Ouça 'Antes que só um quase', novo álbum da banda NÃ

Nã por Leo Eloy




A big band paulistana está de volta com um novo trabalho. Antes que só um quase é o segundo disco do grupo, foi gravado no estúdio El Rocha e lançado nesta quinta-feira (30). 

Para quem não lembra, o NÃ é um grupo formado por Thiago Babalu e Renato Ribeiro (Ex-Gigante Animal), Bjanka Vijunas, Michel de Moura e Thiago Pereira (ambos do Projeto Da Mata) e Fernanda Broggi. O novo trabalho conta com Júlio Dreads acrescentando mais batidas sonoras na mistura. O álbum tem 16 faixas e conta com a participação de nomes como Alessandra Leão, Mauricio Takara, Valério e mais um monte de gente. 

Se em Farpa, primeiro disco, a banda parecia misturar sonoridades distintas numa fusão muito louca, neste segundo trabalho, o grupo parece ter pesado mais nas letras e deixado a sonoridade um pouco mais linear. Por mais que boa parte dos elementos sonoros do primeiro trabalho estejam neste novo, tudo parece um pouco mais assimilado e trabalhando com o objetivo de deixar a canção como destaque. As letras do Michel carregam toda a angústia do momento político atual no qual vivemos, como em "Embalagem Alta Cultura" e "Biceps, fígado, pulmão".


Aproveitamos pra trocar uma ideia rápida com o Michel. Dá o play no disco novo e saca o papo.






O que mudou na NÃ do Farpa para este segundo trabalho? 

Muita coisa mudou nesses dois anos, obviamente. Uma coisa foram as mudanças paradigmáticas que se intensificaram na sociedade brasileira desde o golpe de 2016 e atuam em nosso cotidiano. Outra coisa foi nossa própria relação enquanto coletivo, uma banda com sete pessoas que se constrói continuamente através de inúmeros processos de aprendizagem, enriquecedores, mesmo que, muitas vezes, conflituosos. O disco é um pouco essa busca de um lugar improvável, utópico, no sentido dado por Eduardo Galeano: “utopia serve para que eu não deixe de caminhar”. Sendo um segundo disco, realiza nossa própria determinação em caminhar, mesmo sob condições tão adversas impostas a artistas independentes como nós.


Este novo trabalho é um pouco mais "tranquilo" em som e mais pesado em mensagem ou to viajando? Existe um porque para tais caminhos? 

A sonoridade da banda ganhou novos rumos, devido principalmente à valorização dos arranjos feitos com violão, aposta de nosso guitarrista Renato Ribeiro, que também gravou bandolim e metalofone. A percussão também se faz mais presente e atuante, a partir dos arranjos de Julio Dreads. Talvez por isso soe mais tranquilo, apesar de mantermos uma pegada apocalíptica em diversas faixas, como "Mistico, anacrônico, sincrético, cosmológico" e "Virtude". Quanto às mensagens, mantivemos o tom crítico, dessa vez mais centrado nos paradoxos das morais burguesas atuantes. Contudo, buscamos um outro caminho na forma canção, talvez mais reflexivo, "um passo pro lado", como gostamos de dizer, através de metáforas de tempo e transformação, conceitos a partir dos quais refletimos nossa própria existência enquanto artistas gravando discos às próprias custas em 2018 na terra do “quem não tem capital, masmorra”.


Se você tivesse que escolher para salvar de uma enchente: pegaria os discos da vanguarda paulista ou da tropicália?

(RISOS) impossível essa decisão, morreria afogado...

Por outro lado, guardada as devidas proporções e exceções, acho que essas duas correntes artísticas estão bem protegidas no mapa de representações da música brasileira. Sendo assim, salvaria os discos de dezenas de artistas contemporâneos, entre esses muitos colegas, que permanecem invisibilizados frente às relações de poder que estruturam os meios de produção, difusão e circulação atuantes.


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