O 'Sonho de Cachorro' de Fábio de Carvalho

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O Fábio de Carvalho é um dos talentos da Geração Perdida, que a gente já cantou a bola há mó cota, quando ele ainda tinha 16 anos e tinha lançado seu primeiro disco, Tudo em Vão. Um tempo se passou, Fábio ganhou mais experiência e apesar de continuar sendo um rapaz bem jovem, mostra um amadurecimento em seu último trabalho, Sonho de Cachorro, lançado em 2016.

Dessa vez um pouco mais longe do rock triste, apesar de fazer parte do conglomerado de bandas desse sub-gênero polêmicão da música independente nacional, Fábio trocou uma ideia com a gente e falou um pouco sobre rap, o uso do banal como obra musical, sua maturidade, a forma como a galera absorveu seu trabalho, entre outras coisas.

Leia a conversa abaixo.



Em “Ana”, podemos perceber o uso do banal como obra musical. Você sempre foi um bom observador?


Nunca pensei muito sobre isso, mas provavelmente é o caso. Acho que cada pessoa é atenta com as coisas de um certo jeito. Nas minhas relações sociais eu geralmente me mostro bem ingênuo, demoro pra entender as sacadas irônicas, trocadilhos, mas isso não é uma coisa importante no final das contas. Acho que eu tenho um senso bom de entender as pessoas, as motivações delas, mas isso também tem um certo alcance circunstancial né, tem questões que eu tô longe de compreender. Eu posso dizer com certeza que sempre fui muito atento pra música, mudanças de acordes, esquisitices nas letras, sempre foram as partes que mais me envolviam. Particularmente vendo as pessoas tocando ao vivo sempre foi muito bonito pra mim, reparar nos gestos, na forma como elas dialogam entre si pra criar uma coesão, que não precisa de metrônomo, ou partitura muitas vezes. Isso me inspira sempre a tentar coisas novas na música, eu tô sempre achando coisas novas.

Ainda nessa de observação, “Ana” é o que podemos chamar de storytelling. Isso é muito feito no rap, tanto daqui quanto de fora — tá aí o Mano Brown de prova —. Você acompanha rap e tem alguma influência do gênero na hora de compôr?

Eu escuto muito rap, e hoje acredito que o Kendrick Lamar, por exemplo, vai se consolidar como um dos maiores artistas da história da música popular. Eu vejo no Kendrick uma característica que tá presente nos meus compositores favoritos, que é essa capacidade de transitar entre cenas e questões banais e enxergar algo potente nelas. Muita gente faz isso e eu acho uma coisa linda. Tem a questão também de toda a bagagem musical que é tão transparente na música dele, do jazz, do g-funk, soul, e a composição harmônica desses gêneros é muito importante na minha formação. Talvez não seja uma coisa tão clara a princípio, mas eu tô sempre usando acordes que aprendo ouvindo jazz, bossa nova. Não sei me estender sobre teoria musical, mas sempre achei lindas essas harmonias malucas do Coltrane, Miles, e isso passou pro rap em grupos como Tribe Called Quest, De La Soul, que são os que eu mais escuto até hoje.

“Não importa se eu passei pelo que eu estou escrevendo. O que importa é a experiência, a poética.”. Isso não pode te fazer soar meio fake?

De certa forma faz sim, por isso acho que tenho que ser mais claro. Tem um cineasta que eu admiro muito seu trabalho, o David Lynch, ele fala algumas coisas interessantes que eu associei com isso. Lynch fala que o autor não precisa necessariamente ter sofrido, ou passado, por certas coisas para falar delas, ele precisa primeiramente entender elas. Acho isso muito precioso, porque abre uma infinitude de possibilidades, que levadas em consideração com cuidado e trabalho podem gerar coisas incríveis. Ficar restrito a sua própria experiência individual é uma coisa sabia de se fazer, principalmente em se tratando de questões de representatividade política, mas existem possibilidades muito maiores de se dissociar do eu lírico convencional, de se deixar levar pelo inconsciente e se deparar com histórias, personagens, sentimentos novos e inexplorados. A empatia é uma coisa desgastada, é um conceito que é jogado de um lado pro outro, mas eu acho ele vital, urgente e o corpo humano pode criar coisas lindas através dela. Tendo em vista que esse é um processo novo pra mim posso dizer que os resultados tem sido muito bons, e eu sinto que minha criatividade é inesgotável. A coisa não tem fim, saca? Parece que eu tô pescando histórias e nem eu sei muito sobre elas, mas lapidando e deixando elas decantarem geralmente tem coisas ótimas ali, tem um sentimento, algo que move, que fez aquilo chegar até mim, que é parte de mim. Músicas como "Ver e Ser Visto" vem desse exercício, e aquela é uma das minhas músicas favoritas.



