Essa foto ai foi tirada do site da Dischord, ela é meramente ilustrativa (como todas as outras deste post). Outro dia o parceiro Diogo Gavão estava mandando uma antiga e lendária entrevista do Ian Mackaey pelo twitter realizada em 1994, quando ele veio ao Brasil numa tour histórica com a banda Fugazi. Esta entrevista saiu originalmente na revista Panacea nº 36, foi feita pela Gabriela Dias(que inveja!) e contou com participação de alguns fanzineiros importantes da época. Ou seja, nos estamos apenas tirando a poeira e repassando a mensagem de uma das lendas do rock mundial, que tocou numa das melhores bandas de todos os tempos, a tal da Fugazi. A entrevista era dividida em partes (como temas) e tem importantes informações do que é ser independente, atuais ate hoje, dezesseis anos depois. Segue então a entrevista, na integra…Simples, direto, ríspido, até — assim é Ian MacKaye. Só quando eu, Eduardo Abreu (do 100 Tribos) e Adelvan(do Escarro Napalm) fomos enfrentar o monstro é que vimos que ele não tinha 7 cabeças. Obsessivo, gentil, atencioso — Ian (bem como Guy, Brendan, Joe e Joey, o roadie multitarefa) foi se revelando aos poucos para quem, como eu, teve o privilégio de acompanhar a banda em BH e Sampa. Os estereótipos começaram a cair durante esta entrevista, realizada no restaurante do hotel em que nós (fanzineiros convidados do BHRIF) e eles (maior atração do evento) estávamos hospedados. Com vocês, o Fugazi como ele é.O maior problema da cena independente brasileira é que não há muitas gravadoras, rádios e publicações para apoiá-la. Considerando isso, que diferença você vê entre o fato de uma banda daqui e de uma banda americana assinarem com majors?

I. Mackaye:

Nos EUA não foi sempre assim. Isso é uma conseqüência. Entre 78 e 81, não havia muitas gravadoras. Mas é difícil fazer comparações. São países diferentes, culturas diferentes.Você tem uma “receita” para que se desenvolva, aqui, uma cena forte?

I. Mackaye:

O quê?Uma “fórmula”…

I. Mackaye:

Vim para o Brasil porque convidaram. Não sou desbravador. Vocês não precisam de um americano para dizer como fazer as coisas.E como se desenvolveu a cena nos EUA?

I. Mackaye:

Havia muitas cenas [regionais] diferentes. O comecinho, pra mim, foi em 79, com o punk. Em cada cidade havia algumas bandas, o que ocasionava o aparecimento de uma gravadora. As cidades se comunicavam por meio de cartas, telefonemas, fanzines… E a coisa cresceu. É como o seu fanzine. Como começou, como chegou até aqui? Não é tão simples. A minha versão favorita da história é: um dia, formamos uma banda. Agora estamos aqui.Você é uma das lendas do hardcore americano. Qual é a sua opinião sobre outros ícones dessa época: Jello Biafra, GG Allin?

I. Mackaye:

O que você quer saber deles?O que você acha deles.

I. Mackaye

: Alguns foram meus amigos. Nunca conheci GG Allin. E agora ele está morto, então…Você não tem nenhuma opinião sobre ele?

I. Mackaye

: GG? [pausa. risos] Claro que sim. Não sei. Acho que todo mundo tem uma opinião sobre GG Allin. Não acho que a minha seja diferente. Ele me parecia uma pessoa infeliz com alguma coisa.E quanto a Jello Biafra? Vocês são amigos?

I. Mackaye:

Eu o conheço há alguns anos.Você gosta dos projetos solo dele? E das colaborações de estúdio, como o Lard?

I. Mackaye

: Não gosto de falar dos outros. Digamos, por exemplo, que você odiou esse pão, mas eu amei. O pão é bom ou ruim? O pão é o pão. Jello é uma pessoa que lutou muito, que tem lá suas idéias, e que é um bom performer. A primeira vez que o vi foi em julho de 80, num show dos Dead Kennedys em São Francisco. Desde então temos sido amigos. Ele é legal.

