O Rio de Janeiro pós-apocalíptico em 'AM_PAR_SIS', novo disco do Sentidor

por - 13:42



O Sentidor, projeto experimental do João Carvalho, aproveitou essa sexta-feira depois da aprovação da terceirização (e do começo do fim do mundo no Brasil) para lançar seu novo álbum, AM_PAR_SIS. O disco é diferente do que ele vinha fazendo: aqui temos uma história e um tema. A parada se passa dentro de um Rio de Janeiro pós-apocalíptico em que o grupo sobreviventes acaba achando uma caixinha de música que toca Tom Jobim e partir de então há uma transformação nas pessoas.

Não entendeu muita coisa? Achou a ideia demais? Vem com a gente que eu e o Diego Albuquerque literalmente trocamos uma ideia enorme com o João sobre esse disco, as influências, Adorno e o rei Roberto Carlos. A ideia foi fazermos uma conversa espontânea, sobre tudo, sem perguntas pré-feitas nos moldes do jornalismo do dia a dia. Foi uma experiência. Esperamos que vocês experenciem.



Paulo: então, mano, tava pensando numa fita hoje enquanto ia pra faculdade. O Sentidor tem essa fita de ser um projeto completamente livre né? Ou eu to viajando?

Diego: Oi

João Carvalho: Vou chegar respondendo de voadora. Então...

Paulo: o título vai ser UMA ENTREVISTA ESQUIZOFRÊNICA COM João CARVALHO

João Carvalho: Sempre foi um projeto de experimentação pra mim em que eu testava as ideias que não eram muito aceitas nos outros trampos. Acho que por isso é o lugar aonde consigo falar conscientemente das coisas que eu li, discutir os assuntos que eu quero é tudo mais.

Paulo: Então, eu perguntei isso, cara, porque assim, esse disco novo tem todo um conceito. Ele se passa num Rio de Janeiro pós-apocalíptico, uma pessoa encontra uma caixa de música com sons do Tom Jobim e se transforma a partir das músicas (ou foi isso que eu entendi ouvindo os sons e lendo o encarte do disco algumas vezes) e pra muita gente, em uma banda coisa e tal, pode soar como algo esquisito, não? Digo, já pensou em levar uma fita dessa pra El Toro? (risos)

João Carvalho: É exatamente isso a história! (risos). Esse disco em especial ele tem essa história que se conta no encarte, uma série de vídeos que eu ainda tô produzindo pro show de lançamento e a música em si... Então a ideia é de que seja uma parada meio interativa sabe?

Paulo: Tô ligado. Juntar mídias, né?

Diego: Que tipo de apocalipse é? E porque Tom Jobim?

Paulo: falando em juntar mídias, acabou de aparecer um cara no Master Chef falando que tava tocando um som do grupo dele chamado JEITINHO CAFAJESTE.

João Carvalho: Nesse sentido mesmo que você disse de consumir as obras e caber a você como exatamente juntar esses elementos e o que achar deles. Acho que tem muito essa ideia de música processo, de obra incompleta, de ruína e tal. Por isso a metáfora do apocalipse, saca?

João Carvalho: Respondendo o Diego agora (risos).

João Carvalho: Cara, eu até compartilhei umas notícias sobre isso esses dias. Cês sacaram aquele esquema dá estátua do Ozymandias que encontraram debaixo de uma periferia no Cairo?

Diego: Vi por alto.

Paulo: vi não, mano.

Diego: Vi que acharam embaixo de escombros onde era uma casa, coisa assim né?

João Carvalho: A ideia de mundo pós-apocalíptico vem muito desse tipo de situação/metáfora... As cidades vão sendo construídas umas por cima das outras, as coisas vão se perdendo ou ganhando outros significados.

Diego: Tô perguntando por que se for um apocalipse zumbi e o cara moscar ouvindo a música da caixinha, ele se fode.

Paulo: (risos)

Diego: Dai é bom saber né?

Paulo: caralho, já pensou um apocalipse zumbi no Rio? Tem que fazer um disco sobre isso também, João. Olha só, vou até dar o nome do projeto: Rio Sem Nome.

João Carvalho: Risos! Mas ó minha ideia é um apocalipse político mesmo.

Diego: E como você vai levar isso pro vídeo? Ah tá.

João Carvalho: Eu decidi a história na época das tretas dos presídios do norte.

Paulo: que tem tudo a ver com o momento do Braza e do RJ né? O Rio está em ruínas, pelas notícias.

João Carvalho: Eu toquei em Tiradentes e testei alguns vídeos. Fiz uma montagem com imagens do presídio de Natal e ninguém sacou nada (risos).

