, Douglas Germano, entre outros.

O sincretismo sonoro de Cortes Curtos parece levar Kiko de encontro as suas origens barulhentas do punk. É um apanhado de uma carreira que teve início no final dos anos 80 em bandas punk de garagem, a mutação do artista que popularizou-se como compositor e sambista ao longo dos anos 90 e começo dos anos 2000. Tal miscigenação sonora o levou a ser uma das cabeças de um dos projetos brasileiros mais interessantes deste século, o Metá Metá.  Falando na banda, o segundo trabalho do grupo, Metal Metal, foi o primeiro indício do retorno do Kiko ao caminho fugazeiro — e o experimento dele com o Marcos Campello também ajudou a dar indícios do esporro que seria o CC.

Trata-se de um trabalho que vai muito além do post-hardcore citado do Fugazi. Na real, é post alguma coisa, não algo que esteja sendo explorado no momento. E o mérito sonoro está na bagagem de influências do Kiko e também da grande quantidade de parcerias deles com nomes talentosos. Passado o carnaval, é bem complicado conectar o Thiago da Charanga do França, com o que aparece aqui, por exemplo. Mas isto é característica da pluralidade dos metás e é isto que faz da banda foda como ela é. Para além dos Metás e agregados, Kiko consegue adequar nomes da música pop como a Tulipa Ruiz do jeitinho necessário no mundo moderno e misturado. Sem esquecer de nomes da saudosa vanguarda paulista, que já acompanham o Kiko em outros projetos, como Ná Ozetti e Suzana Salles.

O nervosismo sonoro contrasta com vocais hora tranquilos e limpos, outrora gritados como pede o instrumental que o acompanha. Kiko é um dos melhores compositores do Brasil na atualidade, então é chover no molhado falar das letras. Melhor que tentar explicar os Cortes Curtos, é dar voz ao artista que Kiko representa. Isto porque é sempre bem legal falar com alguém que não se limita em suas respostas e fala tudo que pensa.

Escute Cortes Curtos abaixo e leia o papo.



Eu consigo ver uma linha entre o Kiko de “Samba Manco” e o compositor de Cortes Curtos. Queria saber o que você acha daquele compositor e o que você acredita que ainda pode melhorar.

Acho que carrego traços de vários outros trabalhos meus em Cortes Curtos, da época do AfroMacarrônico ou do Duo Moviola que foi um disco que influenciou muito os caminhos meus como do Douglas Germano também. Eu enxergo que houve mudanças de lá pra cá, mas nada foi drástico, foi natural, acompanhando os movimentos da vida, novas parcerias, etc. Cortes Curtos não é conclusão da minha obra, quero fazer muitas coisas além desse disco daqui em diante. Quero investigar mais, talvez deixar a guitarra um pouco de lado. Estou gostando de sample e sintetizadores, quero mexer nesse vespeiro agora.

Achei esse texto a mesma vibe do Cortes Curtos, queria que você comenta-se:

Eu conto histórias das quebradas do mundaréu
Lá de onde o vento encosta o lixo e as pragas botam os ovos
Fala da gente que sempre pega a pior
Que come da banda podre
Que mora na beira do rio e quase se afoga toda vez que chove
Que só berra da geral sem nunca influir no resultado
Falo dessa gente que transa pelos estreitos
Escamosos, esquisitos caminhos do gonçalo do bom Deus
Falo desse povão, que apesar de tudo
É generoso, apaixonado, alegre
Esperançoso e crente numa existência melhor
Na paz de Oxalá

Gosto muito desse disco Plínio Marcos, Em Prosa e Samba (Nas Quebradas do Mundaréu), adoro a obra teatral do Plínio, ele foi muito revolucionário a sua maneira. Vendia seus livros nas filas da peça, com um A de anarquia pintado com branquinho na bolsa de couro, sempre de chinelo, era um libertário, nunca quis se encaixar em nada, foi um bruxo solitário e sempre amou o samba, viva no meio da nata da malandragem paulista: Geraldo Filme, Carlão do Peruche, Talismã, Toniquinho Batuqueiro, Zeca da Casa Verde. Há uns 4 anos atrás eu montei um show relendo o disco do Plínio, junto com Juçara Marçal, Rodrigo Campos, Thiago França, Marcelo Cabral, Felipe Roseno e Wellington Pimpa, foi uma escola.

Existe uma necessidade em falar da morte? Pergunto porque é um assunto meio intocado que você faz referência de maneira um tanto tranquila.