 Carregando a bandeira indie
Como foi aquela época pra você? Eu falei com Henry Rollins [veja Panacea 35 (Alguem tem isso?)] e ele disse que estava feliz agora porque, quando em turnê com o Black Flag, passava fome.I. Mackaye:Bem, não vou falar necessariamente sobre Henry, ok? A maioria das pessoas que assinam com majors têm desculpas. Uma das que mais ouço é que passavam fome e não tinham dinheiro. Mas estou numa independente e faço parte de uma banda punk. Não assinei com major. Não estou passando fome. Estou bem. Estou no Brasil. Quando as pessoas dizem “foi tão difícil”, o que elas querem dizer é: “Me sinto um pouco culpada por ter feito isso”. Essa é a minha opinião. Não necessariamente sobre Henry. O Black Flag estava na estrada o tempo inteiro. Trabalhavam muito, geravam bastante dinheiro, vendiam muitos discos. O que aconteceu com Henry não… Não foi o caso da música independente, mas sim do Black Flag, tê-lo deixado na mão. Ele não recebia a grana. Nunca recebeu royalties.Roubado por Greg [Ginn, guitarrista; dono da SST, gravadora da banda]?

I. Mackaye

: Sim, por Greg.Ele me disse.

I. Mackaye

: Não se pode culpar toda a cena com base nas ações de algumas pessoas ambiciosas e sem caráter. Não é justo! Henry devia dizer: “Eu estava no Black Flag, e as pessoas da minha gravadora não me pagavam. Agora tenho controle sobre meus negócios e estou sendo pago.” É o que ele devia dizer.Ouvi a mesma coisa da baterista das Babes in Toyland, a Lori Barbero.

I. Mackaye

: Babes in Toyland? Elas nunca foram uma banda independente! Lançaram um álbum pela TwinTone, e logo depois assinaram com a Warner.Mas ela tem um selo indepedente, o Spanish Fly.

I. Mackaye

: Sim, tem. O fato é: se você é uma banda popular, que trabalha e toca muito, e se as pessoas gostam de você, pode conquistar algo em gravadoras independentes. Se não, é difícil. Em uma major, você pode não ser popular, mas ainda assim vão fazer dinheiro com você, porque eles vendem qualquer coisa. Essa é a especialidade das majors: pegar um pedaço de merda, dar uma polida, e fazer um disco.Fazer vídeos pra MTV…

I. Mackaye

: Eu não odeio majors. Não odeio pessoas que assinam com elas. É apenas a realidade, o modo como as coisas são. Eu gostaria que as gravadoras independentes não tivessem sido tão ambiciosas nos úlltimos dez anos. Porque o que aconteceu — essa é a minha opinião sobre o porquê da música independente haver falhado, de certo modo, nos EUA —, o que aconteceu foi que havia bandas, em 85, na SST… Black Flag, Minutemen, Bad Brains, Meat Puppets, Hüsker Dü.Sonic Youth.

I. Mackaye

: Sonic Youth. Qualé? Era uma loucura. Aquelas bandas eram tão populares. E o fato de que não recebiam a grana da SST era ridículo. Se a SST as tivesse pago, não creio que teriam ido para majors. A coisa poderia crescer para algo enorme. Mas a SST não pagou. Então o Sonic Youth disse: “Foda-se! Nós vendemos 15 mil discos e não recebemos!” As próprias gravadoras falharam. Se tivessem sido responsáveis, as coisas estariam melhor…Foi falta de organização?

I. Mackaye

: Não sei. Acho que, quando acontece um sucesso numa independente, as pessoas imediatamente pensam: “Nossa, é melhor começar a pensar como major!” Pra gente, da Dischord — que vendeu, com um disco do Fugazi, In on the kill taker, 250 mil cópias —, é diferente. Não assinamos contratos. Nossas bandas são nossos amigos. Com o Jawbox e o Shudder to Think — que deixaram a Dischord por majors —, foi assim: “Vão e boa sorte.” Não brigamos. Esse é o relacionamento que eu tenho que ter, se vou fazer esse trabalho. Porque o mundo da música fede. É uma merda.A sua palavra é mais importante que uma assinatura?

I. Mackaye

: Claro. Acho que, se fiz um acordo com alguém e a coisa não deu certo, não tenho que ir pro tribunal por isso. Acabou. As gravadoras… Digamos: Babes in Toyland. Assinaram com a TwinTone, que era uma pequena distribuidora de Minneapolis.A mesma que lançou um dos álbuns do Soul Asylum.