Diego: Que massa.

Paulo: você projetou no meio do show? Meio Tyler Durden e os pintos no cinema?

João Carvalho: Sim! Projetei cenas dá globo News alteradas e com uns trechos daquela entrevista do presidiário pra VICE.

Paulo: E daí cê teve o insight ou isso foi depois de já ter definido o tema?

João Carvalho: O negócio é que eu cresci na boca dá PPL.



Paulo: PPL que é uma quebrada em BH. Certo?

Diego: Mas aí, por que Tom Jobim?

Paulo: Porque é o Rio, pô.

Diego: Não dava pra ser mais animado? Ou menos bossa nova. Poderia ser funk. Neste argumento ai de porque é o Rio. Marcos Valle, Tim Maia...

João Carvalho: Cara...

Paulo: mas o funk tá rolando, a galera só ouve funk a partir de então, pelo o que entendi no encarte.

João Carvalho: O Tom Jobim pra mim é a cara da instituição carioca tradicional sabe?

Paulo: no termo conservador da parada?

João Carvalho: A parada que ele representa quase engole a música dele em si, sabe?

Diego: Entendi. Então é um lance também de incomodo com o tradicional.

João Carvalho: Isso! E ao mesmo tempo, eu acho que o trabalho dele era muito revolucionário. Mas virou cultura, instituição, estado, sabe? Então é uma ideia meio de confrontar os dois polos

Diego: Porque assim né, tu podia ter pegado o Roberto Carlos e seria outro rolê. É porque sempre fico pensando no quão essa escolha influencia no teu trampo sonoro.

João Carvalho: Sim, mano. A verdade é que ele construiu pra caralho meu gosto musical. E o Tom Jobim é esse duplo, saca? Não é que ele seja conservador nem a música dele.

Diego: É tentar confrontar o estado/o tradicional, mas também homenagem, né?

Paulo: mas ele foi abraçado por esse pessoal como bom gosto né?

João Carvalho: É o que o tempo e a hegemonia fazem com as coisas. Isso!

Paulo: na real, toda essa galera da MPB acaba sendo abraçada como bom gosto.

João Carvalho: Cara, minha pira é que ele é um artista muito diferente do que ele foi vendido.

Diego: O funk tá indo no mesmo caminho, normal o estado e a política abraçar e destruir.

Paulo: bossa nova, tropicália.

Diego: O mangue passou por isso. O rap vai passar.

João Carvalho: Exatamente isso, Diego.

Paulo: mas não é destruir, essa é a fita, eu acho que o lance é outro, é o de se tornar bom gosto.

João Carvalho: É o processo de normalização dá politica. Isso.

Diego: É apropriação, Paulo. Apropriação destrói sim.

Paulo: não, não é esse o papo, a fita é o bom gosto.

Diego: Sim, mas o bom gosto nada mais é que se apropriar para si.

Paulo: isso tem muito mais a ver com o passado e a cabeça da galera em não ir pra frente. Nirvana hoje é bom gosto pra muita gente.

Diego: o carioca da gema, também pode ser da clara né? Mas por que foda-se a clara? Tu sabe a origem dessa expressão?

Paulo: do centro? Do núcleo?

Diego: Nada, isso é mó bobeira, um político do futebol que trabalhava com exercício disse que o carioca come gema pra se exercitar porque é a proteína do ovo e a clara que se foda.

João Carvalho: (risos).

Diego: É bom gosto comer a gema, porque você é malhado, sarado, lindo, a clara engorda. É isso. É a mesma coisa com o Jobim e o estado.

João Carvalho: Acho que vocês dois entenderam esses dois pontos.

Diego: e isso eram os anos 60/70, não 2017.

João Carvalho: Porque o costume é consequência dá apropriação.

Diego: Exato. As pessoas fazem sem pensar. Pense assim: existe toda uma geração que acha que música de natal é Simone e especial de TV é Roberto Carlos e isso rompe a barreira do Rio.

Paulo: Hm… e agora falando do som, só pra não mudarmos o rumo total disso… ou você tem algo a mais pra falar, Diego?

Diego: Esse papo do João com o Jobim é o mesmo da música de espera do telefone ser uma música clássica que na época que foi feita era revolucionária. E hoje é música de elevador.

Paulo: Mas aí, vamos falar de Adorno, então, seus frankfurtiano. Falar de aura, de reprodutibilidade técnica...

João Carvalho: (risos). Sem Marx sem entrevista.

Diego: Vocês tão rindo, mas eu acho o Sentidor Adorno pra caralho...

