Faixa a faixa: Thiago Elniño - 'A Rotina do Pombo'



Thiago Elniño por Iwintolá


Thiago Elniño é um rapper oriundo do interior de Minas Gerais, mas que reside no subúrbio carioca e foi lá que fez toda sua carreira no rap. Em seu primeiro álbum, A Rotina do Pombo, lançado neste ano, Thiago nos demonstra uma mistura massa de ritmos que se encaixam muito bem. Entre as 15 faixas do trabalho, música jamaicana, rock, soul e funk se unem ao hip hop do Elniño e seus parceiros convidados a participar deste baile. 

Talvez o maior trunfo do rapper radicado em Volta Redonda seja soar diferente do rap brasileiro na atualidade, dominado em sua maioria por beats um tanto genéricos e repetitivos, dando o status de estrela ao MC, diferente do passado em que o DJ era a estrela. O clássico boombap se faz presente, misturado as influências citadas acima, com destaque na pegada jamaicana. Para além dos beats, o flow do MC também merece destaque. Elniño é suave na forma de falar e de passar as diversas histórias pesadas contadas num disco em que o tema principal é o racismo. A analogia com o pombo é perfeita, como bem disse o músico neste papo. “Vive de migalhas e quando é branco, representa a paz”. 

O trabalho é cheio de referências históricas para o povo negro, como Muhammad Ali e Malcom X, mas sem esquecer dos problemas presentes no Brasil da atualidade, como a morte do Amarildo, tal qual “Mais um Silva”. A questão é tentar desvendar a vida do trabalhador que sofre diariamente, mas segue perseverando. Para entender um pouco mais o baita disco, resolvemos fazer um faixa a faixa com o Elniño, falando não apenas sobre A Rotina do Pombo, mas também assuntos relacionados a ele, como o preconceito, a religião — fortemente presente no disco— , além do momento atual do rap brasileiro. O papo foi longo, mas vale a lida, tanto quanto ouvir o disco.



"Bom dia"

Esse som é meio que a introdução ao disco, sintetiza tudo que vai vir no disco, se passa dentro do ônibus que o personagem principal, o "Sem Nome" tá indo em direção ao trabalho e recebe uma série de ligações segunda-feira de manhã!  O "Sem Nome" é inspirado em um monte de gente, mas nesse som essa vivência é muito parecida com a minha!

O disco começa com um atabaque (de terreiro), é isso? Qual o peso da escolha deste sample?

Sim, em todos os momentos que o atabaque entra a ideia é ambientalizar o ouvindo de que o personagem do disco está em diálogo direto com a entidade que o acompanha de diversas formas durante todo o disco! 

Tu faz uso de expressões como "mo uva" e fala do baile funk típico do Rio de Janeiro para falar do dia a dia do trabalhador. Me remeteu direto aquelas coletas dos anos 90 Rap Brasil, que era de funk. O rap e o funk se misturam muito no Rio até os dias de Hoje?

Então, muito dos personagens do disco são inspirados em pessoas reais, e esse personagem é inspirado em amigos meus que frequentam bailes funks e sempre me cobram por hoje eu não ser tão presente neles quanto era, antigamente ia todo final de semana e sempre rolava no dia seguinte aquela conversa sobre como foi o baile, sobre as tretas, as minas, esse momento do disco é meio que isso, uma ligação do amigo do personagem principal do disco! O funk é muito presente na vivência de todo mundo aqui, de muitos MCs de rap.

Queria te tu falasse um pouco da importância das vinhetas pro álbum.

Elas servem para mentalizar, situar o estado de consciência do personagem, e também coloquei porque me amarro em vinheta, tipo os CDs de rap da década de 90!

 
"Condados dos Surdos"

Quem é do Rio de Janeiro tá ligado o que é o trânsito da cidade todo dia de manhã, é um dos motivos pelo qual não moro lá, a Central do Brasil é um ponto no centro onde tem ônibus para vários lugares, um inferno com milhares de pessoas se trombando e pouca felicidade porque a maioria está indo para empregos que não curtem, o povo carioca tem um lance de esconder o desespero e a dor com sorriso que é foda, uma felicidade que às vezes aliena, eu surtaria em um lugar desses todo dia, e é meio o que acontece com o "Sem Nome" ele tem uma iluminação espiritual que no meio daquele caos mostra que tem algo de muito errado na vida dele!

Fala um pouco das participações especiais do disco e desta faixa.