I. Mackaye

: Exatamente. Elas assinam, e aí a Warner vem e diz: “Nós queremos contratar vocês.” Aí a TwinTone diz: “Nós temos um contrato com elas.” A Warner: “Quanto vocês querem pra liberá-las?” Aí a TwinTone ganha, talvez, 50 ou 75 mil dólares. É pra isso que existe contrato. Pras gravadoras fazerem dinheiro. Quando a Atlantic [N. da E. Parte do grupo Time Warner] veio atrás do Jawbox, eu disse: “Não queremos dinheiro.” Não queremos nosso nome em lugar nenhum do disco. [risos] Quando a banda sai, acabou. Eu disse a eles [o Jawbox]: “Garantam alguma vantagem pra vocês.” E eles garantiram: ganharam um bom dinheiro a mais – já que a Atlantic não teve que dar dinheiro pra Dischord pelo Jawbox, a banda ficou com algum. No final das contas, pra mim… Não quero ter nenhuma conexão, não quero ser parte da Atlantic, da Warner, da Capitol. Fodam-se eles! Simplesmente não estou interessado.Você não precisa delas.

I. Mackaye

: Não que eu não precise. Não é interessante [ser parte de uma major]. É chato. Às vezes eu penso: “Deus! Todos os meus amigos são milionários e famosos!” E eu sou este carinha que é fiel ao próprio mundo. Aí as pessoas pensam que uma banda como o Rage Against the Machine é que é radical. Como se pode ter rage against the machine [N. da E. Raiva da máquina, do “sistema”] quando se é parte dela [N. da E. O RATM é contratado da Sony]? As pessoas têm que superar essa coisa da imagem, do dinheiro… Talvez não estejamos ganhando tanto, nem recebendo toda a atenção da imprensa, mas estamos vivendo uma experiência única. Nenhuma outra banda vende tanto quanto a gente fazendo as coisas como nós. Você quer saber quem é o empresário do Fugazi? Você está olhando pra ele. Nós agendamos os shows, nós empresariamos. Nós temos o controle. Essa é a porra da nossa banda! É uma experiência muito interessante, mas que a maioria das bandas não tem.Considerando sua discografia completa, o Fugazi já vendeu mais de 1 milhão de cópias. Sabemos que isso é resultado de um esforço enorme, mas… Como você se sente administrando tanto dinheiro?

I. Mackaye

: Isso não me afeta. Nós somos honestos. A Dischord é honesta. Pagamos todo mundo. Todo mundo que trabalha pra gente recebe um bom dinheiro.Quantos empregados vocês têm?

I. Mackaye: A gravadora tem cinco funcionários, que ganham muito mais do que a maioria das pessoas que trabalham, por exemplo, em livrarias…Em punk jobs [N. da E. Quaisquer empregos relacionados ao sistema alternativo punk].I. Mackaye

: Exatamente! Além disso, os empregados fazem o próprio horário e têm seguro-saúde – um grande problema nos EUA. São US$ 150 por mês de seguro-saúde. É uma loucura.Aqui também.

I. Mackaye

: Vocês também têm que pagar por isso? Que merda. Com o sucesso do Fugazi, quem está em volta se dá bem. Quem trabalha pra gente ganha bem; nós fazemos um bom dinheiro. É loucura: pro meio em que vivemos, é bastante dinheiro, mas, em comparação com algumas pessoas que vivem em Washington… Não sou rico!Classe média.

I. Mackaye

: Isso. Não sou nada. O dinheiro que fazemos agora, que talvez pareça muito… Quanto tempo essa banda vai permanecer junta? Não é como alguém que tem uma carreira e trabalha 30 anos da sua vida fazendo um bom dinheiro por ano. Quem sabe? Talvez o próximo disco do Fugazi não venda nada. Nunca se sabe. Eu tento… Não penso sobre isso. Eu era feliz há dez anos atrás, com nenhum dinheiro; era feliz há cinco anos, com algum dinheiro, e agora é a mesma coisa. Não fez diferença pra mim. Pra mim, é assim: “Ah, eu tenho algum dinheiro.” Esse pão, por exemplo [N. da E. Ao longo desta entrevista, Ian tomou chá preto – uma de suas poucas manias – e comeu torradas]. Não o pedi. Ele apareceu. Ok, aqui está ele. É a mesma coisa com o dinheiro. As pessoas do Fugazi são muito conscientes do que fazem com o próprio dinheiro. Algumas entrevistadores dizem: “Queremos saber o que vocês estão fazendo com todo o dinheiro.” “Vá se foder! Não é da sua conta!”Você não tem vergonha de fazer dinheiro honesto