Título da matéria sobre você: “A surreal maturidade de Fábio de Carvalho”. Como é pra você ser considerado maduro aos 20 anos?

Pra mim maturidade é uma coisa muito, muito problemática. Quando alguém vem acompanhado de um rótulo de maduro, acho que as pessoas vem a esperar uma grande coerência nesse alguém. A minha experiência me diz que nenhum ser humano é coerente, que as relações são instáveis e eternamente em transformação, você nunca é você mesmo, você é uma constante mudança. A ética dita uma certa coerência, e eu acho ela muito importante, mas aos 20 anos me descobrir imaturo é uma coisa muito boa! Todos sabemos que as pessoas estão suscetíveis a crises por toda a vida, compasso moral, "ideologia". Eu me pego quase que semanalmente acometido por episódios de insegurança a respeito de tantas coisas, e o fato de elas passarem não as torna menos reais. Talvez seja algo muito próximo da experiência da minha geração, mas todos temos o medo de sermos impostores. Isso me tira de uma zona de conforto que talvez venha com a concepção de maturidade. Eu não quero me dar por satisfeito ainda, sinto que tenho tanto pra melhorar, na minha conduta com os outros, no meu bem estar, essas coisas tem que vir acima de qualquer certeza pré-concebida ou sabedoria. Eu almejo uma leveza nessas conturbações, porque são sempre momentos muito criativos e de desterritorialização. A gente tem que ser leve, mas sempre estar disposto a enfrentar a mudança. As coisas foram feitas pra morrer, e a gente vive muitas mortes nessa vida.


Como é estar no mesmo patamar de seu pai? Porque sempre vemos o pai como um ser mais experiente, superior. E quando você trabalha junto, acaba que trazendo pra o mesmo nivel, não?

Meu pai é uma das pessoas que eu mais admiro no mundo. Ele sempre se reinventa, é incrível. Essa capacidade de transformar e criar novos caminhos é uma das maiores qualidades que alguém pode ter na vida eu acho, se não você vai estar morto muito antes de entrar pra baixo da terra. Eu amo o quanto ele é aberto e conservador com tantas coisas ao mesmo tempo, e eu me lembro dele sempre me surpreender quando era mais novo, porque eu esperava que ele fosse me condenar por uma certa conduta e ele ia lá e me defendia, ou respeitava minha decisão, ou conseguia conversar abertamente comigo sobre algo com que a maioria das pessoas se mostrariam arredias. Ele é um verdadeiro amigo, e integralmente responsável pela minha iniciação musical, assim como minha mãe. Eu já toquei com os dois, e nunca me ocorreu essa coisa de estar ou não estar no mesmo nível, acho que porque eles sempre se mostraram muito tranquilos e entusiasmados em dividir a experiência comigo. Nunca pareceu que eles faziam alguma espécie de favor, ou desciam de um patamar de conhecimento para ajudar alguém inexperiente. Pelo contrário, a coisa sempre foi de mão dupla, e todos nós saímos dessas experiências — sejam apresentações ou gravações — mais ricos.


Cara, por que tá todo mundo abandonando o rock triste? Li que você não quer mais ser rock triste e o Jonathan soltou um trampo totalmente diferente do rock triste também.

Eu amo isso! Eu amo como incomoda algumas pessoas, e como outras pessoas ficam entusiasmadas. É perfeitamente natural todos estarmos indo pra outras direções. É curioso né, porque é como se qualquer um de nós devesse qualquer coisa a esse nome. Eu sou e vou sempre ser eternamente grato pelas pessoas que escutam minha música, que vão nos shows, que conversam comigo e que se tornam amigos e amigas. Mas eu não sou fiel a um termo, e não sou fiel a qualquer tentativa de conservar um movimento se isso não vem naturalmente. Acho que lendo as coisas que falei acima já dá pra entender o ponto de vista do qual eu tô vindo nisso tudo. Eu não consigo me apegar a fazer músicas de um só jeito, ou defender uma só ideia, uma só tendência, então eu segui em frente no meu caminho, que é atravessado pelos caminhos de todas as músicas que eu ando escutando, de todas as pessoas com quem eu tenho conversado e me relacionado, os filmes que eu assisto, as coisas que eu vivi. Se fazer uma música dançante é deixar de ser rock triste então isso quer dizer que o termo tem esses limites na mente das pessoas, e não tem problema nenhum nisso. Só quer dizer que agora eu estou fazendo uma coisa diferente, e fazer essa coisa diferente quer dizer abandonar essa outra. Isso é tranquilo pra mim. Não me coloca em nenhum patamar diferente em termos de qualidade, relevância na minha mente. As músicas de bandas de rock triste, e as minhas que são colocadas nesse meio, são muito importantes pra mim. Mas eu não tenho nenhum interesse de fidelizar um público através de um termo. Eu acredito que as pessoas tem que estar rodando entre artistas, sempre achando coisas novas. Eu não espero que alguém vá ouvir a minha música durante toda sua vida, eu realmente espero que isso não aconteça. A música acompanha as transformações na nossa vida, e é saudável mudar, parar de ouvir alguma coisa e começar a ouvir outra. Eu sempre encorajei isso em mim mesmo, não achar segurança em conceitos e movimentos.