Paulo: Por quê?

Diego: Espero não ofender, mas falei.

João Carvalho: E é amigo... não nego não (risos). Eu tô entre Adorno e Deleuze hoje.

Diego: Porque Adorno versa muito sobre a sensibilidade do artista na canção. Você tem que ser muito sensível para interferir na obra dos outros e expor sua visão/arte.

Paulo: e é o que rolou com o AM_PAR_SIS né? E eu já vou lançar uma fita: em certos momentos eu o achei mais tenso do que o último disco do Sentidor...

Diego: Antes de falar do som realmente: a escolha das faixas do Tom Jobim foi uma escolha politica?

Diego: Ele é mais tenso. Apocalipse, Paulo.

Paulo: Depressão.

Diego: Apocalipse.

João Carvalho: Sim. Essa coisa da interferência pra mim tem a pira do Plágio Criativo, sabe? Que é o funk basicamente, né.

Paulo: em quais sentidos?

Diego: Colagem é a arte de pegar sons dos outros e criar o seu.

João Carvalho: Mas é uma escolha política sim. É política e pessoal, no sentido de que eu passei muito tempo sem ter coragem de Tom Jobim, saca? Cês devem ter passado essa experiência na escola. De ter vergonha de ouvir as coisas e de chamado de cult, playboy, etc.



Diego: Da música dele? Ou sem ter coragem da bossa-nova-globo-leblon?

Paulo: ah, eu vim de outro rolê, eu ouvia funk, pagode e rap...

João Carvalho: Dá música dele mesmo!

Paulo: nunca fui roqueiro e na escola ninguém nem sabia o que era cult (risos).

João Carvalho: Eu boto fé, Paulo.

Paulo: Mas te entendo. Tom Jobim foi uma fita que eu só fui ouvir mesmo com 18 anos

João Carvalho: Isso. Porque a galera (com razão) entende que já é algo reacionário

Paulo: porque quando eu ouvia achava chato e nada agressivo. Pô, eu ouvia funk proibidão e rap. Depois punk. Me parecia muito blé.

Diego: O que significa ser roqueiro?

Paulo: na escola é curtir rock, ué, principalmente classic rock, rock da Kiss FM.

João Carvalho: (risos) Mas é isso mesmo, Paulo.

Diego: João, tu poderia ter feito esta mesma analogia pensando em BH com o Clube da Esquina, né?

João Carvalho: Exatamente, Diego. Eu cheguei a testar isso, tenho umas pseudo músicas do Clube da Esquina nessa vibe (risos). Mas eu sinto que tô muito ligado emocionalmente com o Clube mesmo, musicalmente, pra conseguir criticar direito.

Paulo: E cê pensa em lançar isso?

Diego: Agora assim: tu se queixa dessa institucionalização do Jobim pelo estado e etc, e isso vai na linha do ser unânime, de ser MPB easy listening. E dá pra relacionar com o fato da galera vender a cena de BH como eletrônica/instrumental. Que tu acaba caindo nessa tag né? Tu acaba virando o easy listening/mais do mesmo/ que era como viam ou vendiam (não necessariamente o que reprensenta a arte do Tom)? Entendeu meu raciocínio? Acho que no fim das contas é sair da zona de conforto (musical).

João Carvalho: Entendo demais, Diego. Tem a ver demais com o que a Geração [Perdida] passou aqui, pro Sentidor também. O que a gente faz depois que deixa de ser perdido? Depois que deixa de ser oposição?

Diego: É nisso que eu quero chegar. Porque acaba sendo uma critica até ao seu próprio trabalho. Porque no fim das contas esta "apropriação cultural do estado" é uma coisa que foge do seu controle. Não é culpa do artista ou da arte. Por mais que eu ache que o Tom Jobim tenha se aproveitado disso pra caralho e ter se tornado bunda mole sim em sua arte.

João Carvalho: (risos) exatamente. É quase um dilema natural né

Diego: Sim, normal.

Paulo: mas será que não é natural fazer isso quando se envelhece?

João Carvalho: Eu era próximo do Tarifa Zero e do MPL e dos movimentos anarcos daqui em 2013 e eu vi essas contradições bem de perto. Eu ficava encucado com isso. Talvez seja. Ou talvez a gente aprendeu a envelhecer de um jeito específico (risos)

Diego: É tipo o Vitor [Brauer] cantar que não se deve confiar em alguém com mais de 30 e pedir pra confiar nele aos 33.

Paulo: eu tô esperando o Vitor fazer 30 pra eu perguntar pra ele se eu posso confiar nele.