Não sei porque esse assunto sempre volta. Acho que é um tema natural na arte. Alvares de Azevedo, Nelson Cavaquinho, Nelson Rodrigues, etc. Muito já se falou da morte. Ninguém sabe como é e todos temos curiosidade, mas ninguém quer morrer pra saber. Acabei me acostumando em falar da morte com certa leveza na minha obra. Mas tenho medo de morrer, como qualquer bicho desse planeta. Esses dias vi o professor Walter Garcia da USP analisando a música "Ciranda do Aborto", ele fez uma leitura bem interessante, que o fato de a música ser lançada no disco Encarnado na mesma época das manifestações de 2013, poderia ser um prenuncio de um "aborto político" que viria a estourar com esse golpe de estado horroroso que estamos sofrendo. Fiquei em choque, nunca havia pensado nisso. Então falar da morte pode ser algo mais amplo do que somente a morte física, ela pode ser psicológica, emocional, política.

Eu queria que você me explicasse a manha pra usar o cinismo como arte. Porque eu consigo ver um certo cinismo na sua interpretação/letra/etc.

Cinismo é uma ferramenta de arte, humor, um monte de coisa. É comum na música brasileira. Augusto de Campos se referia a Lupicínio Rodrigues como Lupicínico. Noel Rosa era muito também. Pode ser uma ferramenta muito útil pra se fazer crítica. O cinismo foi amplamente explorado pelos surrealistas. Buñuel é o cínico mor. Hoje em dia "cínico" é quase um xingamento. mas na arte é muito útil.

Qual o peso de ter amigos talentosos? Porque acredito que possa ser meio maldito também.

Pode ser bom e ruim. Amigos talentosos podem te influenciar a fazer coisas talentosas também. Amigos talentosos podem te despertar inveja. No meu caso se isso acontecer, pode me incentivar a querer criar algo bom também. Pra mim nunca foi um problema, porque eles me ensinam muito com toda a paciência do mundo. Prezo muito o trabalho em parceria, não me sinto bem trabalhando sozinho. Gosto de trocar.

Existem dois formatos de shows do CC: você sozinho e o trio. Pelo menos na semana de lançamento rolaram as duas. Queria saber se serão mantidas ou se agora vai ser apenas com o trio.

Na semana de lançamento rolou somente uma, porque tinha um contrato com o SESC com o compromisso de não fazer o mesmo show na cidade naquele período. O show que fiz na mesma semana foi um improviso livre em cima de uma afinação de guitarra que inventei na hora do show, não tinha nada a ver com o CC. Adoro fazer isso, experimentar uma afinação nova na frente da plateia, Você perde os desenhos verticais da escala e tem que aprender na hora. Isso instiga o cérebro a pensar em coisas que você nunca faria com a afinação convencional.Mas já fiz muito shows do CC somente com voz e guitarra, foi uma fazer de experimentar as 40 canções curtas que eu tinha feito.

São Paulo é tema recorrente na sua obra: não existiria o Kiko compositor sem um cidade tão caótica?

Creio que não. Nasci em SP, fui pra Guarulhos com 6 meses, voltei pra SP depois de adulto. É natural pra mim falar da cidade e principalmente viver a cidade, andar de ônibus, caminhar. Adoro andar no centro e não perdi vínculo com a periferia, posso dizer que conheço um pouco a cidade. Mas falar de SP não era muito normal a uns tempos atrás. Adoniran, Vanzolini falavam, os tropicalistas falaram, depois Itamar Assumpção, Luis Tatit, Arrigo Barnabé falaram. Mas me lembro que falar de SP nos anos 90 não pegava bem. Até hoje ser paulista não pega muito bem, paulista faz muita merda, se acha o nova iorquino do Brasil e quem é massa acaba tomando porrada por esses babacas. Adoro uma cena do filme A Mulher de Todos, do Sganzerla, no qual a personagem principal xinga um cara de paulista. Nesse contexto todo eu só consegui ser paulista, sempre vi a galera das rodas de samba daqui fazendo sotaque carioca pra parecer malandro mítico, cara nos anos 90 que só falava de maracatu pernambucano e se achava mangebeat pra caramba. Eu só consegui ser eu mesmo, um carinha de Guarulhos, suburbano e por conta disso, com uma visão um pouco mais ampla do que o paulista classe média comum tem.




“Uma hora da manhã” é uma fanfic impressionante. Observar é tão importante quanto a narrativa pra você? Sei lá, situação meio banal preconceito em SP, diz ai.