.I. Mackaye

: É loucura. As pessoas nunca estão satisfeitas: se nós fazemos as coisas dessa maneira, elas perguntam o que estamos fazendo com o dinheiro. “Não é da sua conta!” Se eles confiam na gente, ótimo; se não, problema deles. Não damos a mínima. O mundo tem 5 bilhões de pessoas. Não é necessário confiar no Fugazi. Não somos o governo, não somos a justiça. Nossas decisões não são nada, além de nossas decisões. Se as pessoas gostam e confiam em nós, se se sentem inspiradas pela gente, legal, porque é isso que eu tiro da música: inspiração. Vocês entendem?Claro.

I. Mackaye

: Se não gosto, não confio numa banda, não fico perguntando: “Oh, por que será que não gosto de vocês? Você pode me explicar?” Vá se foder! Há dezenas de outras bandas e pessoas legais no mundo. É uma questão de trabalhar construtiva ou destrutivamente. Se eu acho que uma coisa é boa, vou trabalhar por ela; se acho que é ruim, vou procurar uma boa. Não destruo, construo.


Independência
 
Como a Dischord distribui seus discos?I. Mackaye: Nossos produtos são prensados na Europa.Na França?

I. Mackaye

: Na França e na Inglaterra. Onde estiver mais barato. Após a prensagem, são distribuídos de um porão em Londres até uma loja em Chicago, ou até o escritório da Dischord em Washington. Há distribuidores pros EUA; há outros para o resto do mundo. Mas não temos um representante no Brasil.Distribuidores indies?

I. Mackaye

: Sim. Nos EUA a coisa está meio estranha: por causa do sucesso e de razões escusas, muitos distribuidores foram comprados por majors. Elas fazem isso porque é bom negócio, mas também porque, quando lançam novas bandas, querem lhes dar credibilidade. Fazem isso colocando-as em suas gravadoras “independentes”, distribuídas “independentemente”.O Maximum Rock’n’roll [N. da E. O mais famoso zine punk dos EUA] fez uma matéria de capa sobre isso.

I. Mackaye

: Exato. Achamos que a Caroline, por exemplo — que é da EMI —, pode distribuir nossos discos, porque ela não tem exclusividade: compra da gente tanto quanto as lojas. Na verdade, nós distribuímos. E, se você não consegue comprar o CD pelo preço [N. da E. A Dischord põe um “preço máximo” no CD: US$ 8], tem sempre a opção de comprar direto. É mais barato.Fui comprar a compilação do Minor Threat em São Paulo, e quiseram me cobrar 26 reais.

I. Mackaye

: Quanto custa o CD nacional?17, 18 reais em média.

I. Mackaye

: E o importado?De 20 a 30.

I. Mackaye

: Então nossos discos estão sendo importados pra cá.Sim.

I. Mackaye

: Se você comprasse a compilação da gente, pagaria US$ 11 (na época, não havia alta do dólar como hoje). Por correio, via aérea. É mais barato que o CD nacional! Mas é menos cômodo. Você tem que ir ao correio, esperar duas semanas. Eu queria ter mais catálogos…Catálogos da Dischord, com endereço e preços?

I. Mackaye

: Isso.Negócios, negócios…E quanto às camisetas? Você desencoraja o merchandising.

I. Mackaye

: Sim. E fazem pouco da gente…Naquela camiseta “this is not a Fugazi t-shirt”.

I. Mackaye

: É tudo pirata. Essa camiseta, em particular… Eu escrevi pro cara e disse: “Pare com isso.” Aí ele fez essa, que é engraçada.Ao menos tem senso de humor.

