Um papo sobre 'Em Busca da Viagem Eterna' com Diego Xavier da BIKE


Em abril a BIKE lançou Em Busca da Viagem Eterna, segundo trabalho após o bem recebido 1943, de 2015. Se no debut, a BIKE era apresentada primordialmente como um projeto de Julito, inclusive com a maioria das composições tiradas de uma viagem dele com alucinógenos (origem do nome do grupo, do disco e tudo mais que você já deve estar sabendo), o segundo trabalho já demonstra uma sonoridade mais coesa com o que a banda apresenta ao vivo — fruto da vivência da estrada e também do envolvimento dos demais integrantes no processo.

Lançado pelo grupo de maneira independente no Brasil, o disco pode ser lançado na gringa pelo selo do Danger Mouse e quem sabe em vinil, como o trampo sonoro e visual merece. O nome do disco é uma homenagem ao cineasta Alejandro Jodorowsky e já mostra uma BIKE sonoramente melhor trabalhada e até mais facilmente digerido, mesmo que a psicodelia ainda seja o norte e todos tenham se unido nesta ideia de “viagem” como se a alucinação fosse também sonora.

Aproveitando a ida do grupo para uma tour massa na Europa, com shows no Primavera Sound, Portugal e Reino Unido, batemos um papo com Diego Xavier, guitarrista e vocalista da banda, para entender um pouco mais sobre a viagem eterna, o que mudou na banda entre os trabalhos, as expectativas sobre a tour gringa, entre outras coisas. Em algumas questões, tivemos também a ajuda do Julito na resposta, como o papo sobre o Jodorowsky, já que o Diego não é tão cinéfilo. Acenda um e leia ai.

Outro dia no seu instagram pessoal tu falou algo sobre a BIKE fazer uma versão para alguma canção do Afro-Sambas. E eu achei a ideia massa, principalmente porque a BIKE é vista e relacionada meio que diretamente ao indie rock e o psicodélico gringo, mesmo cantando em português. Sempre rola um: pra quem gosta de Tame Impala e etc. Não sei se esse lance da versão é real ou zoeira sua, mas mostra que vocês estão mais intimamente ligados a música brasileira e até mesmo regional/ a tal da tag MPB do que propriamente o indie alguma coisa moderno. Fala um pouco sobre isso 

Diego Xavier: Sim é real! É mais uma versão pra outra coletânea, somando a nossa versão de Walter Franco, Serguei e Lula Côrtes e Zé Ramalho. A gente curte fazer essas versões de artistas nacionais devidamente por isso, somos muito associados a Pink Floyd e Tame Impala, a gente gosta é claro, mas temos sim nossas influências nacionais e estamos afim de experimentar mais                       

Entendi. É porque vocês são associados e linkados a bandas relativamente mais internacionais. Usando como base aquele show do Recife.                       

Diego Xavier: sim, a gente acha isso massa! Eu mesmo pessoalmente, não me ligava muito na mpb nacional, comecei a conhecer mais agora mesmo, devido ao BIKE, e essas pesquisas e trocas com as bandas, esses dias mesmo o Tagore me mostrou um som do Erasmo que eu não manjava e era extremamente psych chill out. 

Falando ainda da ideia da BIKE "internacional", vocês têm uma tour pela Europa batendo na porta já: shows em Portugal, Espanha (Primavera Sound) e Londres até agora pelo que vi. Como rolou esse contato e essa tour?
                       
Diego Xavier: Rolou no festival Moveis convida em Brasília ano passado. Conhecemos pessoalmente o pessoal do Primavera, e eles viram nosso show, depois encontramos eles de novo na SIM SP e já começou um flerte. Tivemos a confirmação esse ano e começamos a correr atrás de outros shows, um amigo nosso está marcando pra nós na Inglaterra, vai rolar um na Escócia, e estamos fechando os de Portugal ainda. Mas tá uma correria absurda isso aí, pra pagar essas contas e as contas do disco que ainda sobraram. Mas a expectativa é positiva, esperamos fechar em torno de 18 a 20 shows, fazer bons contatos, já tínhamos uma resposta de alguns países, principalmente Portugal, então estamo na esperança de rodar bem.


Lendo textos sobre o novo disco achei isso: “são versos existencialistas, reflexivos e espirituais.” É só isso mesmo? Porque me parece existirem influências externas até mesmo ficcionais no trabalho. 

Diego Xavier: existe sim a porcentagem da ficção nas letras, mas mais pra ajudar a encaixar as frases e textos, e tentar de alguma forma dar uma "imagem" aos versos. Existe ali muita coisa pessoal na verdade, só que com a nossa roupagem de brisa e viagem, para que elas se conectem mais no contexto do disco. Na história, na ordem do disco. Tentamos amarrar as músicas e contextos que queríamos passar.    