Não sei o que diabo é fanfic, pesquisei no Wiki e continuei sem entender. Eu gosto de transformar a realidade em ficção. tudo o que está no Cortes Curtos podem acontecer na vida real, uma briga no mercado, uma criança morrendo por causa de crack, um cara que pula de um prédio, uma amizade fake de Facebook. Eu sempre fico esperto na rua com o que está acontecendo. as vezes eu estou sem assunto e basta caminhar meia hora pela cidade para o assunto surgir. Às vezes eu acho que é até surrealista demais, quando a realidade chega assim, no susto, a gente custa a acreditar, parece um balet do absurdo. A Juçara Marçal diz que eu sou para-raios de acontecimentos estranhos, que eu entro em um lugar e as coisas começam a acontecer que nem num filme do Fellini, pessoas gritam, dançam, deliram. Esse mundo todo tá na nossa frente, é só a gente pescar o que nos interessa. Pra mim a rua é a grande fonte.

Lendo resenhas de Cortes Curtos, todas falam que você mistura elementos modernos com samba e hardcore. Eu queria saber o que você considera moderno no seu som?

Não tem nada de moderno, o CC é um disco dos anos 90. É o Kiko com 40 anos, visitando aquele Kiko punkizinho dos anos 90 e falando, olha dá pra fazer punk assim também. Eu queria ter ouvido o CC nos anos 90. Demorei 20 anos pra achar esse som que eu queria ter ouvido. No fundo eu faço música pra superar meu tédio musical. tem vez que o som que eu quero ouvir ainda não foi inventado, então num ato de desespero eu começo a tentar inventar esses som, sempre sem muito sucesso, mas acabo aprendendo muita coisa no caminho. Quando eu ouvi o Da Lama Ao Caos no começo dos 90, me deu muito alívio de alguém estar fazendo um som assim aqui no Brasil, o rock aqui sempre foi meio ridículo, uma cópia tabacuda do que se faz na gringa. Queria ter ouvido algo como o CC também, um jeito brasileiro e adulto de tocar rock. Mas sem querer comparar um disco com o outro. Digo mais pelo conceito mesmo. Eu não fico pensando se meu som é samba, hardcore ou qualquer outra coisa. Isso não me importa. Faço o som do momento e pronto, amanhã posso fazer um som totalmente diferente. Esse ano eu não quero fazer discos com guitarra. Esse negócio de Samba Sujo pode virar uma prisão. Vou fazer um disco de samba limpo se me der vontade.

Cortes Curtos e Classe Idade Média se completam? Existe essa relação?

Acho que eles têm a ver. Ambos os trabalhos são habitados por seres urbanos neuróticos. Hoje em dia com essa onda de fascismo, as pessoas perderam a vergonha, estão cada vez mais agressivas, preconceituosas. Eu mesmo tenho vontade de sair dando na cara desses fascistas, porque fascista só conhece a linguagem da força. Só que se eu sair espancando fascistas pela rua estarei sendo meio fascista também. Então é preciso respirar e manter a calma. Não entrar nesse ciclo demente. A morte do fascismo será a cultura. O dia em que as pessoas tiverem conhecimento, esses burrões fascistas vão morrer na praia.

Algumas críticas do Cortes Curtos relembram que sua arte/carreira não é de fácil acesso/digestão. Queria saber o que você pensa deste tipo de comentário?

Fico puto com isso. Acho a música mainstream muito mais difícil de digerir, parece cocô com lantejoula, o Domingão do Faustão que é difícil de digerir, o BBB, música comercial dos EUA, tudo com o mesmo som comprimido e cantores(as) de auto tune. A música criativa é difícil de ser digerida em um país onde a cultura e educação é jogada no lixo. Vejamos o Temer, ele é um boçal típico, tenta falar bonito e se atrapalha todo, nunca teve contato com arte, ele não sabe o que é Shoemberg, Stockhausen, é uma anta sem cultura. Ele acreditaria no Hittler com aquele papo de chamar a arte moderna de arte degenerada e muita gente da população também acreditaria. Enquanto a gente for esse paiséco dominado por coronéis burros, minha arte vai dar indigestão. Quando o Feliciano fala na internet logo após o MEC ser desmontado: artistas, procurem um emprego. Isso é uma reprodução tabacuda do conceito de arte degenerada do Hittler.

“Nota-se, superficialmente, que o disco todo deve ter sido composto em duas camadas: uma é a da harmonia básica da música e a melodia das letras; a outra é o modus operandi de um Omar Rodríguez-López, que coloca sua guitarra a serviço do caos e da subversão de uma composição.” Acertaram? Se não, como é?

