A vida é um cabaret, colega!

por - 12:24



O que falar dessa obra-prima do cinema musical que fez e faz escola no gênero até hoje? A verdade é que nem sei porque posterguei em assisti-la. Mesmo que tardiamente, essa baita experiência imagética, sonora e sobretudo, histórica, me ganhou em arrebato.

O longa de Bob Fosse, Cabaret (1972), ambienta uma Alemanha pré-nazista e a fuga que a arte nos concebe para não morrermos da verdade, como diria Nietzsche. É hostil a realidade que circunda a alegórica personagem Sally, vivida pela impecável Liza Minnelli, mas nos palcos do Kit Kat Club todas as volubilidades do mundo externo permanecem lá, fora do espetáculo.

Sally é de um estudo de personagem quase lírico: enérgica, aparentemente segura e dona de si, na verdade carrega uma candura apaixonante. A moça é a atração principal da casa noturna, onde realiza números de canto e dança repletos de ideais libertários/políticos; o que me faz lembrar do circense Tatuagem (2014), de Hilton Lacerda, e os gritos contra repressões ditatoriais sob forma da mais genuína arte.

Sally e sua trupe de artistas criam um universo próprio de irreverência, zombaria e autoria indo de encontro ao sistema protocolar. A busca de prazer entre o limiar do tradicionalismo e as fronteiras da liberdade de expressão é o mote do longa. Através da criação explosiva e debochada a afirmação do espaço daqueles que são esmagados por uma conjuntura armada, mas que resistem, se renova.

Esse símbolo de força que é encarnado pela figura feminina na obra traz ainda a reflexão de toda uma classe artística do gênero que encontra em meio ao solo pobre, um espaço fértil para semear a aversão contra a estereotipagem da figura da mulher de forma subserviente ao homem.

É na chegada de Brian Roberts (Michael York) que toda essa simbologia se apresenta. Brian, professor britânico, está em busca de moradia e encontra nas instalações do simpático bordel, lugar para iniciar um novo estilo de vida. Com o suporte e companhia aprazível de Sally, tudo se torna mais fácil pro rapaz. Não tarda e os dois passam a se envolver. Admiração e leveza permeiam essa relação de muito companheirismo.

Até que um terceiro membro entra em jogo, o barão Maximiliam von Heune (Helmut Griem). Forma-se um triângulo amoro intenso, ainda que efêmero, e eles se deixam levar pelos desejos: cada um com o seu, distinta e secretamente.

O que dá o tom a trama e as subtramas são justamente tais descobertas e o questionamento do que é libertino e libertário: quem poderá julgar? É tão mais interessante se deixar levar pelos sentidos do que se render ao tradicional. O filme propõe essa e outras discussões bastante pertinentes, como por exemplo, o aborto e a decisão da mulher sobre o próprio corpo.

Cabaré é filme panfletário, de discussão. Histórico, ainda que circunstancial. Alegórico e singelo. Deleite aos olhos e ouvidos. Atemporal.


Cabaret (Cabaret) – EUA /1972
Direção: Bob Fosse
Roteiro: Jay Presson Allen

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