Jonathan Tadeu e o 'Filho do Meio'


Neste ano, o músico mineiro Jonathan Tadeu s lançou seu terceiro disco, Filho do Meio. O trabalho marca mais uma quebra na sonoridade da prolífica carreira solo do compositor. Filho do Meio é o relato de um momento feliz vivido pelo Jonathan em 2016. Tem produção do amigo e também integrante da geração perdida João Carvalho (Sentidor, El Toro, entre outros), que também lançou disco novo recentemente.

O trabalho tem oito faixas. É um disco rápido, simples e bastante objetivo. Homenageia a Lupe de Lupe, fala sobre o relacionamento do Jonathan, sobre como é ser um negro em meio a um ambiente majoritariamente branco do rock mineiro (e por que não, nacional). Um disco que pode ser considerado até inusitado para quem acompanha a carreira do músico.

Instigados pelo trabalho, fizemos algumas perguntas pro Jonathan sobre a mudança sonora, a saída do “rock triste”, entre outras coisas passadas no disco.


 
Lendo alguns textos sobre o disco, falam que você tá tímido ou apresenta uma timidez no cantar e nas composições. Queria saber se você se considera mais tímido mesmo neste trabalho e porque?

Nem um pouco. Eu era MUITO tímido nos tempos da Quase Coadjuvante. Detesto muita música da época, não pelos caras da banda, que são excelentes músicos, mas pq eu realmente não me sentia bem cantando e escrevendo. Era um esforço danado. Eu só comecei a me sentir confortável com as minhas composições depois da recepção do Casa Vazia. Foi ali que eu passei a me considerar um compositor/vocalista. O Filho do Meio é o primeiro disco que eu entrego me sentindo 100% satisfeito com as letras. Acho que encontrei o meu jeito de escrever e cantar, nunca me senti tão a vontade com as minhas qualidades e limitações, igual agora.

“São composições curtas, talvez incompletas, efeito do som atmosférico que conforta e cerca o ouvinte durante toda a execução da obra.” Faltou algo a ser dito Jonathan?

Não. Por isso o disco só tem oito músicas. Era tudo o que eu tinha pra falar sobre esse período da minha vida. Hoje eu penso que poderia ter esperado um pouco mais e feito um troço mais grandioso, mais pretensioso. Acho que eu fui tão cru na produção que isso acabou sendo visto como algo incompleto, mas não foi. Meu processo de feitura dos discos sempre foi arriscado. Eu não dou shows para testar a recepção do público antes de gravar as músicas, eu não ensaio elas. Composição e gravação ocorrem ao mesmo tempo. A única interferência que eu sofro é o medo das pessoas não gostarem das músicas, mas eu acredito demais nas minhas coisas.

Por que abandonar o rock triste e ir para um lance mais eletrônico?

Ah, não foi algo planejado. Acontece que eu faço rock desde que me entendo por gente. E o Queda Livre pra mim foi o ápice do que eu tentei explorar dentro do emo e dessas coisas 90s. Depois que eu compus “Queda Livre” (a música) eu pensei — beleza, chega de fazer música com explosão no final, pelo menos por um tempo (risos). E nos últimos anos eu ouvi pouquíssima coisa de rock. Passei a ouvir mais bandas com influência eletrônica, mais rap e songwriters que não flertam 100% com rock. Mas eu sempre tive vontade de produzir música no PC.

Sobre esse lance de ouvir rap, eletrônica, você me disse isso ano passado no Transborda, mas não esperava que fosse refletir no seu som tão rápido. Sobre produzir no PC, por que essa vontade?

Cara, eu me empolgo com qualquer método que traga mais autonomia e menos gasto pra mim. Acho que eu sou meio egoísta com essa coisa de compor também. Por exemplo, no Queda Livre eu não gravei as baterias e baixos. Já nesse terceiro disco eu comecei a produção baixando o Fruity Loops com o intuito de compor as baterias no programa, pra depois o cara que fosse gravar apenas reproduzisse o que eu imaginei (risos). Instalei o programa, olhei um tutorial no YouTube e comecei a produzir. Dois dias depois eu  perguntei para o João Carvalho se era possível utilizar as baterias do programa sem soar tosco. Ele disse que sim e eu risquei da planilha a ideia de convidar um baterista pro disco. Mas eu não sei muita coisa sobre música no PC, principalmente a parte mais técnica. Foi aí que o João entrou.



Naquele show do Texas, no Recife, o Cícero me disse que pra ele você é o melhor compositor da Geração Perdida. O que você tem a dizer sobre isso?

Eu acho que ele é louco (risos)h. Mas fico feliz demais com o elogio. É uma honra receber um elogio desses, mesmo sabendo que eu não sou um compositor tradicional. Sei lá, eu não sei criar histórias, mas sei contar as minhas. É isso que eu faço. Jamais teria condições de trabalhar como compositor. Talvez, como arranjador. Eu tenho uma facilidade absurda com melodias. É algo que eu tiro numa rapidez que parece até mentira. Minha preocupação maior é sempre com as letras. Se a história que eu tô contando é relevante, se vai fazer sentido pra alguém. Tem uma banda de SP, a Quarup, no final do ano passado eles me mandaram uma música pra eu contribuir com letra. Até hoje eu não consegui mandar algo pronto pra eles. Acho muito difícil criar uma história a partir do nada. Queria muito ter esse dom, mas ao mesmo tempo, deve ser por isso que as minhas letras soam mais reais.

Você lançou “Sorriso Amarelo”, que eu vejo como uma crítica até para o seu público. Como a galera recebeu esse som? E como você acha que o pessoal vai receber esse disco?

