Ouça 'Casa', o EP da Zona LAMM

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por Fabiana Leite

O Dia Internacional das Mulheres, nesta quarta-feira (8), foi a data escolhida para o lançamento do EP Casa, resultado final da residência artística Zona LAMM - Laboratório de Artes Musicais para Mulheres. Criado a várias mãos, o disco sintetiza a experiência de Diana Restrepo, Orito Cantora (Grace Lascano), Jen Del Tambó (Jennifer Meza), Naiara Armendáriz, Nath Rodrigues, Claudia Manzo, além da poeta e convidada Nívea Sabino nas três semanas em que dividiram uma casa em Belo Horizonte.

Para o lançamento, conversei com a ideliazadora do projeto Paula Kimo. A entrevista está de tirar o fôlego e você pode ler aqui embaixo, enquanto escuta Casa com exclusividade no Altnewspaper.




Antes de mais nada, como surgiu a ideia da Zona Lamm? E para você, qual a importância de uma residência só de mulheres? 

Eu acompanhei junto à Embaixada Cultural (que é um coletivo de BH que trabalha conexões entre artistas de diversas partes do mundo) a realização da residência "Imersão Latina", em 2015, no Morro das Pedras. Foi um processo que recebeu quatro homens e uma mulher para três semanas de imersão e gravação de um EP. Na época eu não trabalhei no projeto mas acompanhei a curadoria e me assustou o fato de só duas mulheres terem se inscrito (era uma convocatória para países da América Latina, assim como a Zona LAMM). Dessas duas mulheres a curadoria escolheu uma. Veio a Cláudia Ocampo, de Medellin, que toca violoncelo, uma musicista fantástica que foi selecionada pelo destaque artístico no conjunto de inscritos, mas também tinha algo de garantir uma representação de gênero na residência. A Zona LAMM vem um pouco do incômodo que surgiu nessa época: até quando vamos ocupar espaços por representação, por cota, pra ter mulher, porque é politicamente correto ter mulher, ter negro, indígena, jovem, deficientes, etc.? A residência Imersão Latina era aberta para homens e mulheres, mas porque apenas duas mulheres "ousaram" em se inscrever? Porque temos sempre que ousar para estar? Porque sempre insistir para resistir em espaços mistos? Será que não podemos apenas ser? Poder "ser mulher" num espaço de mulher é a provocação que Vanessa de Michelis, querida que fez Direção Musical na Zona LAMM, trouxe pra mim quando tudo estava começando. Aí eu entendi o que realmente havíamos nos proposto a fazer.
Outra coisa que influenciou bastante foi a minha participação no processo de organização da Mostra Diversas em 2015 e 2016. Encontrar artistas, produtoras, educadoras, musicistas, mulheres de todas as artes e meios reunidas com uma vontade enorme de organizar um espaço de mostra, de compartilhamento, de formação a partir das habilidades e potencialidades de cada uma para fortalecer os diversos tipos de feminismo, em especial o feminismo da mulher negra. Fizemos duas Mostras Diversas sem grana, tudo autogestionada, buscando apoio para estrutura e só. Quando nos juntamos percebemos o quão somos capazes e fortes. O patriarcado nos coloca em crise de competição com os homens, nos coloca em uma posição sempre inferior. A Diversas me colocou em contato com muita mulher massa, aliás, ampliou e fortaleceu nossas redes, nos mostrou que podemos muito, nós por nós. Somos todas Diversas, sempre. Estamos em rede, nos fortalecendo nas camadas invisíveis, sensíveis e também de forma muito concreta, no dia a dia, na vida fora da arte.

Além das residentes, toda a equipe era formada por mulheres, indo contra aquele velho clichê de que mulheres não trabalham bem juntas. Quais os maiores desafios que vocês enfrentaram nesse processo? 

Talvez o maior desafio tenha sido pensar quais são os limites do processo de criação, de entrega, de envolvimento. Foram três semanas muito intensas (+ duas de pré e uma de pós, sem as residentes) e fizemos muito mais do que havíamos proposto inicialmente. Pra mim enquanto coordenadora isso era difícil, porque o projeto tinha pouca grana, mas a equipe tinha muita vontade. Todas nós da coordenação, produção, comunicação, técnica, direção, audiovisual, design recebemos o mesmo cachê: R$ 1.500,00. Um valor simbólico se comparado à dedicação de tempo e energia. Mas todas nós nos envolvemos pela vontade de imersão, de estar ali. Mas acho que exageramos, o vídeo e o EP estão maravilhosos, mas até hoje estamos trabalhando na finalização. Outro desafio, algo que vamos pensar em como melhorar para a próxima residência, tem a ver com o cuidado com as relações pessoais e humanas. Isso não tem a ver com o fato de ser mulher, mas por sermos pessoas diferentes, a maioria se encontrando pela primeira vez ali, imersas numa mesma órbita, por um longo período, cada uma com suas questões, todas tentando se encontrar, com prazos a cumprir, com uma estrutura limitada de trabalho. A convivência foi linda e construímos muito afeto (nos amamos demais e temos muitas saudades), mas faltou um espaço mais dedicado para falar sobre isso. Sobre os afetos, desafetos, emoções e catarses que estávamos vivendo ali. Quando nos reuníamos era para falar sobre os eventos, as oficinas, as músicas, o vídeo, a gravação, algo muito centrado no processo investigativo e criativo. E isso não era algo colocado para as residentes, essa foi a rotina que a própria casa construiu. Cheguei a propor, antes da residência começar, a realização de assembleias diárias (meios aos moldes das assembleias das ocupações) para que pudéssemos falar da vida, da casa, da rotina e não de música. Mas a ideia não emplacou, todo mundo ali estava em relacionamento sério com a música, cada uma com a sua própria música e com a música das outras.

