O projeto Chaiss lança 'Charas', seu novo trabalho

Chaiss Quarteto por Welder Rodrigues
Chaiss é um projeto musical criado no ano de 2009 pelos músicos Fábio de Albuquerque e Robson Ashtoffen, com a ideia inicial de criar um grupo de música instrumental híbrido, misturando elementos da música negra como o jazz e o rock. Tanto que ao longo da vida, a Chaiss já foi trio, quarteto, quinteto e sexteto, mantendo sempre uma base para o melhor desenvolvimento sonoro. No formato de quinteto, a banda lançou Afrodisia (2015), seu primeiro registro, uma mistura de música afro com fusão jazzística que levou a banda à eventos como o Jazz na Fábrica e o Jazz na Kombi.

Dois anos se passaram, o projeto retorna na formação de quarteto (se juntam a Fábio e Robson, Éder Hendrix Martins e Vinícius Chagas) com um novo trabalho, lançado em primeira mão aqui no altnewspaper, Charas apresenta cinco temas rápidos que conectam o jazz com o universo do rock experimental. Um disco feito de maneira rápida, que mostra a maturidade da banda e procura transcender as barreiras do som e ampliar ainda mais o trabalho sonoro dos integrantes do Chaiss.

Depois de ouvir o belo trabalho algumas vezes, resolvemos bater um papo com os dois criadores do grupo, falando sobre o novo disco, as influências que permeiam o Chaiss, entre outras viagens. Da play no som, acompanha o papo e fica ligado na fanpage dos caras pra não perder todos os shows já marcados para divulgar o Charas.



Vi que a formação da Chaiss  é diferente do primeiro disco pro Charas. Este é um quarteto, no Afrodisia é um quinteto. Queria que vocês falassem um pouco dessa ideia de hibridismo na formação do projeto e no que isto interfere ou deixa diferente os trabalhos.

Fábio de Albuquerque - O Chaiss tem uma formação original em duo: eu e o Rob Ashtoffen. Depois tocamos com outras diversas formações em trio, quarteto, quinteto, sexteto e por aí vai. Nossa proposta sempre teve espaço para tocarmos com pessoas diferentes e não temos uma preocupação muito acentuada em ter uma formação fixa e definitiva. Mas é claro que tentamos manter uma formação estável – e saudável para a manutenção da banda - por conta das relações de amizade, de gravações, de agenda da banda e com isso encontramos parceiros nessa vida loka nossos irmãos Eder Martins e o Vinícius Chagas. Devemos muito aos dois pelo nosso crescimento como banda.

O álbum Afrodisia (2015) retratou uma época e foi muito marcado pelo período em que estávamos imersos como banda e as relações entre todos os indivíduos daquela formação. Tínhamos o trompete do Reinaldo Soares e os beats do Felipe Bertoni. Com a saída do Felipe após a gravação e a do Reinaldo uns 3 meses depois do lançamento do álbum tivemos que nos adaptar com isso e nos possibilitou um espaço legal de interpretação para continuar tocando os temas recém gravados.

Já o Charas (2017) é um álbum mais maduro dessa formação mais estável em quarteto. Nos conhecemos melhor, tocamos mais juntos e isso reflete bastante no nosso som atual. Acredito que a diferença das formações impacta diretamente no som, mas o Chaiss em sua gênese é isso né.

Rob Ashtoffen - Todos os discos do Chaiss vão diferir, pois essa é a ideia da banda, em constante mutação. Pode ser que haja formações até sem eu e o Fábio, que fundamos a parada, mas o espírito do chaiss e seu conceito continuam. E já estamos planejando o próximo disco, com participações de várias pessoas que tocaram com a gente. Temos essa práxis do jazz, que é o intercâmbio entre músicos, nunca estabelecer uma fixidez de formações, esse é o conceito chave do Chaiss, hibridismo. Creio que isso se conecta mais com o nosso tempo e com as pessoas das quais queremos dialogar, ou seja, as que nos ouvem hoje (e esse hoje vai durar provavelmente até depois da nossa morte - risos). O mais legal é que em cada disco há uma surpresa, até pra gente, e consequentemente um desafio.

O Charas é um disco rápido dentro do que conhecemos do jazz, que normalmente apresentam até temas mais longos, queria que vocês falassem um pouco sobre isso, já que alguns dos temas eu achei até bem tradicionais.

Fábio de Albuquerque -
O Charas foi um álbum rápido em todos os aspectos: todo o processo – em termos de produção - de pré-produção/ensaio/gravação/mixagem/captação e edição do clipe levou 3 meses ao todo. Teria sido mais rápido se o Vinicius não tivesse viajado por uma tour na Europa com o Aláfia.