Julito: Em sua maioria são versos reflexivos e de autoconhecimento, conclusões de uma viagem interna que nunca acaba, quanto mais viajamos e conhecemos diferentes pessoas e lugares mais coisas aprendemos e isso abre cada vez mais espaço para essa busca eterna. Diria que em alguns títulos acabam sendo ficcionais mas com uma ideia real do que pensamos.
            
Que contextos seriam esses? Qual a mensagem do Em Busca da Viagem Eterna?                       
                      
Diego Xavier: a mensagem é "continue a viagem", mas quem explicaria isso lindamente seria mais o Julito devido as letras serem mais dele. As minhas letras se referem mais a parte terrena da viagem, em “Divina Máquina Voadora” e “Terra em Chamas”. Cada som seria uma viagem diferente, ilustrada nas cartas de tarot que acompanham cada letra. Se o 1943 era tudo letra sobre experiência do Julito com alucinógenos, esse a ideia era cada som ser uma micro viagem, e ligar essas viagens no disco saca? Ou muita doidera, mas isso misturado com experiência própria, experiência em grupo com a banda.  

Julito: Essa busca pelo autoconhecimento, quanto mais a gente vive mais a gente aprende e entende o que acontece ao redor e vê que tudo está conectado, mas a busca é eterna, dificilmente sairemos daqui plenos.
                    
Este é o primeiro disco da BIKE enquanto banda. Já que o 1943 foi todo pensado pelo Julito e o Diego. Como é partir de uma ideia já vista em 1943 e quão livre foi o processo de criação?
                                       
Diego Xavier: na questão dos instrumentais, foi livre total. Pois todos os sons passaram por jams, alguns nasceram delas. Lógico que se alguém não curtia, ou não achava interessante algum arranjo a gente testava algo, mas teve muita coisa que a gente só fechou gravando mesmo, no estúdio. Eu cheguei com duas músicas já meio que com ideia e letras prontas, aí fomos lapidando pra chegar no tempo certo, e nos arranjos. Nas letras mudou pouca coisa, as vezes só palavras mesmo mas normal, como banda já, quatro cabeças pensantes e opinando. Mas aí a ligação das letras e o conceito do disco é mais obra do Júlio.

Sempre existe uma ideia de quando a banda flerta com o psicodélico de que as coisas são feitas na zoeira, sob o efeito de drogas e que no fim das contas, tudo é uma viagem. Vocês tomam um cuidado para que a galera não pense que o BIKE é feito dessa maneira?  
                    
Diego Xavier: No começo muita gente associou a gente somente a isso, mas não é zoeira. Então a gente tenta não passar mais essa ideia, pois já chegou a prejudicar, rolar um preconceito, lugares acharem que nosso show é doido demais pro pico. Mas já tivemos feedback de pessoas totalmente sóbrias que somente escutando o som, viajaram para outros lugares, acho que esse é mais o foco atual.



Quando questionado sobre influências do 1943, Julito disse: “Acho que essa mistura deu o tom da sonoridade do BIKE, uma mistura da velha psicodelia britânica e americana, com a nova psicodelia mundial somados aos grandes compositores que temos pelo Brasil desde o final da década de 60.”  Queria saber se mudou alguma coisa pra esse novo trabalho.        

Diego Xavier: Não (risos)! Na verdade entrou umas coisas a mais na onda, escutamos bastante King Gizzard e Brian Jonestown Massacre. Além de coisas que estavam mais latentes na época da tour do 1943 como Connan Mockasin e Melody Echo Chamber e entrou a MPB psicodélica em geral, mas basicamente são as mesmas influências, mas mais refinado.
                       
Qual importância do Ronnie Von na opinião de vocês? E pra tu: por que tua música "A Divina Máquina" me remeteu diretamente a um sucesso psicodélico dele.
                    
Diego Xavier: cara eu conheci o Ronnie Von quando o Sin Ayuda fez um cover dele pra uma coletânea em 2013, foi o último trampo com o Julito na banda na época. Desde então eu pirei na fase psicodélica dele. Em “A Divina Máquina”, eu quis retratar exatamente o que foi a tour, ficar dentro de carro por horas e horas a fio, essa é "máquina". Aí fizemos essa brincadeira com o título da música  pra fazer esse link com essa fase do Ronnie, como se estivéssemos na maquina dele, por isso é divina mas não estava ouvindo ele na época da letra, o título veio depois mesmo. 
                     