Diego: Exato

Paulo: pior que eu sei que ele vai responder "não" (risos).

Diego: Mas assim: Bach não foi famoso, mas Beethoven foi e as melhores obras dele são as últimas e eu posso falar N exemplos que também não ficaram nessa zona de conforto easy listtening. Mas aí fica a questão pro João: Envelhecer é se adequar? Se tornar o easy listening?

João Carvalho: Cara, vou explicar direito. Na verdade, é a grande pergunta (risos)... A verdade é que eu não sei. Talvez envelhecer seja. Mas eu gostaria de acreditar que não (risos). Acho que essas retomadas ao passado são sinal de que algumas coisas ficam esquecidas. Tom Jobim ainda pode ser novo, sabe?

Diego: Cara, mas eu consigo dar mil exemplos de galera que envelheceu e não virou um lance de fácil acesso, fácil de ouvir, mesmo ricos...

João Carvalho: Espero estar fazendo uns beats de funk quando eu tiver velho (risos).

Diego: Novo é ponto de referência, isso é individual.

João Carvalho: Thom Yorkezinho não deixa mentir (risos)

Paulo: mas eu acho que os beats de funk daqui um tempo podem ser bom gosto. Roberto Carlos era a música popular na época da ditadura e hoje tem gente que fala "Música de verdade era Roberto Carlos".

Diego: Chico também, mesmo sendo contracultura, na época. Essa é a questão, ser popular não é ser “easy”.

Paulo: mano, minha família não ouvia Chico. Nunca chegou. Roberto Carlos chegava. Chico, Caetano, Gil… mas isso se pá pode ser porque minha família era da gente minha que só berra da geral sem nunca influir no resultado, né?

Diego: Recife não chegou, nem chegava vinil. Tudo ficava preso na ditadura.

Paulo: meu pai já morava em SP, pô.

Diego: Sim, eu sei, eu tô generalizando, dando exemplos de popularidade. Na real, talvez o ato de envelhecer tenha menos a ver com o ser easy, é mais momento de vida, saca? Que você pensa disso, João?

João Carvalho: É verdade... a real é que é imprevisível, eu acho. É sempre um. Exercício de adivinhação, sabe?

Diego: Chico foi foda no momento da ditadura, porque a ditadura pedia isso. Caetano também, etc.

Paulo: Eu já aproveito pra lançar outra pergunta Será que envelhecer não é se preocupar demais com os aspectos técnicos da coisa? Digo, muita gente envelhece e se pá não é que fica easy, mas é porque tem um apreço técnico enorme por tudo o que faz então nem usa nada eletrônico, tem que ser tudo orgânico, saca o que eu tô dizendo?

João Carvalho: Sim. Acho que envelhecer tem a ver com criar hábitos, vícios.



Diego: Cara, isso é ponto de referência, Thonzinho entrou pro eletrônico tem 10 anos. Depois de velho.

Paulo: eu tô generalizando e falando do Braza e da cena independente do Braza.

Diego: Quem é velho na cena indie braza?

João Carvalho: Acho que deve ter um limite de até quando você consegue se atualizar...

Paulo: Pô, passou de 30 e já teve banda quando era novo pra mim tá velho (risos).

Diego: O Kiko tá se reinventando geral.

Paulo: Mas faz sentido, João eu acho que entendi uma hora você desliga né? Tipo "ah, foda-se o que tá saindo aí, foda-se o que tão fazendo".

João Carvalho: Sim, até por incapacidade de assimilar mais.

Paulo: e mano como você se imagina velho na música? É uma pergunta meio boba, mas me deu curiosidade. Você pensa estar velho e na música?

João Carvalho: Só que eu já vi isso rolar com gente de 50, 30, 90 anos... Às vezes eu acho que vou esgotar música em algum momento (risos). Eu penso em mudar de arte. Fotografia e escrita são coisas que eu sempre flerto.

Diego: Mas tu não acha que é por que tu produz muito isso? El Toro, Rio Sem Nome, COBRANEGRA, Sentidor… Tudo perto.

João Carvalho: É possível. Mas ao mesmo tempo, é tudo muito representativo da minha fase.

Diego: Mas por que tantos projetos?

João Carvalho: De agora assim

Diego: Eu entendo que vivemos num mundo multi, mas Rio Sem Nome poderia ser Sentidor, é permitido ser diferente do disco anterior.

João Carvalho: Acho que é o jeito que eu acho de ter liberdade pra compor. Meio que ter várias máscaras, sabe? Eu sempre tive essa coisa de pensar nos projetos como umas personalidades diferentes.