A princípio, a ideia não era produzir o EP, né? Você pode contar para a gente como foi o processo de criação e produção nesse tempo tão curto? O documentário também surgiu durante a residência?

Então, o EP e o vídeo documentário já estavam previstos no projeto sim, inclusive saiu na convocatória. O que fizemos de extra foi:

1) Uma convocatória local - a residência era só para mulheres do Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai ou Colômbia, mas fizemos questão de abrir uma segunda convocatória, dessa vez local (BH-Brasil) para envolver a cena musical da cidade neste processo;

2) Um canal de vídeos no youtube - a ideia era produzir um doc curto mas Fabiana e Mirella filmaram a ponto de gerar conteúdo para um canal (aquela coisa do limite que falei lá em cima, não tinha limites, risos);

3) A Zona LAMM Aberta - criamos esse espaço na residência para conectar ainda mais as latinoamericanas residentes com a cena local, foram dois finais de semana de evento;

4) Um site - pelo projeto original a ideia era trabalhar a comunicação via Facebook, mas Silvia abriu o Wordpress, desvendou o código e fez, ela nunca tinha feito isso mas criou um site gratuito, super bem estruturado, com todo o conteúdo da residência, algo super importante para o portfólio das artistas residentes;

5) E ainda as oficinas, (risos). Todas as residentes + Flora Guerra (técnica de áudio) ministraram oficinas ou laboratórios abertos ao público de mulheres.

Sobre a produção do EP: a primeira semana foi de muita troca entre as musicistas, sempre com mediação da Vanessa. Tocar juntas num dos eventos da Zona LAMM Aberta foi fundamental para elas já entrarem no arranjo coletivo. Na segunda semana elas escolheram as músicas que seriam gravadas: a proposta era gravar músicas autorais das compositoras (Nath Rodrigues, Orito Cantora, Claúdia Manzo), também surgiu uma música  eletrônica experimental (de Diana Restrepo e Naiara Armendáriz, as duas vieram com essa pegada da música experimental), uma música poesia (parceria de Diana Restrepo com a poeta Nivea Sabino de BH) e uma música coletiva. Essa música coletiva só quem viu ao vivo viveu. Trata-se de uma orquestração de vozes, Vanessa como maestra e todas as residentes com suas vozes. É uma das coisas mais lindas que já escutei na vida. Já a terceira semana de residência foi no estúdio pra gravação do EP. Pouco tempo para muita coisa, mas elas quiseram assim. O EP podia ter duas músicas, mas ele tem cinco e isso é fruto da intensidade da Zona LAMM.

As residentes me falaram bastante sobre as tranformações que sofreram durante a Zona Lamm. Como foi a sua experiência nesse período? 

Eu já vinha num processo de transformação, mas acho que cada vez mais quero trabalhar com mulheres. O encontro é muito libertador. Eu também aprendi muito sobre música, sobre produção musical, sobre a cena. Eu sou produtora cultural, trabalho com projetos, eventos, festivais, faço tudo. Mas sempre estive mais próxima do campo da educação, depois do audiovisual e do cinema, da mobilização social. Aprendi a trabalhar com a música na Zona LAMM.

5)Você acredita que, apesar ter muitas mulheres na produção, o campo ainda precisa avançar em termos de machismo? E como você enxerga o seu papel como produtora cultural? 

Acho que o campo, a sociedade, o mundo precisa avançar em termos de machismo. O que vivemos é estrutural e desconstruir isso é um processo. Mas a cultura, vem avançando nesse sentido, as mulheres da cultura, as campanhas, as hashtags, as políticas de fomento, os espaços exclusivos. Estamos numa era de empoderamento das mulheres, de aumento das denúncias sobre todo tipo de violência, da intervenção coletiva para que as coisas se transformem. O campo da música é muito machista, mas eu venho do cinema e acho que lá isso tá um pouco pior. Acho que as mulheres começaram a montar suas bandas antes de fazer seus próprios filmes. Mas agora também estamos filmando. Como produtora busco sempre privilegiar as mulheres nas equipes, porque tem muita mulher boa de trabalho. Sempre chamar atenção para os micro-machismos de colegas, amigos e companheiros. Acho fundamental que a pauta do feminismo seja sempre colocada, as pessoas precisam falar. Acho que como produtora meu papel é colaborar para que cada vez mais os espaços de fala sejam garantidos e ocupados, fala na música, na arte, na política, na rua, e isso vem por meio de um evento, uma mostra, uma oficina, uma residência.

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