Faixa a faixa: Bonifrate - Lady Remédios

Bonifrate  - Por Thalita Aguiar

Pedro Bonifrate é uma das mentes mais prolíficas da psicodelia brasileira recente. Descendente direto daquela movimentação hippie interiorana que ascendeu no Brasil lá pela década de 70/ 80. Nascido em Paraty, cidade interiorana do estado do Rio de Janeiro, criador da extinta banda supercordas, um dos grandes nomes do rock subterrâneo brasileiro do final da década de 90 pra cá.

O grupo não conseguia da vazão a toda produção do músico e desde 2002, Bonifrate intercala a banda com seus trabalhos solos. Aproveitando o lançamento do seu sexto trabalho solo, Pedro respondeu algumas perguntas e comentou as faixas do EP Lady Remédios (Balaclava Records, 2017), uma ode e um passeio histórico pela cidade natal do músico e compositor. Confira ai e ouça o disco.

01. "Microcosmo"


Um épico introdutório que narra encontros imaginários entre entidades meta-históricas por trás do aparecimento de “um porto chamado Paratee”, como a cidade foi primeiro referenciada em 1598 pelo pirata Anthony Knivet.

A primeira estrofe diz respeito aos celtas, que em dado momento teriam entrado em contato com mercadores gregos e fenícios e deles recebido da ilha mítica de Hy Brazil um mineral vermelho chamado cinábrio. A etimologia do mineral se confunde à do nome do nosso país, e ambas se relacionam à cor vermelha de uma forma ou de outra. A segunda, aos povos pré-históricos que aqui habitavam ou que por aqui passavam, se reunindo e contando velhas histórias em volta dos sambaquis da Praia do Forte e da Toca do Cassununga - potenciais porém inexplorados sítios arqueológicos de Paraty. Enfim, uma profecia é formulada por uma daquelas entidades, já nos tempos do Império Português: “serás microcosmo do Brasil”.

Essa base quebradíssima que alterna compassos de 5 e de 6 tempos foi concebida em 2009 como uma peça instrumental. Chegou a ser ensaiada pelos Supercordas quando estivemos no Estúdio Musgo, naquele ano, mas nunca chegou a engrenar. A ideia de escrever versos pra ela só veio no início deste ano de 2017, já visando a abertura do EP. Há uma versão do disco que traz uma mixagem alternativa desta canção, construída em volta de violões e harmonias vocais, como faixa-bônus.

Por que fazer esse mergulho histórico na Paraty agora?

Boa pergunta. Só posso jogar algumas possibilidades ao vento, não sei responder com precisão. Eu cresci em Paraty e voltei a morar aqui em 2012, então é natural que essa cidade, com suas peculiaridades, povoe de elementos as canções que eu escrevo, e isso acontece desde sempre, mas antes as referências mais diretas diziam mais respeito à relação com a natureza, a uma perspectiva mais leve do lugar; e "Rã", que é uma canção mais antiga, traz um pouco disso de volta.

O Museu de Arte Moderna já veio com alguma nova vivência da cidade, já que eu terminei o disco depois de ter voltado pra cá, e canções como "Homem ao mar", "Guaianá Mainline" e "Sabe da última?" foram escritas aqui.

02. "Lady Remédios"


Essa balada quase kinkiana foi toda escrita há dois anos, logo depois que terminamos o disco Terceira Terra, dos Supercordas, e seria destinada ao disco seguinte do grupo. Gravei uma demo pra mostrar pra banda na época, e alguns canais dessa primeira versão ficaram definitivos, como o baixo, a guitarra com phaser e os teclados Casio, que são o grande piso harmônico do arranjo.

A primeira frase do refrão já rondava minha cabeça desde que eu voltei a morar na cidade, em 2012, mas como de costume demorou alguns anos até que eu conseguisse botar uma estrutura no papel. A letra traz muitas referências ao passado recente, algumas facilmente identificáveis por quem tem algum contato com essa história daqui, outras menos: as tendas atômicas da cidade-evento fagocitando nossas culturas tradicionais; os manguezais aterrados para a construção de marinas e resorts; a grilagem de terras que começa com a monarquia e continua com os grandes conglomerados midiático-empresariais; nosso produto e moeda de troca mais tradicional - a cachaça; o Patrimônio Histérico, que era o nome de uma banda local de fins dos anos 80 e inícios dos 90; a decadência e o sucateamento do IPHAN (Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).

Particularmente, acho uma das minhas melhores canções. Essa frase de metais na última parte me apareceu enquanto eu dedilhava a harmonia no violão, como uma derivação estilística de alguma canção do Blur, talvez “Country House”, ou talvez de “Tin Soldier Man” dos Kinks. Deve haver uma inspiração mais certeira a ser citada, mas sinceramente não me lembro.

Engraçado que depois de ter finalizado a mix, o resultado me remeteu a um clima geral de estranheza Gorky’s Zygotic Mynci (banda galesa que é uma das minhas maiores influências) como aquele de “3000 folhas”, dos Supercordas. Hits esquisitos, para mundos inexistentes.

Num papo com Bruno Jaborandy aqui no altnewspaper, tu fala que a parte ruradelica do supercordas/ bonifrate tem relação com paraty e esse clima interiorano. O meio te modifica mesmo?

Acho que tá pra nascer o ser humano que não se modifica com o meio. Hoje em dia há tanto individualismo nessa nossa cultura digital/capitalista, e ao mesmo tempo tanta uniformidade aparente na experiência do que é comum, que talvez os indivíduos estejam menos suscetíveis a perceber como o meio os influencia. O futuro há de ser uma grande tentativa das gentes de descobrirem novamente que existe um mundo ao seu redor.