Cortes Curtos não tem harmonia, já foi composto em cima de riffs. Gosto do Omar, acho ele inacreditável, um puta guitarrista, mas não foi no caso uma influência. Na verdade não sou muito influenciado por guitarristas, gosto do Lee Ranaldo e Thurston Moore, do Tom Verleine, do Robert Fripp, Adrian Belew, do Marc Ribot, do Catatau, do Caçapa, do Siba. Mas confesso que as bandas ou tocadores de outros instrumentos podem me influenciar mais, caras como o Brian Eno, Charles Mingus, Miles Davis, Ornette Coleman, John Cale podem me influenciar mais do que guitar heros de plantão. Agora uma coisa que eu quis fazer no CC que eu nunca pude fazer nos outros discos é botar a banda tão alta, tão na cara, do jeito que o Stooges fazia. Aqui no Brasil a guitarra, por exemplo, é encarada como um inimigo domado, fica ali baixinho no seu canto, é herança da Marcha Contra a Guitarra nos anos 60, guitarra como coisa do diabo, por incrível que pareça, isso ainda existe. O CC não tem nada a ver com caos, é bem organizado, tocamos em uma tacada só, sem intervalo, é como uma peça erudita.

A primeira vez que conversamos sobre o disco, você me disse o nome: Cortes Curtos, e o que eu pensei foi algo assim: “Os pequenos cortes são os piores, porque normalmente você não sabe de onde vieram e são que mais incomodam, ardem, coçam, etc". Entendo que o nome é por conta das letras e canções curtas, mas ainda assim, acho que meu pensamento foi contemplado na obra. O incomodo tá lá.

São vários incômodos, as pessoas ficaram putas de o disco ser um único arquivo. eu explico porque. Eu ia lançar com as faixas separas, mas cada pessoa que botava no iTunes saía uma ordem diferente, mesmo a gente configurando os arquivos corretamente. Então não quis arriscar. Como o disco tinha uma narrativa, padronizei a minha montagem. Pessoas ficaram indignadas por serem obrigadas a ouvir o disco em uma tacada só. É muito difícil o cara sair daquele lugarzinho de conforto. Eu gostei do texto que fala dos pequenos cortes, foi boa sacada, não havia pensado nisso. O nome é roubado do filme do Robert Altman, mas nunca tinha pensado nos detalhes, era por causa da duração das letras e das canções mesmo.

Como é ser “narrador das angustias cotidianas”?

É fácil, vem tudo de graça até mim. É só viver e receber. Cabe a mim como narrador, dividir com o público essas angústias. A angústia vem de graça a qualquer ser humano.



“Todos somos ridículos nas bolhas das redes sociais”. Morena do Facebook vai nessa ideia, a mesma do tribunal do Tom Zé. Você acredita que a internet desmascarou o ser humano? Finalmente nos assumimos enquanto ridículos errantes?

Infelizmente sim, o ser humano não vai deixar de ser ridículo. O Facebook fala muito sobre as pessoas. Uma pessoa que faz selfie feliz, logo vemos que ela está deprimida e triste. É um mundo de aparências que desmorona ao olhar mais atento. Sem falar na coisa insuportável de todo mundo se sentir na obrigação de opinar sobre qualquer merda. O Facebook tá insuportável, é um desfile de gente imbecil e autoritária. Tenho saudade do Myspace, o pessoal só ia atrás de som, de descobertas musicais, era também uma alienação, mas olhando pra trás hoje, era muito mais sadio. Mas sinto que o caminho não tem mais volta, a gente tá alcançando o limite da nossa capacidade de exercer a mediocridade.

Li que você fez cerca de 40 canções para chegar nessas 15 do Cortes Curtos. Então pergunto: Quando sai o volume 2?

Por mim nunca. As canções que não entraram não entrarão em nenhum outro trabalho, não sobreviveram ao tempo, usei uma fatal lei de Darwin para selecionar apenas algumas. CC é um trabalho antigo que eu estou mostrando agora. Quero fazer algo diferente no próximo.

Sei que o lance de primeiro disco solo é puro mercado, mas queria saber por que não assinar esse em conjunto como o Padê ou os com o bando AfroMacarrônico. E também porquê os outros não foram solo, já que no fim das contas esse também tem uma banda.

