Se você é mulher, vai precisar falar mais de uma vez

por - 15:00


Ana Moravi e o Madame Rrose Sélavy - Foto: Nereu Jr.

Há quase um ano, a artista visual, curadora  produtora e cantora Ana Moravi (Madame Rrose Sélavy) e a jornalista, instrumentista e compositora Pamilla Vilas Boas (Lollipop Chinatown) se reuniram comigo para conversarmos sobre música e a cena independente. Exemplos de atrizes de um cenário underground, trabalhando em uma linha tênue entre o pop e o experimental, as duas ilustram não só as dificuldade de uma mulher se firmar no cenário musical, como também sintetizam a carga de crítica e expectativa que acompanham as minas, cantoras ou instrumentistas. Mas antes de tudo isso, é sempre interessante voltar ao começo, como disse o mestre.

Ana Moravi veio do cinema: ela conheceu Delani Lima, o TucA, em um curso sobre cinema de garagem, fez seus primeiros "lá, lá, lá" nas gravações ao vivo do projeto "Em Dias de Surto" (que posteriormente teve todo seu material deletado), acompanhou a trajetória do Splish Jam e, finalmente, se tornou vocalista do Madame Rrose Sélavy, em que queria cantar, como ela mesma descreve, misturando funk e coral de lavadeira.

“Canta não, canta não. Só declama”


Pamilla Vilas Boas começou a compor ainda criança. Sua música para o dia do livro se tornou um sucesso e seria apresentada ao vivo na escola. Quando se preparava para cantar, ouviu de um professor que seria melhor só declamar e, assim, descobriu que cantava mal, um pensamento que a acompanharia por muito tempo. “Com 9 anos eu tive meu primeiro trauma, porque daí o meu trauma se estendeu, acho que tem a ver um pouco com minha vida. Eu já fazia muita música, aí criança, fiz uma música pro dia do livro e todo mundo achou muito legal aquela música. Ela circulou pra escola inteira. Quando fui cantar a música, o professor falou assim “Canta, não, canta, não. Só declama””, lembra.

Também foi escrevendo que conseguiu dinheiro para sua primeira guitarra: ganhou quatrocentos reais em um concurso de redação, escondeu o dinheiro na meia, veio para Belo Horizonte cheia de anotações sobre guitarras com microafinação e se dirigiu a Guitar Shop (loja que embrionou o Pato Fu). Ali aprendeu que lojas de instrumento são um pesadelo para garotas e trocou todas as informações técnicas pela guitarra verde que a acompanha até hoje.

Os caminhos das duas se esbarram em diversos espaços alternativos da cidade. Alguns eventos, como o Não Onda, algumas Zonas Autônomas Temporárias, como o Mapa:/, são cenários desses encontros. Depois do trauma de infância, Pamilla buscou aulas de canto, mas não se adaptou às fórmulas encontradas ali na maioria das vezes. Aprendeu a tocar guitarra sozinha e acredita que isso lhe deu um estilo e também uma série de manias quando toca. Depois de muito tempo sendo guitarrista (e também compositora e vocalista) na Cáustica – que no último dia 03 apresentou seu novo EP com uma nova formação – ela deixou a guitarra de lado na Lollipop Chinetown. Com o synth e o pedal de voz, tem brincado com o vocal, mas recorda que existiram uma série de dificuldades no caminho e que a busca pelo “cantar bem” segue martelando em sua cabeça. “Eu percebi isso, que talvez seja uma característica mesmo, essa coisa de não conseguir cantar tão bem assim. Mas o que poderia ter sido, acho que, claro, né, a gente vai vivendo... Mas talvez se eu tivesse encontrado essas outras pessoas, talvez eu tivesse experimentado esse não cantar de uma forma interessante, né? Estética...”, conta.



Ana não toca. Tentou aprender cavaquinho, contrariando os conselhos do irmão, e não passou da primeira fase, de adaptação física ao instrumento. Para Ana, "essa coisa de não saber tocar é uma pressão fodida, né? Eu sinto uma insegurança danada em relação a cantar e não tocar nenhum instrumento e é um cantar assim que eu costumo dizer que eu canto de safadeza, que tem uma voz legal, que alcança uns lugares, mas não tem um domínio. O alcance, de onde pode chegar e tudo…”, explica.

Nessa busca por uma voz particular, por um estilo, por estar a vontade no palco e curtindo o momento de fazer e apresentar a própria música, Ana resume "É como se a gente tivesse que lidar o tempo inteiro com a ideia de que existe um jeito certo de fazer as coisas."  Pamilla completa: "Sim!! E o jeito certo é masculino."

"A galera não tá aberta a ir prum lugar e ver bandas novas"


O Madame Rrose Sélavy era uma banda de videoclipes. Tanto às canções quanto os vídeos eram gravados no apartamento da Ana. Foi o Miguel Javaral – que na época nem tinha esse sobrenome – quem tirou a banda da sala de casa e levou pro palco, no primeiro Não Onda. Sobre os impactos dessa transição na banda, Ana revela. “Quando a gente vai pro palco, a energia é outra porque aí tem um outro tipo de resposta, você vê um outro alcance da energia, do som, da banda, você encontra mais pra tocar, passa a se ver mais pra ensaiar, cria uma outra dinâmica dentro da banda.” De lá para cá, o Madame tem tocado com o maior número de parcerias, em casas pequenas, como a Benfeitoria ou em shows em teatro, como na Mostra Arte Sônica. Trocou a bateria eletrônica por um baterista de verdade e incluiu um baixista, virando uma banda enorme para os padrões atuais (duas guitarras, um baixo, dois vocais e bateria).