Aqui a gente tem os vocais do Medulla que é uma banda de amigos, de gente que gosto muito, Raony e Keops são dois caras muito especiais e na época o Medulla ainda tinha o Dudu Vale que para mim junto ao Marcelo Yuca são as duas canetas mais pesadas que a gente tem de artistas brasileiros contemporâneos!

Na mesma música você cita: poema de Huang Cheng, a globo, a pílula do Morfeu em Matrix, Canaã, o crescimento desgovernado, tudo numa música só. Demorou pra você fazer essa letra?

Eu não conheço Huang Cheng, talvez tenha tido contato com alguma citação dele e tenha ficado na mente, mas não sei quem é, Eu demoro muito para escrever letras, meses porque apesar de eu escrever simples e direto, tento não ser simplista, mas no caso desses som eu escrevi em uns 15 minutos! Ele veio que nem um sopro!

Não sei se você já ouviu "Transporte Público" do Rincon Sapiência (Acredito que sim). Consigo ver uma relação de "condados" com esta faixa, tô viajando?

Eu e  Rincon em vários momentos da nossa carreira vamos falar coisas parecidas porque a gente meio que vem de origens parecidas e somos influenciados por coisas parecidas, os nossos temas são muito próximos, o Rincon só é mais safadão que eu, ele tá Wesley, Ludmillo! Amo muito esse irmão!


 
"Não Conforme"

Esse som fala da responsa de se fazer música e o que a gente enfrenta para viver dela! Eu escrevi ela durante uma espécie de retiro espiritual que eu mesmo me propus a fazer sozinho em uma casa na mata e ela veio de uma vez! Quando mostrei para os meninos que trabalhavam comigo eles disseram que era meio diferente do que eu vinha fazendo na época. Anos depois uma entidade no terreiro cantou um pedaço dessa letra para mim em uma gira, sorriu e falou que tava na mata comigo quando eu compus!

Sonoramente o seu disco vai além do rap e pra mim isto é um dos trunfos do teu trabalho. Aqui temos um reggae que fala sobre não se conformar com os problemas da vida na atualidade. Atualmente tá rolando uma discussão do uso do boombap ou do trap. Você tem alguma coisa a falar sobre isso?

Eu gosto de música em geral e tento incorporar o que eu curto no meu trabalho, a música jamaicana é muito presente! E eu tentei achar o diálogo dela com o boombap nesse disco, eu tava perseguindo isso que nem é muito novidade, Fugges era nossa referência maior, mas eu queria fazer do meu jeito. Sobre o lance do Trap, raramente ouço um que gosto, mas existem alguns que gosto muito, no geral eu acho repetitivo e to sentindo que a molecada que tá seguindo o estilo não tá muito preocupado com as letras, e acho isso muito prejudicial ao Hip Hop!

Queria que tu falasse um pouco sobre estas interferências externas no rap.

Cara, no geral tá tudo meio tudo igual e sem muita inovação, cheio de barulhinho chato!

Fala um pouco sobre o lançamento do disco no youtube. Na minha modesta opinião você foi um dos artistas que melhor soube usar a plataforma. Não apenas pelos clipes, mas também pela interatividade do vídeo onde tá o disco todo.

Eu acho que a forma com que lancei seguiu uma tendência de como a galera do rap está lançando, com liric videos e tal mas eu quis ser o mais simples possível porque é um conceito deste disco a simplicidade, na sonoridade, nas letras, na comunicação, em tudo! Acho difícil hoje um artista independente conseguir um bom resultado ignorando o youtube.



"Trabalhar até sem comer"

Essa foi uma das últimas do disco, esse refrão é meio que uma extensão de um ponto de umbanda, e eu quis fazer um rapzão clássico que atira contra o sistema, racismo, a polícia e tal! Só que no reggae, rude boy style!

Para além do beat dançante, uma letra de denúncia sobre o povo negro e pobre e o preconceito no Brasil. Queria saber se tu acha que tá faltando protesto no rap atual. Tudo bem que o rap originalmente era sobre dançar e se divertir, mas se tornou protesto e denúncia.

Acho sim mano, tá ficando um bagulho meio pau-mole com os caras falando de coisas que realmente acho fúteis, é muito rap falando de rap, rap ego trip atacando inimigo imaginário, rap tirando onda sobre as riquezas que não são suas verdades e os gangsters de apartamento que fazem rap falando o nome das armas que eles pesquisaram no Google, tudo muito chato!