Eu também não entendo. Talvez esse seja solo porque eu canto as músicas ou porque está somente meu nome como artista, ou porque eu estou na capa. Eu não sei te responder. Quem dita essa regra geralmente é o mercado e todo mundo segue como se fossem leis. As pessoas reclamam que meu disco é uma faixa só, reclamam que eu não escrevo o nome dos discos nas capas, reclamam porque eu não me assumo como solo. É difícil trabalhar fora dos padrões, tem pessoa que fica agressiva quando é obrigado a pensar, reage ferozmente.

Foram cinco dias de gravação do disco, que conta com Cabral e Machado, que estão completamente envolvidos nos seus trabalhos e você nos deles. Então eu queria saber se existiram ensaios prévios ou se vocês usaram do conhecimento um do outro pra improvisar no estúdio durante as gravações.

A gente fez dois ensaios prévios, eu tocava os riffs e os caras criavam em cima. Depois já entramos em estúdio. O fato de a gente se conhecer bem ajuda muito, cada um faz sua onda mas dialogando sempre com o que o outro está inventando também.

Um amigo meu diz que o disco da Juçara é “Fugazi em estado puro”, e eu sei que você participou daquele trampo. O seu ele disse que era “Fugazi em estado bruto e barulhento”, pelas entortadas sonoras que aparecem nos cortes. Eu sei que Fugazi não inventou a roda, sei que o punk brasileiro e o post-punk já tinham muito de estranhezas em São Paulo, mas você ainda (ou já) prestou atenção na banda do Ian?

Prestei muita atenção no Fugazi na adolescência! Eu vi o show deles aqui em SP em 94 e foi transformador pra mim, por vários motivos. Eu nunca havia visto uma banda gringa tocando em um lugar tão pequeno, o Chico Science fez o primeiro show aqui em SP no mesmo ano e na mesma casa, enfim, a gente só via banda gringa em estádios ou Rock 'n Rio ou Hollywood Rock. O fato de seus ídolos do rock tocarem em um palco pequeno e botarem pra fuder com o mesmo JCM da Marshal que você usava era um sonho. Os caras botavam pra fuder ao vivo, era muito energético. Confesso que me desaponto quando ouço os discos, nunca chega nem perto do que era ao vivo.

Quando penso no Fugazi o nome da música do Nirvana "Smell Like Teen Spirit" me faz muito sentido, é curioso não sentir isso com o Nirvana e sim com o Fugazi que é a antítese do mainstream. A minha ligação com o Fugazi é bem afetiva por conta desse show, mas não é o som que eu piro hoje em dia, dos 70/80/90 eu prefiro o PIL, Gang Of Four, Minutemen, Sonic Youth, Hüsker Dü, Joy Division, Talking Heads.

Experimentar é necessário porque…

Não sei fazer de outro jeito. Eu não consigo acertar de primeira, preciso investigar, pesquisar, arriscar, experimentar. Me interessa mais esse processo do que um possível resultado final.

Cortes Curtos foi pensado como o roteiro de um filme, no qual as canções que compõem o registro se intercalam para formar uma única narrativa de aproximadamente 40 minutos". Você é cineasta, existe a pretensão de levar o CC do som para a imagem?

Nenhuma vontade de fazer isso. Nunca me passou isso pela cabeça, agora que passou estou ciente que não seria legal. Melhor fazer um filme original, outra estória.

Como romper a barreira do ostracismo e sair da zona de conforto?

É só ter coragem. É mais fácil ter um empreguinho bosta e fazer tudo o que seu chefe te mandar. Tem gente que é feliz assim, sabemos que no fundo não é. Me lembrei que quando fui fazer o exame médico para o exército em Guarulhos, um sargento gritou, quem for pederasta de um passo a frente, apenas um cara se apresentou. O pessoal achou graça. O sargento disse ao cara, apresente os documentos para aquele soldado, você está dispensado. Ou seja, o cara que se apresentou como "pederasta" se livrou do exército em 5 minutos. O caras que riram serviram 1 ano, se fuderam. Só um cara corajoso daria esse passo a frente como esse cara deu. Talvez ele nem fosse gay. Ele foi ousado. Na arte é a mesma coisa. No meu caso eu vi que na música comercial eu não teria espaço porque eu não dançaria conforme a música que os caras ditam, então fui pra outro lado. Já que não pertenço ao mercado, posso fazer o que eu quiser, um disco de samba outro de death metal, ninguém vai me censurar ou me prender por isso. Agora o que me dá tristeza é a pessoa ser do meio alternativo e fazer uma música bunda mole que sonha em ser maistream um dia, isso dá uma tristeza, a pessoa jogar a liberdade dele fora, o cara do mainstream é até mais honesto do que o indie bunda mole.

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