Diego: Entendi. É porque vira um lance meio esquizofrênico. Você ouvindo vozes diferentes, sendo chamado por nomes diferentes, etc.

Paulo: Não tem a ver em dividir os sentimentos e canalizá-los em certos momentos, com certas pretensões pra cada um deles? Porque eu acho o Sentidor e o Rio Sem Nome projetos diferentes, em temática, sentimentos, estado de espírito e até de pretensão de qual lugar você quer chegar com cada um deles. A mesma coisa pro COBRANEGRA, pra El Toro, que é uma banda, não envolve só você.

João Carvalho: Eu acho que tem das duas coisas. É meio confuso, eu mesmo me confundo. Mas é a única organização que me deu liberdade o bastante. Eu acho que meu trampo evolui meio em espiral sabe? É como se cada ideia tivesse um espaço no tempo pra se desenvolver em cada projeto. É meio um crescimento, sabe?

Diego: Mas aí: como não perder os projetos? Ou não existe essa preocupação?

João Carvalho: Eu não me preocupo mesmo. O COBRANEGRA eu quase não divulguei (risos).

Diego: É mais um lance de terapia, então?

Paulo: Pensar um projeto talvez seja um modo de experimentar com mais intensidade?

João Carvalho: Exatamente isso. Eu sinto que deixo a decisão do que vale a pena ou não ser compartilhado pra quem ouve. Eu não gosto muito de direcionar meu público. Essa vibe mais publicitária, sabe? A verdade é que eu faço isso muito mal (risos).

Diego: E por que o Sentidor segue? É nisso que eu tô querendo chegar: no que o Sentidor é mais importante que o cobra ou os outros pra seguir? É por que é o primeiro? Por que é o único que percebo com temporalidade sadia.

João Carvalho: Entendo. Eu acho que o Sentidor talvez trate dos meus interesses mais íntimos sabe. Mas não é uma obrigação pra mim. No caso eu tenho base pra começar mais dois discos do Sentidor. Daí pra frente é mistério.

Diego: Então essa brincadeira com o Tom Jobim é antiga?

João Carvalho: Ela surgiu tipo ano passado na real! Mas eu devo te passado uns seis meses trampando nele. Mas é um vício também. Um dos meus objetivos no futuro é conseguir me focar por mais de um ano num disco. É tipo um relacionamento, sabe? (risos)

Diego: Falando do novo do Sentidor e do Tom Jobim. Você tem uma fase preferida dele?

João Carvalho: Curiosamente, a fase final do tom Jobim!

Paulo: Na sequência, queria saber porque alguns sons tem o nome em inglês depois do título em pt-br e outros não. Por que a fase final do Tom?

João Carvalho: É a fase que ele fala mais de natureza, sabe? O retorno pro sítio, a coisa do Matita Pereira. Eu acho que é o momento mais espiritual dele. Tipo o Vinícius afro sambas. Eu gosto dessa fase de exílio que esse pessoal teve.

Diego: Pô, eu acho o momento mais copiar Vinícius/Tamba Trio/Sorongo (risos). É a que eu menos identifico o Tom, acho.

João Carvalho: O meu favorito mesmo mesmo é o Passarim, claro né (risos).

Diego: Você já disse que não se preocupa em divulgar ou quem vai ouvir, mas tu tá pensando no momento político pra lançar isso? Pergunto porque afora o gênio musical, Tom Jobim foi um cara elitista, odioso de negros, machista, etc. Você pode incomodar ou ser rechaçado por um bocado de gente. Muita gente não o respeita também por conta disso: elite branca, novela da Globo/Leblon, rico, charuto, whisky e sino pra chamar a empregada negra. Tem um texto irado sobre isso aí que eu tô falando. Eu sei que era uma figura de usa época, mas ele foi morrer em Nova York porque não aguentava o Brasil e o povo brasileiro. Deixo uma linda citação antes de partir: “Nenhuma situação é tão complicada que uma mulher não possa”, Tom Jobim. Ele também disse: “o Brasil não é para principiantes”.

João Carvalho: Sobre o Tom, acho que a escrotisse toda só realça a imagem dos Restos. O que os moleques do futuro encontram são restos do disco dele. A questão talvez seja essa, saca? Depois de destruir tudo que tem pra destruir, o que sobra? Os moleques não sabem quem é Tom Jobim, nem a história passa por julgamentos a respeito dele. Mas ele é uma estátua do nosso passado. Naquele momento, eles tratam os restos do disco com a mesma naturalidade que tratariam qualquer outra coisa. Que é o bonito do sample, eu acho. Cê tem que destruir o que era a música, e ao mesmo tempo a marca dela vai estar sempre ali. É meio paradoxal, eu acho. Tem a ironia disso tudo, né? Eu acho que o Tom Jobim possivelmente acharia esse disco uma merda (risos).