Exceto "Mandrake" as demais músicas já existiam e algumas já tocamos de um jeito mais livre ao vivo. Percebemos que gravá-las seria o melhor para disponibilizar materiais novos de gravação e não perdermos as ideias ou tirá-las em meio ao nosso repertório.

No Charas assumimos que queríamos composições mais curtas, muito influenciado pelo ritmo e momento de consumo da música atual. Mesmo sendo um disco com um lance puxando mais pro rock – principalmente por conta das minhas linhas de bateria - temos uma influência grande da improvisação e apresentação de temas com a linguagem do jazz. O álbum foi gravado em um dia, as músicas respeitaram a gravação de um único take ao vivo e fizemos poucos overdubs de guitarra e sopros.

Rob Ashtoffen - A ideia do Charas é ser rápido mesmo. Um pouco mais de 20 min de duração. Na pré-produção lembro de ter pesquisado como bandas novas, não só do jazz, lançam seu som, de que forma organizam a comunicação com o público, etc. Estamos experimentando essas formas, e uma delas adequar a sonoridade jazzística ao formato canção. As músicas tem no máximo 5 minutos e pouco. Isso foi intencional, pois focamos mais nos timbres, na melodia e nos temas de cada canção. Nossa jornada é de levar essa linguagem para as ruas, vielas, onde for. Isso corrobora com esse disco, eu diria, mais pop. Quando estávamos concretizando a tarefa de gravar o disco, prazos, etc. cheguei no Vinicius (Chagas, saxofonista) e falei: Mano, saca aqueles seus temas que você me mostrou, bem pop nights? Ele deu risada e falou: Demorou, tenho alguns.

Ao mesmo tempo no disco temos uns temas mais influenciados pelo rock progressivo, King Crimson, Weather Report, pesado, um tanto denso. Acho engraçado essa tua impressão de jazz tradicional, que para mim é dixieland, ou no máximo bebop.

Talvez isso tenha transparecido por conta do Vinicius. Ele tem uma grande influência do hard bop, bebop nas frases. Junte isso a uma batera mais dura do rock e uma guitarra cheia de efeitos, distorções. É uma banda de rock com um solista bebop. A mistura de linguagens é a essência do jazz, e de romper essas barreiras de idiomas. É o caminho que a gente segue, ensinado, claro, pelos mestres.

"Charas – a resina obtida de uma planta sagrada da Índia utilizada em rituais politeístas." Por que usar este tema como norte para o trabalho?


Fábio de Albuquerque - Sendo bem honesto: tínhamos as músicas, um álbum, uma identidade visual, capa e tudo o mais, mas não tínhamos o raio de um nome para amarrar tudo isso. Fuçando em nosso computador do estúdio em casa achamos um nome em uma pasta com arquivos de gravações inacabadas de uma ideia de álbum do Chaiss que teria esse nome "Charas". Para facilitar o processo de nomeação, colocamos Charas mesmo e no fim percebemos que casou bem com essa nova proposta do quarteto.

De fato, Charas é a resina do haxixe artesanal indiano e achamos que tem um link sonoro e de significado com o nome da banda. Essa ideia de colocar essa informação da resina no release foi ideia do Rob Ashtoffen. Eu deixaria implícito e cada um interpreta do jeito que bem entendesse. Mas na ideia geral, da minha opinião, passa mais por um nome sonoro mesmo - apesar de sabermos a etimologia e significado de Charas.

Rob Ashtoffen - Isso aí é uma tiração de sarro de leve para os desentendidos. Quem sabe, sabe.
 
 A escolha da Linn foi um lance mais comercial performático pro clipe/ single que saiu antes? Ou existe alguma ligação sonora no trabalho.

Rob Ashtoffen - A Linn é uma performer, dançarina, a conheci nas turnês com As Bahias e a Cozinha Mineira. Quando fizemos a concepção do clipe pensamos em algo escuro que funcionasse como um cosmos e uma pessoa dançando com tintas que não remetesse a nenhuma clareza, que se aproximasse de uma pintura, abstratamente artística. A Linn foi a perfeita candidata, pois ela é uma ótima performer e uma mulher negra trans. O Chaiss sempre teve sua postura política clara, participamos de manifestações de artistas de rua, marcha da maconha, protestos na Praça da Sé contra o Kassab quando ele proibiu a distribuição do sopão para pessoas em situação de rua, tocamos no meio do fluxo da cracolândia, etc.

Essa aproximação é natural para nós. Quando a convidei e contei toda a história do Chaiss e nosso intuito de ter o primeiro clipe de uma banda instrumental brasileira a ter uma mulher trans negra como protagonista, ela topou e ficou muito feliz em somar. Ou seja, a ligação da Linn é performática, artística e a postura da banda que se propõe a quebrar os muros que separam estéticas, ideias, pessoas. O Chaiss se preocupa com o conceito estético que para nós é essencial, tanto quanto a música. Quebrar as barreiras é o que o jazz propõe, e não só no som.