I. Mackaye

: É. Liguei e disse: “Já que você é tão criativo e vende camisetas só porque tem ‘Fugazi’ nelas, por que não dá o dinheiro a uma instituição de caridade aí de Boston?” Ele aceitou. O dinheiro delas fez algo de bom. Se eu fosse garoto, nunca iria a uma loja comprar camiseta. Agora, se você for a um show de uma banda nova, e ela estiver vendendo camisetas que fez, compre. Se vier uma grande banda, com stands vendendo camisetas a US$ 25 (coisa normal nos EUA)… Que se foda! São roupas, não anúncios.E por que o Fugazi não faz sua camiseta?

I. Mackaye

: Porque nós somos uma banda! Não é interessante. Na verdade, Jeff, meu parceiro na Dischord, faz camisetas da gravadora. Mas pra mim isso é chato. Pense nas bandas de jazz dos anos 30, 40: já imaginou se todo mundo que fosse vê-las usasse sua camiseta? Por que é normal, pra gente, em 1994, um garoto pagar US$ 20 pra ver uma banda, US$ 25 pela camiseta, US$ 15 pelo poster?O que você acha da briga entre o Pearl Jam e a Ticketmaster? [N. da E. A banda está na Justiça contra o monopólio de venda de ingressos de shows que a Ticketmaster tem nos EUA]

I. Mackaye

: O que eu penso disso?Sim, como vê a situação?

I. Mackaye

: Bem, nós já brigamos com a Ticketmaster. [risos] Vencemos a luta: damos shows por US$ 5. O Pearl Jam está na mesma situação, só que eles tocam em estádios. Tenho amigos que ironizam: “Coitadinhos, lutando por um ingresso barato, de US$ 18…” Mas os Eagles estão fazendo turnê por US$ 100.E os Stones?

I. Mackaye

: US$ 50, 60. Talvez US$ 18 seja barato pra um show desses.O ingresso dos Eagles é mais que o salário-mínimo daqui.

I. Mackaye

: Loucura.E o que você acha dos códigos de barra nos CDs?

I. Mackaye

: O Maximum Rock’n’roll e outras pessoas são contra. O que eu penso: eles são adesivos, etiquetas, e deveriam ser tratados como tal. As pessoas não deveriam colocá-los em cima da arte da capa, porque aí ela vira só um produto. Mas se são adesivos pra colar, qual é o problema?Essas pessoas estão tentando “salvar” o hardcore.

I. Mackaye

: Em primeiro lugar: o hardcore não pode ser salvo. Em segundo: o punk — ou o hardcore, seja qual for o nome que se queira dar — viverá pra sempre, goste-se ou não. Sempre haverá pessoas trabalhando e criando em um nível “abaixo” de tudo.É a atitude “underground”.

I. Mackaye

: A palavra underground se tornou uma marca. Mas o conceito sempre irá existir. A garotada sempre vai dizer: “Foda-se essa merda. Odeio Fugazi. Vou tocar diferente.” E isso é ótimo.É assim que a música evolui.

I. Mackaye

: Exatamente.

Straight edge

O hardcore é um estilo musical ou um modo de vida?

I. Mackaye

: Eu não sei o que é hardcore. Digamos que há uma série de portas e uma linha de tempo. Na primeira porta está escrito new wave; na segunda, punk; na terceira, hardcore; na quarta, alternativo, e depois, independente. São portas diferentes de tempos diferentes, mas que dão mais ou menos no mesmo lugar. Entro pela do punk. O hardcore é uma porta que veio depois. Sou um punk rocker. Mas talvez seja a mesma coisa. Não sei. Talvez vocês achem que punk é Sex Pistols. Mas pra mim é Patti Smith, Stooges, MC5… E também é Black Flag! Minor Threat era punk, não hardcore!E a violência? Skinheads etc.

I. Mackaye

: Não faz sentido. Em 81, quando começamos, havia tanta violência no punk… Sei do que estou falando, porque eu costumava brigar muito.Está melhor agora?

I. Mackaye

: Sim. Menos brigas.Diz-se que você criou o straight edge, um movimento muito ativo hoje em dia…

I. Mackaye

: [interrompendo] O que é isso? O que eles fazem?Muitas bandas, zines…

I. Mackaye

: Ok. [risos] Já respondi essa pergunta milhares de vezes, mas estou pronto. Você está?Sim.