Thiago Elniño (Por Bruno Filipi)




"A cidade é o movimento"

Minha música favorita do disco. O ARDP tem o lance de se passar em uma cidade fictícia que mistura um pouco de Rio, São Paulo, Belo Horizonte e Volta Redonda e essa é bem BH, e acho bem visual, com cada parte apresentando um personagem, a primeira é o "Sem Nome", a segunda é o "Cara Que Matou o Vizinho do Sem Nome" e a terceira é o "Vizinho do Sem Nome" interpretado pelo Flávio SantoRua que é de um grupo de Rap chamado Antiéticos aqui do Rio que respeito muito.

O instrumental e o tema nesta canção me lembraram um pouco de Chico Science e Nação Zumbi. Talvez tenha sido a guitarra inicial e a base total hip hop americano dos anos 90. Estas influências estão corretas?

Eu sou muito fã da Nação Zumbi, faz parte de mim, mas diretamente não foi uma influência para esse som não, eu sou muito influenciado pelo Xis, rapper de SP, e tentei fazer algo meio parecido com o que ele faz no primeiro disco dele, o Seja Como For, ter muita influência do Ogi e a forma com que ele conta histórias também.



"Quem é o inimigo?"

Essa música eu pensei que ia dar treta por causa do refrão que antes de sair algumas pessoas interpretaram mal, mas no final deu tudo certo, e bem, tem o Rincon e a Tamara que são dois monstros do rap e amigos que gosto muito.

Cara, te dizer que nos dias em que vivemos, acho corajoso pra carajo até se assumir preto. Vivemos uma onda de fascismo no Brasil absurda, que até o óbvio é perigoso. Como você vê o momento do Brasil?

Eu acho que a gente vive um momento horrível, tô muito pessimista com o país, a gente ás vezes acha que tá avançando em algumas discussões, mas na verdade com o lance das redes sociais eu acho que a gente ficou preso em um espirais dentro de pequenos grupos que são as nossas 5000 dentro dentro do Facebook. A nível popular muita coisa parece que tá chegando mas não está, ou está chegando de forma muito menor que parece, vide por exemplo a enorme aprovação do governo Dória em São Paulo, a eleição do Crivella no Rio e o crescente apoio ao Bolsonaro. Isso tudo é um absurdo, vivemos um tempo de absurdos sendo naturalizados.

A exaltação de raça é necessária quando vivemos tempos confusos?

Totalmente necessária, o povo preto tem que cada vez mais saber identificar suas particularidades e suas necessidades dentro de um contexto geral, até para que se sinta mais forte, mais bonito, pois toda a construção do racismo serviu para fazer com que nossa estima fosse diminuída e não tenhamos consciência do poder que temos enquanto povo, enquanto grupo social!



"Qual seu preço?"

Essa música é inspirada em uma vivência real minha a uns 10 anos atrás na Lapa, RJ, fui abordado por um cara que ficou me sondando e em um ponto de ônibus, atravessou a rua e assaltou outra pessoa e depois passou na minha frente e me cumprimentou como um irmão!

Esta música me representa muito: não por ser negro, por mais que eu ache que todo brasileiro tem um pouco de África. Mas porque eu morava no centro do Recife, cheio de crackeiros e moradores de rua, e o preconceito é muito maior que o medo nas pessoas, saca?

Saco! Fico feliz que tenha refletido uma vivência massa e reflexão ai! Isso faz o trampo ter mais sentido meu mano!

Gosto muito das participações do seu disco. Achei todas muito bem acertadas dentro de todo o enredo, também achei os nomes bem mais bacanas e até fugindo do rap. Todos são chapas seus ou você chegou em alguém pra convidar sem ter contato prévio?

Todos são pessoas próximas e queridas, não chamei ninguém que eu não conheça ou troque boas ideias! Eu também não escolhi ninguém previamente, cada um no disco interpreta um personagem que às vezes é eles mesmos, ai a música pedia quem queria, e como são pessoas próximas foi bem fácil reuni-las no disco!

O que você ouviu durante as composições das letras e na feitura do disco?

Cara, muita coisa, a produção demorou muito, mas eu ouvi muito Junior Barreto, A trilha sonora do filme Amarelo Manga que o Jorge Du Peixe fez, O Rappa na fase Marcelo Yuca, Amplexos, Ogi, Xis, Xará, Sant, Primeiramente, Medulla, Fugges, Busta Rhymes, Pusha-T, Gorillaz, essas coisas foram referências.