03. "Refúgios"

 Depois de fechar quatro canções propriamente ditas, me ocorreu que seria pertinente encaixar uma ou duas colagens sonoras para lubrificar a fluência do disco. Confesso que o novo disco dos Boogarins, Lá vem a morte, teve alguma influência nisso, porque gostei muito da forma como ele flui como um álbum, mesmo sendo relativamente curto.

No fim optei por ter apenas uma faixa-colagem, que se tornou “Refúgios”. Usei um sample do falecido poeta local José Kleber (um beatnik e um boêmio, posso dizer pelo que me lembro dele dos tempos de criança) lendo seu poema “Lamentações sobre os muros de Paraty”, uma obra-prima intensa e passional que você pode ouvir integralmente no YouTube. Adicionei um sample de motor de baleeira e alguns sons de outras faixas processados e alterados no gravador de fita.

No mesmo papo no altnewspaper, você falou um pouco das diferenças do supercordas para o bonifrate, relacionado principalmente ao método de gravação do instrumental. Eu acho que vai também na chance de você explorar novas sonoridades com o bonifrate. Que tipo de som você ainda pensa em usar na sua obra?

Acho que essa expansão é constante, e é uma busca que sabe não haver resultado definitivo. Mas uma parte muito importante dessa expansão consiste em saber trabalhar com os seus próprios limites (mentais, musicais, técnicos, materiais). Eu diria que com os Supercordas nós tínhamos como premissa explorar novas sonoridades também, a ideia sempre foi essa. A meu ver a diferença reside apenas nos sujeitos desses trabalhos e nas suas respectivas visões, e como Bonifrate estou sozinho nessa então não tem ninguém pra me dizer "Ô, Pedro, menas!".

Em algum momento, talvez no ano que vem, eu lance um disco que tem uma estrutura e uma forma bem prog-rock, um projeto meio épico-de-fundo-de-quintal que já venho gravando devagar há alguns anos; e as canções mais recentes que devem virar um novo álbum logo mais parecem ter uma onda bem diferente desses últimos, mas ainda não consigo enxergar como. Além disso estou escrevendo canções em inglês que devem sair em outro projeto, então no momento estou com diversas sonoridades diferentes sendo trabalhadas ao mesmo tempo na minha cabeça, e sem ter tempo nenhum pra realmente terminar alguma coisa (haha).

04. "Lei de Remédios"
A cacofonia irreverente do título atenua um pouco o peso dessa canção, que procura abordar uma permanência das mais significativas da história de Paraty: a servidão. Do movimentado entreposto de escravos dos tempos coloniais e imperiais ao balneário turístico que precariza sua juventude e serve de palco para uma das encenações mais brutais da chamada “guerra às drogas”, esse belo shopping center histórico é também uma das 3 cidades mais violentas do estado do Rio de Janeiro.

A palavra “servidão” é poeticamente emprestada da minha obra favorita do Antônio Carlos Jobim, que é o álbum Matita Perê e sua faixa-título, e daí emanam influxos que interpretei nessa gravação com sons de cordas de Mellotron, acordes bem brasileiros tocados no violão de nylon e nas vozes quase sem processamento além da passagem pela fita K7 - artifício que, aliás, foi bem comum ao longo de toda a produção do disco.

05. "Rã"


Pode-se dizer que essa canção partilha com “Lei de remédios” a inspiração jobiniana da fase Matita Perê, ou talvez Terra Brasilis, misturada a uma intenção batuqueira do Beck da fase Mutations ou Deadweight.

“Rã” foi escrita há mais de dez anos. Havia a ideia de que ela integrasse o disco Seres Verdes ao Redor, dos Supercordas, mas por algum motivo ela acabou sobrando. O mesmo aconteceu com outras canções que não chegaram a ser propriamente gravadas. A única versão que chegou a circular pela internet foi apresentada pela banda no programa Música de Bolso em 2007.

Aqui ela funciona quase como uma fuga da temática mais circunscrita pelas demais canções. Ela sai pela tangente da atmosfera referencial do disco, paira leve e doce sobre as ruínas que sobraram. As vozes aeradas da Thalita Aguiar, minha companheira, ajudaram a injetar ainda mais leveza nesses velhos versos.

Este video é o último da trilogia que engloba também “Naufrágios” (2011) e “Museu de Arte Moderna” (2013), em que editei livremente um arquivo de imagens do meu avô (que não cheguei a conhecer), filmadas em Pathé 9,5mm nos anos 50.

Por que fazer samba/ bossa nova/ homenagear aquela vibe de tom jobim?

Eu não diria que estou fazendo samba ou bossa nova e nem realmente homenageando essa vibe. Acho que estou me apropriando de alguns elementos de um tipo de som que eu gosto, como costumo fazer com tudo. E nem sou tão fã nem de samba nem de bossa em geral, sou ruim da cabeça e doente do pé. Mas eu curto muito os discos setentistas do Tom, como Matita Perê e Urubu, porque acho diferentes, acho que tem um mistério sertanista, um olhar desbravador, um pé na literatura brasileira e uma perspectiva social e histórica sobre o Brasil.

Eu lembro que o Kauê Ravaneda, que então era guitarrista dos Supercordas, sintetizou meus pensamentos uma vez dizendo que deveríamos soar como o Flaming Lips tocando Matita Perê na garagem, e eu achei aquilo demais. Nunca soamos como isso, mas talvez eu ainda não tenha desistido totalmente dessa ideia.

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