Foi estranho. Eu senti uma espécie de silêncio constrangedor no Facebook. Ela foi compartilhada bem menos vezes que a "Fantasmas", e os comentários no post foram bem menores. Eu achei isso positivo. Tudo o que eu não queria é que a música fosse tratada como mais um viral de crítica social foda, sabe? Eu não queria que concordassem comigo superficialmente igual fazem com os textões de cada dia. Seria confortável demais, né? E racismo nao é confortável. acho que a música politizada, de protesto ou sei lá que nome dão pra isso, funciona melhor quando joga esse incômodo nas pessoas. Por isso a letra fala diretamente para o público. É impossível ouvir a música e fingir que não é com você.

Por que homenagear a Lupe de Lupe?

Isso tudo só existe por causa deles, especialmente o Brauer. Eles mudaram a vida de muita gente ao nosso redor. Não é só um elogio besta, eu tô te mandando a real mesmo. Demorou muito, muito pra eu levar música a sério. Eu tinha um problema fodido de autoestima com as minhas músicas, desde sempre. Aí teve 2013. A Quase Coadjuvante tava com disco, mas ninguém falava da gente, teve a morte da minha mãe, foi um ano bem rum. Foi nesse ano que nós tocamos fora de BH pela primeira vez. Um show da Lupe de Lupe em SP, mas o Vitor levou a Quase Coadjuvante. Eu sabia muito bem que a Quase não tinha público em SP, sabe. Ele podia ter ido só com a Lupe, mas ele levou a gente. Só Deus sabe o quanto o Brauer divulgou essa banda quando a Lupe começou a receber atenção da mídia. Ele sempre dava um jeito de citar a gente. Depois teve a primeira turnê da Lupe no nordeste em 2013, eu fui junto, conheci muita gente, ganhei público, gravei o meu primeiro disco solo com ele, que depois me levou pra turnê nacional de 2015 e incluiu músicas minhas no set deles. Isso é só a minha história. Se eu parar pra te falar o que ele já fez pelo Fábio, Paola, e outros amigos nossos, cê ficaria besta. E o cara só faz essas coisas por amizade mesmo. O Vítor tem essa fama de ser um "cara ruim de humor temperamental" mas bicho, se ele é seu amigo, ele vai até no quinto dos infernos pra te ajudar. Ele é assim com todos os amigos dele. Essa música foi uma oportunidade de contar o que foi o efeito Lupe na vida de todo mundo que faz parte da Geração Perdida. Devemos muito a eles.



“Deus Sempre Mata os Saudosistas Primeiro” - “Não vamos ver filmes de supeheroi porque eles nunca morrem no final”. Tu conhece a história do Capitão América? Ninguém é tão saudosista com o Capitão América e ele não morre nunca, por mais que eu torça...

(Risos)! Cara, nem sei. Eu tenho preguiça de filmes de superherói, exceto pelo Homem Aranha do Tobey Maguire e a última trilogia do Batman. Acontece que a minha esposa ama esses filmes todos. Ela assiste tudo. Eu sempre falo com ela  "que graça tem esses filmes? Cê sabe que no final todo mundo vai ficar bem, a galera fica duas horas e meia tomando porrada, mas você sabe que no final o mundo fica salvo. Não tem plot twist doido." É a nossa maior briga como casal.  Mas eu assisti o Logan e gostei pra caralho (risos).


E como um ano tão feliz pode soar tão melancólico? Músicas tristes te deixam feliz? 

Ah, bicho, eu desisto de tentar fazer disco mais ensolarado. Tentei isso no Queda Livre e o povo me elegeu rei do "rock triste", tentei isso no novo e os fãs emos sumiram e os que ficaram também acharam o disco triste. Acho que é o meu jeito mesmo. A Geração Perdida tem soltado uma playlist semanal dos compositores, nesta semana é a minha vez. Fui elegendo as 20 canções que mais me influenciaram e todas são tristes. Acho que isso é culpa do meu pai. Quando eu tinha uns 6 anos meu pai promovia uma tortura muito escrota comigo. Quase todo fim de domingo ele botava uma fita K7 com uma coletânea de músicas do Ray Charles, só as lentonas, tristes pra caralho. Ele me botava no colo e falava - olha isso jonathan, que música linda. Imagina, você com 6 anos de idade, ouvindo "Georgia On My Mind" num domingo, 6 horas da tarde. A culpa é toda dele. Cresci com essa referência de que música bonita é aquela que emociona. E eu não costumo ficar na fossa quando ouço música triste, eu me emociono, choro as vezes, mas é pela beleza da música mesmo. Música que faz chorar pra mim é a melhor.

Qual a importância do João Carvalho para Filho do Meio?

Foi quando o jogo virou! Eu comecei a compor no período de recesso entre o Natal e ano novo. Passei a maior parte do tempo na casa da minha esposa. Eu esperava ela dormir e ia pro notebook dela compor as coisas. E o João é um cara que tá sempre online de madrugada. Foi quando eu comecei a mandar as tracks pra ele. Logo na primeira track ele já me pediu pra fazer umas coisinhas e aí ele me devolveu a "Fantasmas" prontinha. Tudo mudar o, uns delays em cima dos meus efeitos, uma loucura. Minha cabeça abriu ali. Ok, vamos fazer esse disco juntos. E assim foi. Acho que 80% do disco a gente matou em 3 semanas, é nesse esquema de troca de arquivos. Eu compunha a música até onde eu tinha capacidade pra compor e depois mandava pra ele completar. Ou seja, as músicas são dele também. Estávamos muito muito sintonizados um com o outro. Festa de Despedida por exemplo, foi uma música que quase não entrou no disco. Eu tava pra deletar ela quando o João faliu pra gente insistir. Eu só tinha a bateria e a linha de baixo da música. 80% da música foi obra dele.

Você também pode gostar

0 comentários