O vazio cheio de Sudário em 'Vale do Açu'

por - 10:14



Vale do Açu é um nome forte. Se refere a uma formação na porção oeste do Rio Grande do Norte. Parece dizer de alguma terra mística, uma montanha paradisíaca ou um lugar secreto cheio de pássaros, cantos e sombras, mas é também só o nome de um prédio. Prédio em que o músico célebre desconhecido, Adriano Sudário, compôs boa parte das canções do disco que compartilho com vocês agora.



O disco — primeiro lançamento da Brasinha Discos, um selo vindo de Natal que pretende auxiliar no processo de construção de pontes entre os submundos underground do Rio Grande do Norte e demais partes do país — segue esse mesmo jogo duplo de grandiosidade e despretensão. Soa como um jogo de recortes, canções bastante diferentes, como que separadas por diferentes idades, diferentes tempos, diferentes almas, níveis muito diversos de pretensões, todas unidas por um mesmo fio condutor lúcido e ao mesmo tempo quase invisível que se mostra em cada canção em intensidades diferentes. Melodias que seguem independentes e despreocupadas. Existe um conflito constante entre um passado brilhante, mas quase empoeirado, aura, e uma espécie de diário da demência da vida emprisionada da cidade grande. Como um filho-perdido-no-tempo de Baden Powell, uma cria do nosso samba velho imersa nos delírios e na preguiça da nova-adolescência do século XXI, cantos do mato e do abaeté atravessados por impulsos eletrônicos e mirações psicodélicas, aprisionadas num registro lo-fi que faz-se sentir como um claustrofóbico apartamento, entre a solidão, o conforto e as fugas ao ar livre. Essas transições temporais são bruscas, como se fossem viagens ao passado, sonhos... a beleza das confusões entre o acordar e o dormir.

Conversando com Adriano sobre o processo de produção do disco, pela internet, desenha-se nessa matéria um retrato seu, disperso e despretensioso que diz muito sobre os nossos tempos. A grandiosidade e a pequenez andando de mãos dadas, a linguagem perdendo o seu brilho, refazendo-se em diminutos cada vez mais simplórios e, ao mesmo tempo, infinitamente mais sinceros: como o Vale do Açu esvaziado em um apartamento. Não há grande história a se contar e essa talvez seja a maior arma dos nossos tempos.

Queria sacar como é o seu rolê com música. O que o disco representa pra você na sua trajetória? O que você fazia antes dele?

Acho que comecei a compôr com uns 12 anos, quando comecei a aprender a tocar violão. Na época eu costumava tocar com meu primo que estudava violão junto comigo. Depois fizemos nossa primeira banda com um amigo do colégio e gravamos uma demo bem ruim que ainda tenho aqui (risos). O nome da banda era Deformers e aí meu primo parou de tocar e decidiu começar a ganhar dinheiro, se dar bem na vida. Chamamos outro amigo e fizemos a Cafféine. Chegamos a gravar várias demos e tocar em um outro lugar. Comecei a tocar com a Hey Apple e gravamos um EP que teve um reconhecimento na época, mas também não durou muito. Em 2011, eu acho, comprei um violão de aço, juntei uma grana e gravei meu primo disco sozinho como Peceful Pants. Até então, costumava compôr só em inglês porque achava mais fácil e minhas influências musicais na época eram na maioria todas em inglês. Quando deu mais ou menos 2013, comecei a tentar algumas coisinhas em português e botei na cabeça de fazer um disco todo em português, que até então nunca tinha nem cogitado em fazer. Na época eu chamei o Henrique Geladeira pra produzir e começamos a gravar na casa dele, sem muito compromisso. Depois de ter gravado quase tudo, fui na casa dele fazer backup das músicas. Passou um tempo e quando vi ele já tinha se mudado pra Curitiba e tinha perdido o HD com tudo que tinha dentro (não fosse pelo backup, acho que eu tinha deixado quieto). Com o Henrique morando fora, tava mais difícil de continuar e já faltava bem pouco. Conversei com ele, passei a bronca pro Walter Nazário, que terminou as produções finais e mixou. Quando tava no finalzinho do processo, o Henrique passou por Natal e também mexeu mais nas mix de algumas músicas. Quando fui ver, acho que demorou bem uns 4 ou 5 anos (risos).

O que cê pensa das influências do disco? Eu pensei em Baden Powell na hora. Sua relação com o violão passa por essa galera dos Afro-sambas?

Acho que de influência tem tudo isso daí que vc falou mesmo (risos). Sempre ouvi muita coisa dos anos 90 na adolescência: Sonic Youth, Radiohead, etc. Depois comecei a escutar Elliot Smith pra caralho, Cat Power, Devendra Banhart. Na época que comecei a gravar esse disco, passei a procurar coisa brasileira e acabei sacando muita coisa que rolava por aqui nos anos 70-80: Baden Powell, Ave Sangria, Pedro Santos... mas no lance do violão, que você perguntou, eu sempre toquei violão mais por preguiça de ligar a guitarra (risos). O violão já fica lá bem bonitinho no sofá, eu só pego e toco. Guitarra o cara tem que ligar o pedal, um monte de cabo, depois ainda tem que guardar. Burocracia demais! (risos).

E aí entra nessa questão de música caseira né...  essa galera dos anos 70 e 80 no Brasil, eu tenho a impressão que tinha uma relação mais doméstica, caseira mesmo com o negócio de produzir música que a gente perdeu um pouco.  Qual o lugar dessas coisas todas de processo de gravação, qualidade de áudio e tudo mais procê? Porque até pela capa, eu vejo muito essa questão "doméstica" no disco. Cê acha que foi algo proposital?

Quando lancei meu primeiro disco solo, eu ainda tinha essa viagem de querer soar bonitinho, seguir uma estética 'profissional', mas porra, o cara vai enganar quem, eu sei nem tocar direito (risos). Nesse último gravei tudo sem pretensão nenhuma, foi um lance mais pra mim, então, o cara achando massa, pra mim já tá massa. Essa capa foi uma foto minha que um amigo meu tirou do prédio dele na época. A gente morava na mesma rua e ele fez uma gambiarra de botar a lente do celular numa luneta enquanto eu ficava uns cinco minutos parado esperando ele conseguir acertar (risos) mas nem foi tirada pensada no disco não, achei por acaso bem depois.


A conversa durou mais algumas perguntas. Mas em algum momento no meio do caminho, percebi que prosseguir com a reprodução seria trivial demais. A alma da coisa não estava ali. Toda entrevista tem essa necessidade já exausta de produzir belíssimas histórias, de excluir o tédio e a falta do que dizer, quando são esses muitas vezes os fatores principais por trás da beleza. Não pretendo me prestar a esse papel.

Quando ouvi Vale do Açu pela primeira vez, foi a primeira canção que me captou a atenção. Chama-se “[o]”. E talvez seja melhor aceitar que eu não poderia falar melhor do que o próprio Adriano sobre esse colorido cinza das coisas que são, como nós, mortais, e ainda assim, tão puras.

"um céu nublado, ainda bem
cinza é cor também
uma memória ou um sonho pra sonhar
um alguém pra se dar
pois enquanto for puro
se doer, doeu
por ser bom faz chorar
e tem mais:
não é tanto faz
mas o quanto for puro

frio da janela, e o que é que tem?
bom pra sentir além
do que o corpo acostuma
sabe lá o que carrega o ar
mas enquanto for puro
se for de sentir
te veste e logo mais se vai
como nós, mortais
e ainda tão puro"

Você também pode gostar

0 comentários