Você ainda gosta de Charlie Brown Jr?

Charlie Brown Jr é foda! Acho que toda essa onda de zoar o Chorão, a atitude e música dele, vai ser apagada com o tempo, e as pessoas vão passar a respeitar mais. Tem umas músicas que são inacreditáveis pra mim, a desenvoltura da banda, o quanto eles estavam confortáveis com o estilo deles. Tem umas passagens nos versos e pontes das músicas do Charlie Brown que a banda entra numas jams lindas, inesperadas, que só eles faziam. A energia da banda é incrível, acho que eles são incompreendidos.

Você ainda quer trabalhar cinema (fazer um curta)? Porque algumas canções sobre o cotidiano já são meio que roteiros. O que falta pra isso rolar?

Falta o tempo (risos)! Mas prefiro falar disso mais pra frente, não quero estragar as surpresas.

“O lançamento mostra um lado mais calmo e acessível de Fábio, não fugindo de sua complexidade natural.” Explique a sua complexidade natural.

Acho que isso tem a ver com o arranjo das minhas músicas, especificamente. Eu realmente prezo por colocar uns detalhes e harmonias mais intricados nas minhas músicas, não é nada fora do comum não, mas é uma coisa que eu sempre presto atenção. Pode ter a ver também com o quanto minhas músicas são conflituosas. Eu dificilmente venho de um ponto de vista resolvido, acho que se eu estivesse certo de qualquer coisa não teria música feita no primeiro lugar. Todas elas vem de alguma dúvida, isso pode me colocar no lugar de alguém com complexidades. Uma pessoa querida me disse uma vez que eu só faço músicas sobre conflitos, acho que ela estava certa.



Você tava ouvindo muito Sun Kill Moon durante a produção do disco ou essa influência veio do Bones? Falando nele, qual a importância da produção do Fernando Bones em Sonho de Cachorro?

Eu tô sempre ouvindo Sun Kil Moon (risos)! Eu apresentei pro Bones quando estávamos gravando "Ana", a influência veio obviamente daí, mas a gente deu um toque mais brasileiro pra música. O Bones foi um companheiro inestimável, pela sinceridade e pelo esforço de buscar uma sonoridade diferente comigo. Acho que aqui em Belo Horizonte ele tá deixando uma marca como produtor, além da banda dele, a Aldan, que é uma das minhas favoritas daqui. Eu ia pra casa dele depois da aula e a gente investia em poucos elementos das músicas por noite. Acho que isso gerou uma qualidade e um cuidado bem grande, além de ter tornado todo o processo mais lento. Isso favoreceu algumas músicas, como "Ver e Ser Visto", que foi uma das mais demoradas pra terminar a letra. Eu tive esse tempo, pra deixar as ideias assentarem. Futuramente quero me privar disso de novo, como foi o caso do primeiro disco, que foi uma espécie de corrida contra um prazo arbitrário que eu e o Vitor impomos. Mas por hora eu quero viver isso mais, e com o Bones o processo foi desse tipo, bem sóbrio.

Em uma entrevista ao Noisey você comentou que “Ver e Ser Visto” não tem apenas um significado para você, que na verdade é bem complicado você entender todos os trechos de cada som que escreve. Eu sempre tive um pé atrás com o uso exarcebado de metáfora por achar que muitos artistas escrevem nada com nada para fingirem ser inteligentes, mas não vejo isso na sua música. Qual o cuidado na hora de escrever e não soar pedante?

