Sendo quartas de improviso, um bis seria impossível

por - 10:57


No dia em que aconteceria o primeiro QI da nona temporada, peguei um uber para chegar antes da apresentação. No caminho, o motorista começou a puxar conversa. Quando falei sobre uns amigos que iam tocar, veio a pergunta: “Que tipo de música rola lá?”

Essa seria a 88ª edição do QI, que acontece todas às quartas feiras em Belo Horizonte desde 2013 e já passou por vários pontos emblemáticos da cena mineira: o finado Nelson Bordello; o hub artístico Georgette Zona Muda; o espaço Ystilingue, no Edifício Maletta e, na atual encarnação, o Luthier Bar.
Durante toda a temporada 9, a pergunta do motorista do Uber me perseguiu. Afinal, que tipo de música toca quando você está fazendo improvisação livre, com convidados que muitas vezes nunca se viram? A resposta que escuto com mais frequência é: música estranha. Mas segue: o que é música estranha? Por que um dia dois malucos da música contemporânea resolveram sair da sala de concerto para fazer música em um boteco do baixo centro? Levar a improvisação para o espaço do bar agrega muitos sons ao que está sendo feito no “palco”. Atualmente, existe o barulho do balcão lá embaixo, como antes havia os carros e a conversa da varanda do Maleta. No Bordello, a interação com a rua envolvia os moradores da Arão Reis que estavam sempre por ali. Isso é parte da música estranha ou se diferencia como ruído?


Nessa nona temporada, um bocado de gente boa passou pela programação. Froiid Caco, multi artista (?), levou seu projeto Cooperinte para ser acompanhado por Miguel Javaral e Vinícius Mendes. Abriu uma temporada promissora com seu audiovisual de improviso.


Marc Davi e Daniel Carneiro trouxeram uma performance - projeção etérea e densa onde todos acabaram comendo melancias,gostando ou não. O leve e o fluido completamente misturados ao real e ao espesso. Talvez seja o fato que o Luthier seja em um lugar central e facilitou a chegada da galera. Talvez seja a persistência de fazer nove temporadas, com ou sem público. A nona temporada chegou mostrando que o evento é um espaço fértil para a cena experimental local. 



No QI 90, o encontro inusitado (e para mim, arriscado) entre o músico francês Pierre Bizot e o baixista (que depois eu descobri ser um artista mais plural) Victor Galvão proporcionou um dos melhores QIs da nona temporada e que certamente está no meu top 10 do evento. 

Que tipo de música toca lá? 


Se é  música, se dança. Certo? As dançarinas Dorothé Depeauw e Luana Vitra fizeram uma apresentação provocativa. Por que não dançar no QI como se dança em um show? Como fazer essa música (estranha?) dialogar com os públicos e, quando for o caso, com os corpos? Em um momento de censura das artes, esse pode ser também um espaço de questionamento da auto-censura que impomos aos nossos corpos.

Esta temporada quebrou ainda uma outra barreira, trazendo o trabalho acadêmico não-artístico (?) da bióloga Cecília Fiorini para dentro da improvisação livre. Também foi uma temporada com um grande número de convidadas mulheres, quebrando aquela ideia batida de que não há mulheres em cena para improvisar/experimentar.


A artista Ana Clara Ligeiro - para mim a edição mais fraca da temporada, ainda que não tenha sido uma apresentação ruim - criou um ambiente de angústia que remete esse universo frágil, “feminino”, cor de rosa. Um pesadelo plástico e tenso. 


Ficou a cargo de mais uma mulher uma das edições mais pesadas que já passou pelas Quartas de Improviso. Janaína Lages, acompanhada do flautista Bruno Faria, trouxe o ambiente social e político, extremamente tenso com a declaração de Aécio sobre o primo Fred, para o segundo andar do Luthier Bar. Enrolada em tecido, com movimentos que me remetaram muito as danças apresentadas no clipe Lazarus, de David Bowie, a artista parecia representar a nossa agitação inerte, presa em um presente que não traz perspectiva de futuro.

Trilha sonora é música?

A edição 95 do QI trouxe nomes conhecidos em diferentes cenas da capital mineira. A mistura - para mim, mais uma vez arriscada e improvável - de Marcus Vinicius, Thais Montanari e Felipe José podia gerar qualquer coisa. A mistura de trilha sonora de videogame com videoclipe do Sonic Youth deixou o público frenético (mas sem danças. E ali caberiam muitas danças. Por que eu não dancei?, me pergunto ouvindo o áudio enquanto escrevo este texto). A pergunta “que música rola lá?” correta talvez seja “afinal, o que diabos é música?” 


Ana Katherina e Patrícia Vieira executaram a perfomance orquestrada por Adilson Batista. Por um lado, houve a interação que tanto me falta. Por outro, havia algo de desencaixado na ação das duas performers em diálogo com a música. O som da máquina que enchia os balões pretos, as moças mascaradas, as bixigas estourando traziam uma atmosfera de trilha sonora para o que poderia ser uma apresentação única. 

Nesta altura, as quartas feiras improvisadas pareciam já ter se consolidado como espaço estável em meio a instabilidade que passamos neste 2017 maluco. O ambiente de trocas parecia se multiplicar e cada nova edição trazia uma nova resposta a minha pergunta inicial: Que tipo de música rola lá? 


Quando o duo de violões Stanley Levi e Cristiano Braga começou a se apresentar, pensei que poderia dar uma resposta super convencional a essa questão. No canto, uma moça lia e relia documentos acadêmicos, como se nada estivesse acontecendo no espaço. No palco, os violões eram tocados de maneira quase violenta causavam um estranhamento instigante. Será que essa poderia ser uma abertura maior para uma manifestação artística “estranha”? Será que eu poderia ter dito ao motorista que ia assitir um duo de violões?

A edição de número 98 trouxe como convidados o saxofonista Thiago Miotto e o trompetista Rômulo Alexis. Se tivesse que descrever esta noite para aquele motorista, falaria das minhas festas de família. Iwao, Koole, Mioto e Alexis pareciam falar todos ao mesmo tempo e, ainda assim, se entender. Como se naquele hiato de tempo, uns 40 minutos de apresentação, tivéssemos encontrado a resposta para esta época em que todo mundo grita, mas ninguém se ouve. Ali, pareceu possível criar um diálogo dissonante e coeso, onde muitas diferenças podiam coexistir. Como levamos essa sensação para a rua? Que tipo de música é essa?


A nona temporada do QI encerrou-se, afinal, com a edição de número 100. Não pude ir a edição 99, uma das duas que perdi neste período. De um começo inseguro, em que não se sabia se a temporada passaria das 4 primeiras quartas-feiras, para um encerramento com casa cheia, o QI 100 é o único que não posso julgar. Junto com a Ana Moravi e Pâmilla Vilas Boas, dividi a noite com a dupla Iwao-Koole pela primeira vez. 

Estar do lado de lá, no “palco”, me fez entender porque a persistência das nove temporadas, a acolhida do pessoal do bar, os encontros entre o público e os artistas. Em um tempo que o cerco parece se fechar cada vez mais sobre a arte, o experimental, o diferente e o novo, acredito que a nona temporada do QI merecia um registro cuidadoso e a altura de sua importância para cena artística de BH. Se consegui fazer isto neste texto, não estou certa. Mas se eu pudesse voltar no tempo e conversar de novo com aquele motorista, responderia para ele: “Lá toca a música que você inventa”.

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