Quando entrevistamos o Phil Cohran, ele fez questão de corrigir que jazz na realidade deveria ser chamado de "Black Music" por sua origem nos escravos. O que vocês pensam disso?


Rob Ashtoffen - Compartilhamos a visão de que o jazz é uma linguagem e não se limita a uma estética musical. Não pensamos o jazz como o 'ding ding ding ding' do prato de condução e os standards de sempre. O Miles mostrou isso, e o próprio Phil, tocando com o Sun Ra. Hoje o jazz vai além, mistura estéticas, mas sempre com a estrutura de música de improvisação, isso é o foco. A arte de improvisar é um assunto a parte. E nós bebemos disso, misturando uma banda de rock com um solista beboper. Um guitarrista que é a reencarnação do Jimi Hendrix e uma cozinha King Crimson, Mars Volta. Nossas influências são essas, verdadeiras, sem fingir. Estudando sempre para ir além de nós mesmos e conseguir tocar algo que nossa mente nos instiga. É por isso que estamos na música, pela nossa sinceridade e nada mais. Com todos esses anos eu vejo isso se refletindo e que as pessoas são caras e empáticas a essa verdade que falamos. Sem meias palavras, sem meias notas, é o que sentimos e achamos bonito de mostrar.

Por exemplo, eu compus “Gemini Taurus Venus en Aires” no metrô Barra Funda, cantarolando uma melodia depois de voltar de um gig. Peguei o celular e gravei a melodia do tema. Depois harmonizei, cheguei a ensaiar ela com um trio com piano, mas quando arranjamos pro Charas, virou outra coisa. A essência da melodia gravada no metrô Barra Funda tá lá, o ímpeto que eu tive, o estalo que não sei donde veio. Eu achei bonita a melodia e resolvi fazer uma música. Essa causalidade é o caminho que tomamos, é a nossa trajetória no jazz.

O mesmo para o trabalho estético. Chamamos sempre parceiros, nos clipes, o Cinefoto Colapso, nas capas o Luciano Thomé (Afrodisia) pintor; o Thiago Amarante (Mantega) designer (Charas), e por aí vai. Temos parcerias nessa estrada da música independente, pois as essas pessoas acreditam em nós. Sem isso, não existe disco, música, estudo diário, gig. Sobre a visão dele, só tenho a concordar e ouvir. Sem mais palavras. A música preta é nossa base, nosso alimento. O Charas é o resultado de dois negros e dois brancos, irmãos fazendo o que amam com fé sempre.

Fábio de Albuquerque - Viajando na pergunta - e expandindo as ideias do velho Phil (RIP) - esse lance da gênese negra em vários estilos/linguagens e sons é algo muito nítido porque se você parar para pensar as manifestações da música do século XX que se espalharam massivamente pelo mundo tem na raiz essa manifestação dos negros na luta pela liberdade de expressão, seja na dança, na celebração religiosa, nos lamentos, nas demais celebrações e todas as variáveis dessa vida louca: blues, jazz, samba, rock, ska/rocksteady/reggae/dub, o movimento hip hop e o rap, o funk, a disco, afrocaribenha, etc. Quando fui constatando isso nessa jornada pela música me deu uma amplitude gigantesca para enxergar o mundo de outras formas, me estimulou a identificar não só a predileção por algum tipo sonoro ou rítmico, mas de oferecer mais substância para entender a história por trás de cada linguagem e das relações dessas com a vida.

Trazendo a discussão para o Chaiss o reconhecimento da importância da música negra nos cabe e soa bem natural e não é algo que ficamos pirando muito sobre. Todo mundo da banda vem de raízes periféricas, diferentes crenças, dessa mistura brasileira de etnias e gostamos de tocar aquilo com o que nos identificamos como indivíduos. Vamos tocando juntos e criando, simples assim. Não sei se cheguei a algum lugar com essa resposta, mas foi interessante falar sobre.

A banda é formada por cabeças que rodam e tocam em diversos outros projetos sonoramente diferentes, mas a sonoridade do Chaiss me remete mais a jazz tradicional. Por que escolher este caminho no estilo?

Rob Ashtoffen - Discordo do jazz tradicional, estamos mais pro moderno. Em questão de frases, forma dos temas, talvez isso remeta ao jazz moderno. O caminho não é a gente que escolhe. Na verdade, ele é o resultado dos quatro trabalhando juntos. Talvez no próximo disco isso mude, não sei. Mas sempre seguimos a intuição nesse sentido, o que ouvimos, estudamos, são essas as nossas influências. O caminho vai mudando, vai se mostrando com o caminhar, é a jornada transcendental, sacou?