"Ubuntu"

Essa música fala sobre um momento onde o "Sem Nome" entra em um terreiro de Umbanda e é atendido por um Preto Velho, é uma situação recorrente comigo, sou foi inspirada em um atendimento que tive na época que escrevi o som!

O clipe de Ubuntu é uma homenagem a Malcom X, Zumbi dos Palmares e vários outros idolos da cultura africana/ negra. E a canção tem uma ligação direta com o terreiro/ umbanda. Tu lembra da tua primeira experiência em um terreiro? E da primeira vez que tu ouviu falar de Malcom X?

Eu sou Griot em um terreiro de Umbanda há 3 anos em uma casa que cheguei buscando cura por um problema renal que apareceu do nada e quase me matou, lá eu tive contato com vários elementos da minha ancestralidade, e pude me entender muito melhor, e entender minha função nesse plano de forma mais plena.

Sobre Malcolm X, a primeira vez que eu ouvi falar com certeza foi em algum rap, eu sou o tipo de cara que quando escuta algum MC fazer referência a algo eu vou pesquisar do que ele ta falando, não me vem na memória quando mas esse foi o caso com Malcolm!

Rolou um estudo de nomes da cultura negra/ ou um levantamento de nomes que você queria incluir no disco. Uma espécie de lembrança/ homenagem? Muhammad Ali aparece na faixa anterior, por exemplo.

Não, foi tudo muito orgânico, hora são homenagens, hora são referências, mas em geral são pessoas que eu sei bem quem são e me inspiram de alguma forma!



"Pedagoginga"

Foi a última faixa a ser feita, o disco já tava inclusive indo para masterização e ela entrou de última hora!

A primeira vez te mandei um mail você se identificou como um "Educador Social". Este foi o primeiro single para apresentar o disco pra galera: Por que começar com esta faixa?

Eu até o último minuto achava que o disco não tivesse uma faixa que funcionasse como um single, para sair sozinha e puxar o bonde, mas a "Pedagoginga" chegou cumprindo  essa função, e acho que ela traz todos os meus temas recorrentes em um som só, de forma forte, com todos os elementos que eu tenho de melhor, refrão forte, rimas papo reto sobre educação, povo preto e culto aos orixás, que são temas que eu escolhi me aprofundar e ainda vou trazer muito nos meus raps.

Tem a participação do Sant que considero um dos maiores irmãos que o rap me deu e apesar de ser mais novo me ensina muita, mas muita coisa e me dá esperança no mundo ter um moleque desses por perto, mestre Kamikaze é outro amigo que a música trouxe que carrega uma energia descomunal. E o beat é do Scooby, é bom fresar que o Scooby fez a maioria dos beats do disco e junto com os meninos do Casa foi quem deu a cara pro disco!

Pesquisando sobre você, vi que você fez faculdade, ou seja, mesmo se sentindo inadequado, ou sem identificação, você seguiu na educação tradicional. Acredito que você entendeu o que você diz em "pedagoginga" ainda cedo, então por que seguir este caminho?

Inocência cara, eu realmente acreditei que eu ia aprender alguma coisa na faculdade, não tem como a faculdade ser massa estando enquadrada no sistema que está. Mas te dizer? Acho importante eu ter o diploma para poder falar que fui lá e tô cagando para os conteúdos eurocêntricos que me deram lá, o que faz a diferença quando to com a molecada nas salas de aula são as coisas que aprendi na vida, em espaços de educação que de gente que aprendeu no braço, na porrada, que criou seu conhecimento a partir da experiência de vivência plena, de contato, corpo a corpo. Sou um bom educador, a molecada gosta de mim e realmente a consigo passar conteúdos significativos para eles, é isso que vale! E que mais pretos possam ter o diploma que quiserem!

O título do disco A Rotina do Pombo, usa um dos animais mais comuns do mundo, também um dos considerados mais sujos. E rola uma analogia com o negro e o pobre da periferia. É esta a ideia?

É total essa ideia, o sistema trata a gente como trata os pombos, nos joga migalhas, mas em determinadas situações se tu for branquinho ou se embranquecer você pode simbolizar a paz!



"Carnaval No Centro"

Essa faixa foi mais uma coisa que vivenciei, isso tudo aconteceu no carnaval de BH de 2015!

A música mais "MPB" do disco. Também uma das mais bonitas e tristes. Eu queria falar ou que você falasse de poesia. Porque acredito que esta letra possa ou seja uma poesia. To viajando?