Diego: Responde o lance do nome das músicas em inglês e português aí (risos).

João Carvalho: Ah beleza! Cara, na real essa história é bem menos interessante do que parece (risos). Eu traduzi pra inglês porque vou lançar pelo selo inglês e tal. Eu traduzi os títulos mais complexos, e deixei as expressões brasileiras do jeito que elas são mesmo...

Paulo: eu achei que fazia parte de algum conceito.

João Carvalho: (risos) pior que nesse caso não. Os nomes são todos em referência a momentos da história, né.


Diego: E como foi esse contato aí com o selo nas Europa? O Tom ajudou?

João Carvalho: (risos) cara, era um contato antigo na real. Em 2014, eu acho, eu gravei um disco com um amigo que fiz da Costa Rica e com alguns músicos do povo Ngäbe de lá. O Sounds and Colours é um site britânico voltado só pra divulgação de arte "latino americana" e a gente começou a dialogar mais ou menos nessa época, porque eles gostaram muito desse trabalho. Eles fizeram uma reedição desse disco só com produtores de eletrônica de vários países da América Latina, e no ano passado eu participei com eles de um projeto do Vincent Moon, também relacionado a música eletrônica. Então foi uma relação que meio que se construiu aos poucos. Em algum momento do ano passado eu mostrei alguma coisa do disco pro Russell, que é o cara do selo, e ele ficou muito interessado em lançar.

Paulo: e por que lançar esse disco lá? Por causa do Rio e tal? Cê acha que esse é o seu disco "mais brasileiro"?

João Carvalho: Eu conheci o Sounds and Colours em primeiro lugar porque eles tinham contato com o pessoal do Graveola, daqui. O LG Lopes que é o vocal costumava ter uma coluna no site deles em que ele recomendava música brasileira independente e tal. Cara, é um plano que eu tinha há mais tempo. Tipo, eu sempre recebi uns apoios curiosos ao Sentidor desde o começo que vinham de uns lugares meio bizarros. Uns países do leste europeu, uns velhinhos malucos dos Alpes, sem brincadeira (risos). Quando a oferta veio, eu aceitei na hora. Mas respondendo, sim, eu boto fé que é o meu disco mais visivelmente brasileiro, apesar de eu não acreditar muito nessa história de brasilidade. Mas com certeza ele surgiu numa época em que eu comecei a me voltar pra música brasileira. Até hoje ele é meu disco mais brasileiro, porque eu acho que é a primeira vez que eu trato de algo que é especificamente brasileiro. Os temas. Acho que principalmente a coisa da "Pedreira". Foi a primeira vez que eu tive coragem de colocar algo num disco que fosse literalmente vindo da minha vida, do mundo que eu conheci e tal. Talvez pelo Sentidor sempre ter sido algo muito abstrato, eu tinha um pouco de medo disso. Mas naquele papo de evolução que a gente tava falando, é uma coisa que tá mudando. O próximo disco do Sentidor vai ser mais brasileiro ainda, e não tem referência nenhuma a nenhum artista brasileiro. Mas acho que é isso que eu disse de ser um projeto de crescimento. Eu olho as discografias e eu consigo reconhecer as fases que eu tava passando e tal. Vira um lance de registro histórico pra mim (risos).

Paulo: E mano, musicalmente falando, qual é o cuidado que você toma na hora de usar o computador? Eu acho que às vezes se não tomar cuidado as coisas podem ficar parecidas, sabe? Tipo, usar os mesmos plugins no Fruity Loops.

João Carvalho: Boto fé. Cara, em alguma medida eu ainda tenho muito esse medo.