Fábio de Albuquerque - De todos da banda sou talvez o mais grunge e não nos vemos muito no esquema jazz tradicional. Somos meio que uma banda meio estranha nesse circuito porque temos a linguagem do jazz mas não adotamos com frequência os trade four, fazer o rito standards e etc, estamos mais num lance punk jazz (Risos). Sei lá, apesar de termos essa ligação com o jazz nem falo muito do Chaiss ser jazz porque até prefiro falar do Chaiss como uma banda de música instrumental ou música universal, chupinhando o grandioso Doutor Hermeto.

Vi que rolou um incômodo (no bom sentido) com o termo "jazz tradicional", não me referia ao jazz no sentido de antigo, me referi na questão estrutural. Por mais que tudo seja música instrumental, a sonoridade parece mais easy going e atraente a quem já curte os clássicos, entendem? Interessante que todo mundo que utiliza o jazz enquanto música (estilo de vida), não curte o rótulo de jazz. O Mazurek diz que a música dele é dele e não jazz. O Phil falava em Black Music, etc. Parece o mesmo incômodo do termo post-rock para a música instrumental. Como veem isso?

Fábio de Albuquerque - De fato, esse álbum está mais easy going/easy listen mesmo - esses termos são engraçados porque sempre os vejo naqueles canais de música de TV a cabo em lanchonetes! (Risos) Os temas estão bem definidos em forma e os momentos de improvisos estão encaixados em uma estrutura mais fixa.

Enfim, não é incômodo se identificar como jazz, mas é que ainda parece persistir aquela visão do jazz como algo elitizado e mais pro tradicional da apresentação do som em ambientes mais formais, com um teor mais acadêmico e erudito do som. Acredito que os artistas querem liberdade de chamar o som do que quiser, mas aí tem a treta de que é necessário rotular para poder ofertar melhor seu trabalho nesse mercado da música. Gosto muito de pensar em descrever a sonoridade de acordo com o momento e postura da banda. Que é o que conta mesmo né.

Existe toda uma nova cena (principalmente no sudeste do Brasil) ligado ou misturando influências com o jazz, tanto que o jazz na Kombi, o Nublu, etc, acabam fazendo isso. E a escola da galera que organiza nem sempre é o tradicional, que era mais ligado ao erudito. No nordeste rola mais essa linha com o erudito. Aquela ideia de ver uns velhinhos curtindo o som e etc. O público rejuvenesceu nos rolês por aí?

Fábio de Albuquerque - Sobre as demais regiões não tenho muito como comentar. O pouco que conheço é pela internet e não tenho uma base segura de análise. Já sobre São Paulo - capital estamos mais antenados no que acontece. Por exemplo: do Jazz na Kombi posso falar com propriedade por conta da proximidade com eles que são nossos parceiros há pelo menos 3 anos: eles não são instrumentistas, gostam muito de Jazz dos mais 'tradicionais' eu poderia afirmar (arrumando treta agora - risos) e foram descobrindo com o passar desses últimos 3 anos mais dessa nova mistura do jazz/música instrumental atual. Eles são artistas visuais, poetas e agitadores culturais que tiveram a sacada de estilizar uma Kombi para promover esse som que eles já conheciam enquanto venderiam cerveja na rua. O lance legal é que essa ideia se transformou em um núcleo agregador de pessoas interessadas e isso alimentou bastante um movimento de 'ruarização' do jazz e da música instrumental.

E sobre o aumento no público jovem isso está ocorrendo mesmo. A internet está aprimorando mais o lance de deixar as pessoas antenadas para sacar o que está rolando no mundo e isso reflete nas realidades do mundão. É bacana ver que estão sendo formados públicos de jovens e velhxs sacando as coisas antigas que estão sendo desenterradas e disponibilizadas atualmente da música mundial. E com isso também há um confronto com a produção do atual, que bebe dessa fonte e mistura com o que está aí no ar.

No mesmo tema dos espaços a serem ocupados: vejo muita pretensão gringa no Chaiss, to viajando? Acho que com os outros projetos de vocês talvez não fosse um caminho menos difícil.

Fábio de Albuquerque - Eu entendo essa sua visão de pretensão gringa porque já fiz essa crítica ao som que eu mesmo faço no Chaiss. Não exploramos em gravações os ritmos brasileiros em nossas músicas, assim como fazem outras bandas no mesmo circuito e com quem já tocamos bastante por aí. Vez em quando temos incursões de improvisar com umas misturas de baião, maracatu, mas com som gravado mesmo não temos registro algum de música brasileira. Não sei se isso nos identifica mais pro lado gringo, mas também não nos liga muito com o que estão misturando com a música brasileira. É legal fazer essa constatação. Gostamos muito de música brasileira, mas é algo que também não fui a fundo com uma banda para explorar mais essa sonoridade. Talvez um dia o Chaiss absorva mais essa sonoridade e gravamos uns ritmos mais brasileiros.

Você também pode gostar

0 comentários