Assista a dois vídeos do Santos na Sensorial Discos

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Santos por Pedro Arantes

A gente já falou do Santos e de como o rapaz é inquieto: faz de tudo um pouco, sempre com aquele afinco de quem enxerga, em um Rio de Janeiro muitas vezes dominados pela grana — mesmo na cena independente — que existe um bem maior. Com dois discos solos usando seu nome, ele também assina o Dogma, seu último trabalho soou diferente. Em Afeto, o carioca apostou em um álbum com mais de uma hora e meia de duração, 21 músicas e temas sempre autobiográficos contados, como o próprio Santos diz, “de uma maneira não-linear”. Como o rapaz tá em fim de tour e rolou a gravação de dois sons que o menino tocou aqui em São Paulo, no show na Sensorial Discos, descolamos o material com exclusividade pra vocês e conversamos um pouco com o músico sobre o futuro, o trabalho e os rótulos que ele mesmo dá à música que produz.

Suor foi um álbum quase que inteiramente sobre como eu não soube me relacionar com algumas pessoas. A produção inteira do disco durou menos de um mês, gravado todo de uma só forma, só com guitarra e voz, gravação pouco preocupada, gravei o disco todo rouco, etc. Afeto já é um compilado baseado numa autobiografia não-linear. Tem um pouco do que vivi na época do Suor também (‘Evasão pt 1’), como também tem muita reflexão sobre questões éticas e ontológicas, sobre o namoro com a Dani, algumas reflexões sobre perdas e distâncias. Com certeza é um disco mais maduro e é por essa falta de linearidade e presença de muitos assuntos e formas sonoras que o entendo como um disco de música acidental”, diz Santos, quando perguntado sobre as relações entre os dois trampos.

Uma coisa chama atenção: ao invés de usar um termo experimental para se referir ao seu trabalho, bastante comum hoje no meio da música independente, ele prefere brincar com duas classificações: música acidental e/ou Afro-Grunge. O primeiro pode soar aos ouvidos menos atentos como que se tudo fosse um grande acaso ou melhor, uma compilação de aleatoriedades, mas pelo contrário, é o sentimento que faz com que tudo soe mais natural. “É acidental porque me sinto livre pra fazer o formato que eu quiser sem me apegar a nada. A introdução do disco, por exemplo, cheguei com dois riffs de guitarra no estúdio, acabei lá tocando cinco instrumentos e deixando depois o João com liberdade irrestrita pra inserir o que quisesse na edição. É acidental porque toquei um samba em SP e logo antes um shoegaze. Acho que se tem um conceito que acho que tem envolvido bem meu som nesse momento, principalmente nos shows, é o de Afro-Grunge”.


Santos por Pedro Arantes

Com um rótulo nada convencional, uma duração diferente para os dias de streaming, clipes e velocidade — e não entenda você que isso é uma crítica de tiozão, é só uma constatação mesmo, chapa — Afeto também é um disco conceitual. “Acho que o conceito é tudo porque sobre tudo conceituamos. Enxergamos um escopo de sentido nas coisas, a partir de um universo linguístico que compartilhamos. Daí tudo ser conceito e conceito ser tudo. Daí que, parafraseando Deleuze (perversamente), acho que música é criação de conceitos. Sobre como isso afeta formação de público que entro num limbo, porque ainda fico preso a questões anteriores, me perguntando o que é um público, em que momento minha música é produto e como deve ser minha reação com ela frente a esse mercado de nicho. Acho que o comportamento das pessoas que consomem música em minha bolha é tão volátil e heterogêneo, principalmente com artistas negros, que não sei se olho pra ele com atenção bastante pra que paute meu som de alguma forma”, explica Santos.

Em fim de uma tour, que passou por SP e teve direito a participação do Negro Leo, Santos diz que o futuro, como sempre, é incerto, mas que uma coisa ele sabe: vai terminar essa temporada de shows com apresentações em BH e no Rio de Janeiro. “Vou tocar em BH, mais duas vezes no Rio e finalizar a primeira parte dessa turnê. No segundo semestre, devo fazer só mais quatro apresentações, num formato solo, duas no Rio e mais duas em SP. Ano que vem devo casar, então qualquer planejamento fica incerto. Planejo não tocar mais de graça nem gastar mais que o cachê/bilheteria pra tocar, o que pode fazer do ano que vem um ano sem shows, só com alguns lançamentos online. Veremos os próximos capítulos”.

Assista aos vídeos do Santos tocando na Sensorial Discos abaixo.


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