Aldan lança 'daDAdaDAdaDAdaDAdaDAdaDA...' seu 4º disco, em parceria com a Geração Perdida

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(Aldan por Flávio Charchar)

Acordei hoje com um péssimo humor e um pouco de ressaca. É segunda feira. Cancelei meus trabalhos, fechei a janela do quarto e dormi um pouco mais. Às vezes as pessoas simplesmente não conseguem se comunicar. As frases entram fora do lugar, as piadas não fazem muito sentido. O Dadaísmo, por exemplo, foi todo um movimento formado em torno da palavra “Dada”, que pode significar “Cavalo de Madeira” em francês. Se você tem algum contato com religiões afro-brasileiras, talvez a questão do “Cavalo” e do “Veículo” lhe façam algum sentido específico; podem ainda não significar absolutamente nada, como a opinião pública tendeu a caracterizar essa espécie de progenitores franceses do non-sense. 

Toda palavra corre sempre o risco de não fazer merda de sentido algum ao querido interlocutor: ele pode ter uma idade muito diferente da sua;pode vir de outra dimensão, ou ainda ser um babaca completo. Céus, EU posso ser um babaca completo. É preciso sorte pra encontrar alguém que vem do mesmo lugar que você, todos os dias – ou pelo menos de algum lugar minimamente compatível. Porque a gente vem de um lugar completamente diferente a cada manhã. Acordar é todo um rito de iniciação; um rito roubado, bêbado, envelhecido e meio senil, já misturado por auto-corretores de celular, pacotes de dados esgotados e mais um monte de piadas sérias que provavelmente só serão entendidas daqui a mais ou menos umas quatro gerações. Se elas sobreviverem ao apocalipse nuclear. E aos vazamentos massivos de informação pessoal. E aos buracos da camada de ozônio. Ou ao derretimento das calotas polares. Enfim. Todo dia tudo começa de novo, e a verdade é que é preciso ser muito maluco pra continuar acordando todos os dias. E pra continuar usando o facebook. Mas a gente enfia a cabeça debaixo da água gelada e segue em frente, desde os tempos dos batismos nos rios do oriente. E costuma funcionar, de alguma forma. Fica tudo bem.

   

O novo disco da Aldan parece uma espécie de batismo. Aceitação e participação louca e espiritual de um mistério escondido que, obviamente, não pode ser transcrito completamente. Era, antes mesmo do término da minha primeira audição, o meu disco favorito deles. Talvez por causa dessa sincronia biofísica que existe entre uma obra visceral e o seu criador, ou da capacidade inexplicável que determinadas palavras encontram de veicular mensagens diferentes para pessoas diferentes, acho que é um retrato muito preciso de onde nos encontramos atualmente, no tempo e no espaço; nas épocas em que ouvi os discos anteriores, sempre tive muitas dúvidas sobre o aspecto cômico das canções. Em daDAdaDAdaDAdaDAdaDAdaDA..., pela primeira vez me pareceu óbvio como os pontos de mais alta loucura, de mais óbvia ironia e da mais despropositada comédia ressoam em formas finais que não poderiam ser mais verdadeiras, sinceras, e assustadoramente reais.

A abertura de “Uh!”, com a participação de Gabriel do máquinas nos saxofones, o instrumental preciso e calmo como um relógio, e a voz sóbria e seca de Marcus -“Eu visto Branco/ Feito um pai de santo/ E não desvisto mais”- se deixam transformar aos poucos por uma espécie de surto orgástico e doloroso que brinca e que finge se deixar controlar enquanto Marcus grita “Quem pediu pra parar fui eu”, só para recomeçar novamente no próximo refrão. As ocasionais batidas eletrônicas que tem início em “Hipernormalização” – um ícone sagaz do documentário de mesmo nome da BBC e do seu conceito central, arrisco que cortesia do baixista, vocalista e produtor Fernando Bones - acompanham a construção de um retrato da realidade política global dos últimos anos a partir de corpos desfeitos e paralisados em êxtases cibernéticos, guitarras distorcidas e empoeiradas desintegrando e re-aprisionando pequenas cantigas perdidas de elevador. Um sistema humano-máquina se retroalimentando por gozos, descargas elétricas e fantasmas não exorcizados, crescendo como um monstro interminável de culpa e redenção, tão habilmente encarnado pela voz de Jair Naves – enfurecida como não me lembrava há muito tempo – em “Big Data/Wishfull Thinking”.

