
Do começo ao fim, Melancolia, de Lars Von Trier, reflete sobre a morte. Em todos os sentidos possíveis.
Com um prólogo que muito se assemelha à cena inicial de Anticristo (no qual desfilam os signos que farão parte da trama, de forma lírica, em câmera lenta), o começo de Melancolia chega a ser surrealista: chuva de pássaros mortos, planos simétricos (que lembram a estética esquizofrênica de O Iluminado, de Kubricky), uma noiva arrastando com dificuldade pesados fios de lã, movimentos lentos, quase estáticos para imagens absurdas. Paisagens comuns a qualquer delírio de Luis Buñuel. O planeta terra se choca com outro. Nada mais sensacional e absurdo que o apocalipse.
Se em Anticristo o prólogo desenhava uma composição realista e esclarecedora para quem suportava assistir ao filme até o fim com seu conteúdo violento; em Melancolia, por sua vez, Lars Von Trier trabalha os signos de forma mais inconsciente (para o público), expõe os símbolos da trama de maneira distorcida, alterada, disfarçada, como se fossem flashs de memória de personagens que se defrontam com o momento da morte. A música “Tristão e Isolda” de Wagner, totalmente adequada à cena, dá lugar, aos poucos, a um som grave e crescente. O fim (do mundo, da vida) está próximo. Para quem? Para Lars Von Trier? Para suas personagens? Ou para o público?
Justine está se casando com Michael (Alexander Skarsgard), um rapaz tímido e desajeitado. Ela é controlada pela irmã Clair (Charlotte Gainsbourg) e pelo cunhado John (Kiefer Sutherland), que se esforçam para adequar Justine às normas de uma sociedade burguesa. Durante a cerimônia, Justine caminha para uma espécie de suicídio social. Seu humor muda na medida em que outras personagens se revelam. Seu pai (John Hurt) é um ser patético que rouba talheres da festa e galanteia duas mulheres que se chamam Beth. Sua mãe (Charlotte Rampling) é uma mulher desiludida e agnóstica, que se porta na festa como se estivesse em um funeral. Seu cunhado John, apesar de milionário, vive a jogar na cara de Justine cada centavo gasto na festa. Seu chefe (Stellan Skarsgard) lança uma campanha publicitaria em plena festa.
O clima de mal-estar cresce gradualmente e lembramos de outro filme dinamarquês pertencente ao manifesto Dogma 95, Festa de família, de Thomas Vintemberg.
Por outro lado, Justine regressa para um caminho instintivo e primitivo de sua condição humana. Essa regressão fica clara na cena em que ela se isola no campo e urina enquanto observa as mudanças astronômicas causadas pelo planeta “Melancolia”, que se aproxima da Terra. A música de Wagner retorna formando uma combinação dramática inusitada.
Outra cena que simboliza o que poderíamos chamar de “primeira morte” da personagem, é a sequência em que Justine tem um pequeno surto e troca os livros de arte abertos da estante de seu cunhado. Obras concretas e modernas, dão lugar a quadros clássicos obscuros com cenas de suicídio, genocídio, guerras, purgatórios. Justine não acredita mais na vida. É atingida por (ou pela) “Melancolia”.
Claire, irmã de Justine, é também o nome do segundo e derradeiro capítulo do filme. Claire está no auge de sua vida social, é casada com um homem rico, tem um filho (Cameron Spurr) e mora em uma enorme mansão. É assombrada pelo desajuste social de Claire e pela aproximação do planeta “Melancolia”. Na medida em que o medo de Clair cresce, Justine se recupera, mas mantém a sua posição de total desesperança.
O Deus de Claire é John, seu marido rico. É ele quem dita as regras de uma bem sucedida vida social. John passa o segundo capítulo acalmando Clair sobre os perigos da aproximação de Melancolia. Mas a morte de Claire se inicia na medida em que põe em cheque a sua fé cega pelo otimismo do marido diante das trágicas previsões científicas. Clair inicia a sua dança da morte, compra veneno para ser usado com urgência, caso Melancolia destrua a Terra. Seu medo cresce com o decorrer da fita. Não sabemos qual tipo de morte mais assusta Clair, se a social ou a física.
A postura de Justine para a possível catástrofe é totalmente oposta à reação de Clair, por uma questão de ordem de fatores. Morrendo socialmente no primeiro capítulo do filme, Justine não tem mais o que perder, apenas aceita a sua condição diante da natureza. O que poderia ser uma ligação cósmica, dá lugar ao ceticismo. Para Justine, a esperança já está morta. Em uma conversa com Clair sobre o fim do planeta, Justine exclama: “a Terra é má”. Já Clair, mesmo diante da morte, é incapaz de se desvencilhar dos seus apegos.
Lars Von Trier cria uma inversão dramática. Enquanto Justine expõe as suas limitações e fraquezas no início do filme, no decorrer da trama, ela surge como a personagem mais preparada para morrer, porque já experimentou a morte em outra ocasião. Embora mantenha uma postura de descrença na vida, Justine estabelece alguma ligação mística com a natureza, seu ceticismo não é total, vide a cena em que se despe na beira do rio sob a luz do estranho planeta Melancolia. Em outra cena, Justine ao revelar o fim do mundo a sua irmã, diz saber sobre o futuro por algum motivo sobrenatural. O diretor cria um paradoxo, Justine percorre um caminho místico para alcançar o vazio existencial e por conta disso, compreende melhor essa natureza. O vazio agora é a sua crença.
A compreensão de Justine parece estar acima da própria natureza que a rodeia. Em duas cenas, Justine tenta atravessar a ponte de madeira montada no cavalo que se nega em seguir em frente. O que está do outro lado da ponte? A morte? O vazio? A revelação definitiva? Em outro momento da fita, os cavalos que antes estavam alvoroçados pela aproximação da catástrofe parecem compreender depois, juntos a Justine, os enigmas da morte e se acalmam. Ao contrário das outras personagens que se desesperam ao se aproximarem do fim.
Calcado no roteiro detalhado e na performance dos atores, Lars Von Trier mostra como cada um reage diante da morte. Clair e John dão adeus ao mundo racional e morrem feito bichos assustados, o filho do casal morre sob o manto da inocência e Justine morre como quem tudo compreende, com a dignidade de quem já morreu mil vezes.
O apocalipse reinventado por Lars Von Trier faz com que todos nós morramos juntos, abraçados à nossa solidão. Sem deuses ou demônios. Apenas o vazio.
texto originalmente publicado no blog oolhoderramado.wordpress.com







1 comentário
fernanda ler.ato says:
Nov 5, 2011
>justine é retratação da melancolia… o melancólico tem o saber do Real, do não sentido… é, dos sujeitos, talvez o mais sábio…