Pamilla (que eu conheci tocando em um banheiro) criou junto com a banda, a ideia genial da Turnê Universal na Casa dos Amigos. Com shows intimistas em quintais ou na sala das pessoas, a Lollipop movimentou uma série de apresentações ao longo de 2015 com um público fiel e atento à música do grupo. O movimento foi importante até para eles irem se entendendo melhor, afinando o som, criando condições para as projeções que apresentam no show e também é um passo para uma cena mais sólida. “Eu to sentindo que essa coisa de casa de show, não é mais essa grande experiência que era assim…”, diz Pamila e Ana complementa “A galera não tá aberta a ir prum lugar e ver bandas novas”.


Entre o dia que tivemos essa conversa e hoje, duas coisas fundamentais aconteceram: Pamilla desengavetou uma série de composições e fez uma apresentação quase-solo, dentro do projeto Mulheres Criando, que vem cavando a abertura de espaços para shows autorais tanto quanto criando palcos para cantautoras. Nesse projeto, ela retornou à sua guitarra e fez um movimento importante de assumir o próprio estilo artístico.

Ana, que comentou neste dia da dificuldade de conseguir uma casa de pequeno porte que assumisse os riscos de apresentar uma banda desconhecida em um fim de semana, ajudou a trazer a Little Monster para Belo Horizonte, para dois shows catárticos - e lotados - em locais que respiram experimentação em BH: a Gruta (prestes a encerrar as atividades) e o Piranhas.

"Você pode fazer uma coisa de várias formas, mas não pode não se assumir"


O Madame sempre foi uma banda performática. Mesmo quando eram apenas quatro – a formação original era Ana Mo, Tuca, Lacerda e Pix – eles tinham uma capacidade impressionante de encher um palco. Eu costumava chamá-los de micareta experimental. Com o conforto de dividir o palco com outro vocalista, Ana diz “eu sempre tive essa coisa de qualquer coisa deixa ali e vai pro cantinho, backing vocal, deixa a coisa acontecer suave e isso tem um preço grande no sentido de uma certa assunção. A medida que o tempo vai passando, você vai percebendo que você tá tímida até em ensaio. Então fica um negócio meio esquisito”. Nesse período de quase um ano, Ana assumiu uma persona e sua postura de palco se tornou muito mais enérgica, performática e presente.

Pamilla também vem se colocando mais. “Eu acho que é sempre um problema.. É uma questão pra todo mundo, né? Porque você pode fazer uma coisa de várias formas, mas não pode não se assumir”, conta. Com um histórico longo de várias bandas, ela destaca a importância de se impor diante de um grupo em que todo mundo quer tocar alto, mostrar o próprio instrumento, muitas vezes ignorando que o vocal (e as letras) também são parte importante da música. “Eu tive banda com mulher, mas tive muito grupo com homem e parece que em algum momento você é sufocada assim, sabe? Isso é uma coisa que eu fui massacrada nessa coisa de banda que é ‘solta a sua voz!’ [fazendo voz autoritária]. Oh velho, eu não quero soltar minha voz. Será que cantar bem é soltar a voz? Não! Não necessariamente, é sempre essa sincronia da sua voz, que é só sua, misturada com as sensações que a voz, ela também traz, fundamentalmente, então não tem a ver com soltar a voz ou não, a voz pode ser pra dentro, não importa”.

"Fazer assim, com alma, sangue no olho"


Entre sons desligados no meio do show e estratégias de como lidar com os vendedores em lojas de instrumento, as meninas falam sobre suas referências. “Pra mim, PJ Harvey, é a primeira que eu lembro. Aquelas outras, esqueci... Mercenárias. Eu fui num show delas, foi foda, tava vaziaço, eu fiquei “não acredito”, lembra Pamila.

Pamilla Vilas Boas no Suricato

Já Ana vem de um histórico de música popular brasileira e mistura muita coisa. “Quando eu era nova, minha família escutava mais música popular brasileira. Acho que de mulher, a primeira seria a Elba Ramalho, e de canto mesmo, quem me deu uma pilha assim “cara, esse negócio de cantar é diferente” foi a galera que cantava com o Itamar (Assumpção)”, conta. “Sou enlouquecida com a Suzana Sales, acho ela foda. Quando eu era nova, muito pretensiosa que sou (risos), eu pirava com Nina Hagen e falava que queria cantar igual Nina Hagen e Diamanda Galas. Depois eu falei cara, calma, menos, menos... (risos) mas eu pirava muito com elas de referência. Agora, quem me impressionou muito era Suzana, Vânia (Bastos), as Orquídeas. Foi um som que me deu vontade de cantar, uma coisa meio canto interpretativo, uma coisa meio cênica também”, complementa.
                                                                                                     
Por fim, Ana dá a letra. “O que convence, o que segura a onda no final das contas, e eu acho que isso vale pra qualquer mulher é: a gente tem que descobrir o que a gente gosta de fazer e fazer muito”. Pamila concorda. “Exatamente! E esquecer o resto!” e Ana completa a dica. “Fazer assim, com alma, sangue no olho.”

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