E sobre esta estética de letras curtas e viajar no som? Lembro que uma vez perguntaram pra Ronnie Von se as letras não importavam e ele disse algo assim: todas fazem sentidos, só não precisamos falar demais pra passar a mensagem. O que tu acha disso?        
              
Diego Xavier: pra mim é minha filosofia, eu particularmente não consigo escrever letras muito grandes, sempre resolvo ficar na opção mais curta. Você acaba não entregando muito o jogo. Tem letra que é legal concluir, mas tem outras que é massa deixar em aberto, para poder ganhar outros sentidos. E é bom também pra quem se interessar tentar correr atrás né, pesquisar. Tentar achar as referências, sacar, e depois vir falar pra gente qual viagem teve.
                      
“Em Novo Disco, a BIKE pedala para alcançar novas dimensões”. Que novas dimensões seriam estas?

Julito:
As dimensões físicas principalmente, em 1 ano e meio viajando com o 1943 chegamos em mais de 50 cidades de 15 estados brasileiros, com o disco novo queremos chegar em cidades e estados que ainda não chegamos e sair do país, levar nossa música e nos conectar ao maior número de pessoas é o que mais importa.
                               
Diego Xavier: As dimensões da música mesmo, até onde ela pode chegar, tanto no país quanto no mundo. A gente já tinha planos de sair pra fora do país, pois já tínhamos tido um feedback no 1943. E ao mesmo tempo, também buscamos um espaço maior na cena nacional, já que é um disco mais "pop" que o 1943. A ideia é tentar atingir mais gente mesmo, mas sem perder a essência da banda, a mitologia da coisa.

Tu acha mais pop mesmo?
                      
Diego Xavier: cara eu acho (risos). Os vocais tão mais à frente, umas melodias. Bom, tem suas pitadas estranhas, mas acho mais pop.

O nome é uma homenagem ao Alejandro Jodorowsky. Vocês já pararam pra ouvir a música do Alejandro no cinema?       

Julito: Admiro muito o trabalho dele no cinema, literatura, as parcerias nos quadrinhos do Moebius e os textos que ele escreve todos os dias, a primeira ligação desse disco com ele foi a música "A Montanha Sagrada", depois surgiu "Psicomagia" que é o nome de um livro dele, aí a Juli que fez as ilustrações usando o Eneagrama e o Tarô de Marselha que foi usado por ele em Holy Mountain, além de algumas letras com referências aos filmes dele.   


Jodorowsky diz que não usa drogas porque tem uma enorme imaginação. O uso de psicotrópicos para atingir camadas artísticas não atingidas sóbrio é uma prática antiga, mas vocês ainda consideram um caminho para encontrar algo novo na arte?          
            
Diego Xavier: Sim. Não é a resposta, nem certeza de que vai chegar ou levar a algum lugar. Mas se usadas com sabedoria, podem ajudar bastante na criatividade, mas nem tudo que compomos sai da doidera também.
                      
“Há um que de Mutantes com Clube da Esquina na toada das letras e no estilo de cantar dos quatro vocalistas do Bike”. Existe mesmo este “que”, porque pra mim não é bem claro.  
                    
Diego Xavier: pra mim não existe, quem me dera (risos). São influências com certeza, mas não acho que seja assim. Nem é a brisa.                       
                   
“A Viagem Eterna” seria a morte?           
           
Diego Xavier: não. Seria poder tocar numa banda e fazer som eternamente e viver disso (risos)
                      
O projeto gráfico do novo trabalho tem uma arte pra cada música feita pela Juli Ribeiro. Queria saber em quais formatos o disco vai sair e se esse esmero artístico vai ser aproveitado no formato físico.  
                    
Diego Xavier: Sim, já saiu em CD, por nós mesmos, independente. O disco tem o tamanho de um compacto de 7" polegadas e contém as 9 cartas com as letras dos sons e a ilustras. E online só falta no Spotify, que estamos providenciando. Vinil estamos querendo mas não estamos podendo. 
                   
A astrologia é uma forma de arte?                       

Diego Xavier: com certeza. É tanta informação e sabedoria que tem ali, que não tem como não ser                       

Alguns artistas descrevem o crowdfunding como um “processo angustiante”. Como foi a experiência para a BIKE? 
                     
Diego Xavier: angustiante (risos). Não conseguimos alcançar a nossa meta, isso e outros problemas de agenda, acabaram atrasando o processo de gravação e finalização do disco. com isso, o nosso crowdfunding atrasou bastante. Mas prometemos enviar tudo agora em maio, antes de viajarmos, já tá no esquema. Mas foi de grande ajuda, sem dúvida. Não teríamos finalizado o disco sem ele.

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