João Carvalho: a experimentação acho que tem que vir disso também, de começar a prestar atenção no que funciona e no que não funciona. Eu venho tentando diminuir o tamanho dos meus discos porque eu sinto que eu sou uma pessoa meio prolixa, e isso aparece musicalmente também. Por outro lado, a minha intenção com o Sentidor sempre foi de fazer um som meio hipnótico, eu sempre contei muito com a ideia de repetição. Sobre a parada do Fruity Loops, eu morria de medo de que isso acontecesse com o meu som. Esse disco tem a tranquilidade de que todas as texturas vem do Passarim né. Os meios de manipulação que eu usei além dos samples são coisas bem básicas, mas que ao mesmo tempo não são muito lugar comum. São uns glitches “naturais”, de mudar a velocidade de buffer do PC, mudar o tom dos samples, tocar ao contrário, cortar. E tem uma coisa que eu usei pela primeira vez nesse disco, que foi deixar os limites do meu computador modificarem o produto final (risos). Cada uma das músicas tem alguma coisa entre 10 e 20 camadas de áudio simultâneas por faixa, e aí meu computador começava a literalmente gritar durante o processo. Então por cima da base de composição musical mesmo, o Am_Par_Sis registrou todas as travadas que meu computador deu no processo. Nesse sentido, a manipulação é toda meio orgânica, apesar do disco ser todo feito no computador, saca?

Paulo: E essas travadas estão no disco né? Tipo, uns "picotes" ou isso foi você que fez mesmo?

João Carvalho: sim, sim! É isso que eu acho bonito. Chega um ponto que nem eu sei mais te dizer com certeza o que foi o computador e o que fui eu. Vira um Frankenstein (risos). Vira um diálogo mesmo. E uma disputa também. Porque o que eu decidi foi aceitar esses limites todos. Se o computador alargava algum sample ou demorava demais pra soltar outro, ou se ele fazia um glitch que não tava nos planos, eu deixei isso tudo na gravação final. Mas ao mesmo tempo eu tentava contornar pra não perder a ideia que eu queria passar primeiro. E mano, meu PC tem tipo uns cinco anos. Já virou o mesmo tipo de relação afetiva que eu tenho com a minha primeira guitarra e esse tipo de coisa.

Paulo: (risos) nunca vai jogar fora o bagulho. Mas engraçado isso, você comparar o PC com a guitarra. O computador é um instrumento também.

João Carvalho: sim, cara. Eu defendo isso. E acho que é por isso que treto com muita gente daqui de BH de música. Outro dia um caboclo de uma banda daqui tava postando sobre como ele fica incomodado com a música atual ser tão eletrônica e tal. Bicho, hoje em dia a galera acorda no Whatsapp, assiste noticia no PC, filme no computador, galera dorme com o computador na cama, briga no PC, chora no PC. Claro que isso depende de geração pra geração, pessoa pra pessoa, mas eu acho que o computador hoje é uma dos instrumentos mais pessoais que a gente tem sabe. Ainda mais pra quem usa muito. Você entende muito melhor a minha vida e os meus hábitos e as coisas que eu passei analisando as pastas e os documentos do meu Windowzão antigo. Eu acho que é por isso que eu piro tanto com música de computador hoje. Porque tirando aquela parada bem crua mesmo de voz e violão, eu acho que é a coisa mais íntima que pode rolar. Eu escrevo música ao mesmo tempo em que eu leio meus livros e converso com as pessoas, então sai tudo junto.

Paulo: é o lance de ser "mult-task".

Diego: PC é uma banda.

Paulo: PC é tudo. PC e internet.

João Carvalho: (risos)

Paulo: aí eu me lembro dessa imagem

João Carvalho: Sim. Eu adoro essa imagem, mano. Talvez eu esteja mudando completamente de assunto, mas eu piro muito nessas teorias sobre ciborgue, sabe? Porque vira uma simbiose. E eu acho que as pessoas tem uma ideia pronta de que "analógico" é pessoal e "digital" é frio. O que decide se uma música é verdadeira ou não é o quanto a pessoa deixa a vida dela entrar na música. O resto é resto.

Paulo: É até bobo a galera falar isso porque o que tem de banda orgânica fazendo música boba e impessoal e o que tem de gente de rolê de noise fazendo coisa pessoal. Sei lá, eu posso até estar falando bosta, mas o Marco Corbelli é um exemplo que eu sempre cito, o Atrax Morgue. Cara, cê ouve aquilo e te deixa esquisito, te toca de uma maneira foda e é eletrônico. Já teve gente que eu mostrei um disco do VICTIM! e a pessoa ficou com medo.

João Carvalho: É isso véi. Acho que a gente ainda tem dificuldade de aceitar e admitir o quanto os computadores já fazem parte da nossa vida, pra bem ou pra mal.

Paulo: é bizarro porque eu ainda vou além, eu acho que o computador não tem um lance "negativo" na nossa vida. A internet que é o lado negativo. Assim, o computador, enquanto máquina que processa dados, é algo suave, porque é uma máquina. A internet é uma conexão e é um lance feito pelas pessoas, aí que fica uma bosta. Papo meio deprê, ser humano é um lixo, mas...