(Arte do disco, por Paola Rodrigues)

Mesmo os momentos mais “normalizados” do disco mostram feridas mais abertas e talvez nisso se encontre o núcleo de gravidade que me puxou de forma inédita em relação aos trabalhos anteriores da Aldan. São muitas vozes, muitos fluidos, vômitos, droga e bílis, uma organicidade e uma exposição de medos e desvios talvez mais primitivos, mais paranoicos e menos disfarçados; em “Monoteísmo” , que conta com as guitarras de Bruna Vilela, da revelação mineira Miêta, a presença crescente do fanatismo nas nossas terras – São Paulo pode ter perseguidores loucos de Judith Butler, mas aqui pro nosso lado, vereadores evangélicos editam vídeos falsos de visitas escolares e amaldiçoam exposições de arte com sexo anal. Estamos na mesma -  é tratada como que de dentro; do fanatismo pessoal e do medo inevitável da cegueira e do envelhecimento político ( “Eu tenho medo de ficar cego/ como os fiéis seguidores de um deus único”), daDAdaDAdaDAdaDAdaDAdaDA... faz movimentos de releitura de toda a nossa história, e o resultado é uma trilha sonora genealógica de gerações e gerações de vencedores sempre fracassados, de nostalgias perdidas, de chefes tristes – “Meu Chefe É Triste” é talvez uma das canções mais “Aldan” de todo o disco – e de avós que morrem em vão. É provavelmente o disco mais perdido da Aldan até os dias atuais, e isso diz muito sobre a antiga aproximação, agora consolidada, com os artistas e o próprio selo da Geração Perdida. Além da sombria arte gráfica assinada por Paola Perdida, a única versão do disco vem com participação do jovem Fábio de Carvalho, também artista da Geração, e seu pai, uma regravação frenética e enérgica da canção de Edevaldo Strapasson, uma pérola perdida que, um dia, ainda deve render muito interesse cult pela internet. 


No final, inacreditavelmente, até que vai tudo bem. Ainda tem carnaval, festa, beijo na boca. Às vezes falta vitamina D ou um cigarro salvador. Ou coragem pra levantar no dia seguinte, ou mesmo pra chutar os paus das barracas. Sintomático que um disco tão denso seja também um disco de amigos – além dos já citados, o trabalho ainda conta com a participação de Thales Silva (Minimalista e d’A Fase Rosa), e de Daniel Nunes (Constantina, Lise). Assim a vida segue, esse monstro alimentado de medo e gozo, e nós seguimos esperando nossas próprias salvações. Repensando toda a minha história de audição relativa a Aldan, posso concluir que me incomodava um pouco um certo não-revolvimento musical. É certo que as letras e as temáticas estão mais afiadas e contundentes do que antes, e que daDAdaDAdaDAdaDAdaDAdaDA... trata-se de um disco muito mais pesado e certeiro, ao meu ver. Mas por outro lado, talvez minhas audições anteriores estivessem redondamente deslocadas. Toda música corre sempre o tal risco de ser como um Cavalo de Madeira Vazio: nossa idade, os diferentes contextos emocionais e tantas outras questões muitas vezes nos impedem de entender a profundidade das trevas de tudo aquilo que beira o non-sense. Mas a alma da gente também não é bem resolvida, afinal. Um dia, todos percebemos. Ou não. 

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