Eu acho que todas as músicas desse disco são poesias, no caso de essência de rap mesmo, que em si é poesia, eu não tive a pretensão de fazer mais que isso não!

Esta é uma faixa até fácil de ser digerida por sua sonoridade suave. Porém a letra tem um peso enorme. Você tem/ tinha pretensões radiofônicas com este disco?

Então, eu acho que isso pode ser um caminho que vai aparecer mais em músicas minhas, sonoridades mais leves ou mais dançantes quando for o caso, mas acompanhado de abordagem forte e direta nas letras, por que se não fica muito agressivo e acho que eu to chegando numa idade que alguma coisa tem de ser mais tranquila. Essa tem uma onda meio Danilo Caymmi que curto.

E te falar cara que tu sempre sonha que o trampo alcance muita gente, mas calhar de ser radiofônico eu tinha certeza que não por causas dos temas!

Cara, eu não sei se é uma coisa minha, tipo viagem. Mas o seu rap faz uso de um português bastante claro e mesmo quando você faz uso de gírias, ou de arquétipos da fala como "MiFi", eles vem bem claramente. Lembro de também ter pensado isto com o disco do Quinto Andar, talvez pelo maior acesso ao rap paulistano, cheio de gírias e mudanças na língua para rimar. Como você vê o que eu to falando aqui?

Cara, eu tento rimar e escrever da mesma forma que troco ideia, eu curto essa ideia do rap ser como uma conversa cara a cara, tem um livro de um autor chamado Marcos Bagno chamado Preconceito Linguístico que explodiu minha cabeça quando li, ali entendi que não a problema de eu misturar algo sofisticado com gírias, e isso naturalmente acaba sendo eu, por que eu frequento lugares mais sofisticados que o meu trampo me leva as vezes, e to na rua o tempo todo, to com a molecada nas escolas, tudo isso foi criando minha identidade, eu falo dessa forma nos raps, na rua e nas salas de aula, o que ocasionalmente gera um monte de problemas com outros educadores que acham que ali é lugar da norma culta!

Tu acredita mesmo que é só de amor que o mundo carece?

Completamente, mas a gente não pode ficar achando que o amor é algo fofo, ele por vezes pode ser violento. Basicamente ele não existe sem empatia, e as vezes aceitar as necessidades do outro pode ser algo que violente algumas de nossas crenças e a gente tem que a aprender a conviver com isso, que nem todo mundo é igual nem nunca vai ser, nunca será interessante que seja!

 
"No Fim"

Essa é a primeira música que fizemos para o disco, é a única que o beat é produzido por mim em sua maior parte!

Esta faixa me lembrou o trabalho de grupos como Passo Torto, os trampos de Rodrigo Campos, Marcelo Cabral e etc. Tu conhece essa galera do samba paulistano?

Po, o primeiro disco do Rodrigo Campo, São Mateus Não é Um Lugar tão Longe Assim, é um disco perfeito, referência para mim, acho que é muito rap esse disco, a forma de narrar a periferia. O novo do Kiko Dinucci também é incrível, o Metá Metá também, eles são incríveis.

A letra e o instrumental desta canção destoam um pouco do resto do disco. Queria saber se ela já existia antes dele ou foi feito para o propósito e encaixou bem no final da Rotina do Pombo?

Ela destoa um pouco das demais do disco mesmo, ela aponta um outro caminho que pode ou não ser a sonoridade do próximo trabalho completo, tipo uma intro ao que esta por vir! Nessa onda também de que o fim pode ser um novo começo!

Nesta faixa também rola uma leve critica a bíblia. Eu queria saber se você pensa religião do mesmo jeito que pensa o ensino/ a filosofia/ etc. É um lance de identificação e como até o próprio jesus cristo é branco imageticamente.

Cara, acho que o cristianismo tem várias paradas muito fodas, acho que o Jesus histórico foi um modelo de conduta social bacana, mas esse Jesus ai que tão vendendo para gente nas igrejas não da eu não. E admitir que o cara foi preto é o inicio de levar uma discussão racial que as igrejas em geral se omitem muito. Eu encontro coisas boas em muitos religiões e não boas também, inclusive na minha tem muita coisa que discordo muito. Vai chegar o momento que vou cutucar isso de forma mais clara e forte nas minhas músicas, mas hoje preciso aprender muito pra critica não ficar esvaziada.

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