João Carvalho: Cara, a minha experiência de show mais intensa até hoje provavelmente foi a do Cadu e da Juçra com o Anganga.

Paulo: Esse show é foda

João Carvalho: (risos) sim!

Paulo: mas por quê?

João Carvalho: cara, eles vieram pra cá no Pequenas Sessões devia ter umas 50 pessoas na plateia e a Juçara começou dedicando o show ao rompimento da barragem de Mariana, coisa de uma semana depois do acontecido.

Diego: Tenho um amigo que diz que essa revolução em curso do IA vai ser a nova quebra de paradigma mundial. Máquinas tomando lugar de pessoas, ricos mais ricos e muito desemprego. Do jeito que a música tá impessoal, vai acabar rolando o mesmo, mesmo sendo arte? Já existe app que faz música pop sozinho.

Paulo: eu vi no CCSP, pouco tempo antes de ir pro Recife. Teve gente que foi embora no meio do show. Foi engraçado.

João Carvalho: Ou, eu não duvido não. Eu nem acho que o problema seja das máquinas em si, mas essa evolução tecnológica dentro do sistema que a gente vive é quase impossível não dar merda né. Se você for pensar, o avanço dos apps e dos softwares de música é responsável tanto por esse boom de música independente quanto pelo avanço dessa musica pop pasteurizada. O negócio é que o mercado vai tentar fazer as escolhas sobre o que fica e o que vaza né. Mas a metáfora do disco é meio essa, também. Se a gente sobreviver, as máquinas também devem sobreviver. E aí talvez a reconstrução seja algo que vai sobrar tanto pra humanos quanto pra máquinas (risos). Se a gente conseguiu estragar coisas como a internet, o torrent, o download de música...

Diego: Eu tenho um sketch sci-fi que nunca vou lançar que versa sobre a indústria dos anos 90 da música se vingando 30 anos depois. Comecei a escrever em 2010 e se passa em 2020. Um cara tipo Rick Bonadio opera máquinas que geram música e pra ganhar mais grana contratam bandas para dar cara pro som e fazer shows e etc. Com a database dessa galera, todo mundo é dispensável.

João Carvalho: EITA!

Diego: E eles se vingam da queda no período pirata produzindo em massa de acordo com logaritmos desses streamings que as majors detém dá pra entender os gostos das pessoas.

João Carvalho: boto fé demais. Já viram aqueles livros que a galera vende com fórmulas de música pop? Tipo, agora fica mais fácil de automatizar, mas a galera já fazia isso né. Acho que você devia soltar, Diego, gostei (risos).

Diego: Uma banda de amigos fez uma música inclusive com a Fórmula de Bhaskara...

João Carvalho: caramba...

Diego: Uma música pop. Googla aí: Radio de Outono - “Lady Bhaskara”.

João Carvalho: ia te pedir agora! Vou ouvir.

Diego: Tenho uma última questão. Existem influências para além do tom e mais afim com o cataclisma? Tipo, musicalmente mesmo.

João Carvalho: nó, sim!

Diego: Influências ou referências? Quais?

João Carvalho: cara, acho que mais influências. Nem sei se as intenções dos artistas eram por aí, mas foram trampos que fortaleceram a ideia de música de fim de mundo na minha cabeça. A primeira eu já falei né, o Anganga. Esse aqui é engraçado porque um conhecido me mandou depois de ouvir o Dilúvio, falando que lembrava ele.

Paulo: logo um Tim Hecker...

João Carvalho: o Love Streams, principalmente, que vazou quando eu já tinha começado a escrever o Am Par Sis (tô procurando uma frase do release dele que eu acho incrível… aff não tô achando). E tem uma outra muto forte. Tem uma mina canadense chamada Matana Roberts, não sei se cês conhecem.

Paulo: Porra, conhecemos. Ela é foda.

João Carvalho: Bicho, eu amo como os discos dela parecem um enorme fluxo de consciência. Talvez essas influências fiquem mais visíveis mais pra frente. Eu acho que o Am_Par_Sis é tipo o fim de um período do Sentidor.

Paulo: o período das abstrações?

João Carvalho: cara, não sei se o período das abstrações, mas eu acho que o Am_Par_Sis é meio que um encerramento do estilo de composição e de outras coisas em geral que eu comecei no Memoro Fantomo. O próximo eu tenho certeza que vai ser um racha meio grande. Acho que já te dei ideia sobre até né, Paulo? (risos)

Paulo: Sim. Ritual!

João Carvalho: Eu acho que Diego vai gostar mais desse.

Você também pode gostar

0 comentários