Os trechos de “Ver e Ser Visto” vieram pra mim em momentos diferentes, e de alguma forma eles se encaixaram numa narrativa. Eu gosto da ideia de que quando você está prestes a formar uma imagem mental do que de fato se passa na trama da música ela se desintegra. Eu acreditei na música desde o primeiro verso que veio pra mim, e eu não tenho tanto controle sobre o processo quanto poderia dizer que tenho. Acho que soar pedante é um risco, e depende muito de quem chega na sua música também. Sinto que a música foi como um presente, eu sinto isso nas músicas novas que tenho feito. Eu tenho essa oportunidade de receber fragmentos de alguma história, ou de personagens, que estão em mim e que também estão além de mim, e é quase como um privilégio. Quando eu toco a música e vejo que aquilo me emociona eu sei que tem algo de potente ali, eu sei que preciso passar e dividir isso com outras pessoas. Músicas como “Ana” estão enraizadas na minha experiência pessoal, mas muitas delas não estão e não vão estar. O que mais me interessa nisso tudo é como os limites entre essas categorizações são obtusas e complexas. Ao criar uma música eu estou ali naquele momento vivendo uma experiência nova, então ela não é pessoal? Ela é menos pessoal por não ter acontecido de fato? Ela é menos pessoal por não ter acontecido no passado?


No Transborda de 2016 você me disse que tinha muito o que falar sobre todos os sons, mas que queria que as pessoas dessem o seu significado para o disco. Você acha que isso aconteceu?

Sim, tenho certeza. Muitas pessoas vieram com interpretações e sugestões muito diferentes do que eu intencionava inicialmente. A partir do momento que eu divido as músicas com outras pessoas elas passam a estar além de mim. O processo de composição pode ser mais restrito, mas também pode ser muito amplo, o compositor não tem controle exato sobre isso. Mas certas músicas tem finalidades bem claras, outras nem tanto. E ainda é possível achar infinitas interpretações. As pessoas vão fazer da sua música o que elas quiserem. Esse é um processo muito rico e criativo para o ouvinte.


Os outros membros da Geração Perdida dizem que você é um gênio. Como é viver com um rótulo desse dado por músicos como Vitor Brauer e Jonathan Tadeu? Isso é um peso a se carregar?

Curioso é que eu não me lembro nem do Vitor e nem do Jonathan falarem isso, e se falaram acho que não levei tão a sério assim, porque realmente não lembro (risos)! Não acho que isso importa tanto, não é uma coisa que me pressiona ou que me faz mudar a visão que tenho sobre mim mesmo. É muito bom quando seus amigos gostam do seu trabalho, me deixa mais seguro sobre as coisas, mas isso é tudo que eu preciso. Não tenho interesse nenhum nesse rótulo de gênio, ou pretensão nenhuma de ser considerado um. Pode ser aquela coisa de se ver como um impostor, mas não acho que eu tenho a autoestima pra ser chamado disso e conseguir me levar a sério. É que nem quando as pessoas me chamam de "Fábio de Carvalho", é uma coisa que, quando elas não falam brincando, me incomoda muito, dá uma vontade de gritar por dentro, eu me sinto muito chato, e acho que as pessoas vão achar isso de mim também se não me conhecerem.


Na mesma entrevista pro Noisey você fala: “Não me interessa tentar ser verdadeiro. Quero que as pessoas suspeitam de mim”, mas “Ana”, por exemplo, eu vejo uma narrativa que faz parte do seu universo. Uma coisa que eu admiro na sua obra é a que você não foge de quem você é (uma pessoa que tem grana, branca e etc), ou seja, você não está sendo verdadeiro neste ponto?

Eu falo aí de uma concepção de verdade que supõe que o artista está fazendo algo enobrecedor ao falar de detalhes íntimos de sua vida. É uma frase contra esse fetichismo do "você realmente passou por isso, ou aquilo?". É óbvio que a curiosidade é inescapável, mas não é o motivo pelo qual eu faço essas músicas, não é onde eu quero chegar. A frase também fala de processos criativos mais recentes, que estavam começando a engatinhar na época do Sonho de Cachorro. Hoje me encontro mais conectado com essa noção de que conversamos ai em cima, de histórias e personagens que estão em mim e além de mim. Deixar falar essas outras vozes que existem dentro de todos nós, e que estão brigando o tempo todo por espaço.

Em um verso de “Ana” você fala sobre seus amigos terem ido para Alemanha e outros para droga. Eu vejo um jogo de palavras com Alemanha aqui, já que pelo menos em SP, tem gente que usa Alemanha como gíria pra cadeia. Viajei? (risos)

Viajou bem demais (risos)! Achei ótimo, e faz todo sentido. Não é o que eu inicialmente tinha intencionado, mas esse é o menor dos problemas né, achei uma interpretação foda. Alguns amigos de fato foram para a Alemanha, e quis fazer um contraste com o destino que as pessoas foram tendo. Venho de uma escola particular, de alunos filhos de empresários, advogados e médicos bem sucedidos, e sempre foi curioso como muitas dessas pessoas afundaram no vício e na doença. É inevitável, algumas pessoas seguem esse caminho tortuoso, independente de onde elas vem. Sabe aquela ideia de que no capitalismo todos precisam ter um vício? Eu acho isso muito verdadeiro.

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