I. Mackaye

: Em 1980, estava no Minor Threat. Escrevi uma canção chamada “Straight edge”, sobre um garoto que não bebe álcool, não se droga, não fuma, e se sente pressionado por causa disso. Sou esse garoto. Escrevi uma música sobre a minha vida? Descobri que havia muitas pessoas que concordavam comigo. Outras diziam: “Vá se foder, Adolf Hitler! Idiota!” Se você ler a letra, verá que não digo “não faça”. As pessoas acharam que eu estava tentando criar um movimento. E eu: “Isto não é um movimento, é apenas uma canção.” Não fez diferença. É 1994, e você está perguntando a mesma coisa.Talvez porque as pessoas continuem te vendo como um líder.

I. Mackaye

: Mas não posso fazer nada! O que aconteceu é que surgiram outras bandas que gostavam daquilo. A coisa se deturpou. Existem dados estranhos: muitos dos garotos que entraram no straight edge são de famílias fortemente católicas. É mais ou menos o que acontece também com o Shelter. [N. da E. Banda de hardcore ligada ao Hare Krishna]O crossover religião e hardcore não funciona?

I. Mackaye

: Pra eles, acho que funciona. Pessoalmente, não endosso nenhuma religião. Mas não tenho regras. Sou só um ser humano. Acredito que é natural o ser humano fazer coisas boas, e é por isso que fazemos benefits [shows para arrecadar fundos para alguma causa]. Não se tem que ter religião para ser consciente. Tem gente que diz: “Por que o Fugazi faz as coisas assim? Deve ter motivação política ou religiosa.” Não. Somos quem somos. O Fugazi sou eu, Guy, Brendan e Joe. Os quatro decidem. É nossa banda, gerando nosso dinheiro, sem nada por trás. Fazemos o que queremos.E o que você acha quando dizem que o straight edge é de direita, porque “combate” as mesmas coisas que o governo americano: drogas, álcool etc?

I. Mackaye

: Essa é a maior besteira que já ouvi na vida. Quem acredita nisso é burro, porque realmente acredita que o governo dos EUA é contra as drogas. Todo mundo sabe que ele é totalmente envolvido com o tráfico de cocaína, o crack etc, via CIA. Acho que as drogas deveriam ser legalizadas. É absurdo que a maconha seja proibida. A idéia de que governos como o dos EUA estão gastando dinheiro para prender gente que fuma maconha me dá nojo. Mas também acho que fumar maconha é idiotice. É o que digo: ser você mesmo já é suficiente.Você já ficou doidão?

I. Mackaye

: Não. Nunca fumei maconha. Já fiquei bêbado, aos 12, 15 anos. Depois, nunca mais bebi.Nunca fumou cigarro?

I. Mackaye

: [enojado] Não, não. Gosto de ar. Tem mais a ver com o ato de respirar, sabe? [risos] Mas algumas das pessoas que amo fumam. Vamos colocar desse modo: odeio vícios, mas não odeio as pessoas que os têm. Não sou do tipo “fodam-se todos vocês, seus fumantes!” [risos] As pessoas têm uma idéia errada de mim. Acham que sou um radical que “prega” coisas. Não! Sou uma pessoa normal, que tem algumas opiniões. Isso não as faz corretas. E tenho necessidade de falar. Só isso.

Punk por filosofia

O que te fez ser músico?I. Mackaye: Não sei. O que te fez querer ser o que você é? Aconteceu.Como, quando?

I. Mackaye

: Se você for atrás, foi aos 6 anos, tocando piano. Mas isso não teve a ver. Essa é minha história da “porta do punk”: quando eu tinha 12 anos queria ter uma banda (aliás, queria tanto que comprava guitarras de brinquedo e fingia que tocava), mas não conseguia tocar guitarra. Tive duas aulas; não consegui. Desisti pensando: “Música é Zeppelin, Stones, The Who. É só para deuses.” Virei skatista. Eu, Henry [Rollins], Mark, todos os garotos de Washington de 13 anos. Cresci com Henry: aos 11 anos, ele era meu melhor amigo. Estava na high school [N. da E. Equivalente ao segundo grau] quando o punk começou a surgir. Comecei a me envolver e pensei: “Puxa, isso eu posso fazer.”O conceito do do-it-yourself.

I. Mackaye

: Exato. O punk criou um formato acessível pra todos. Em um momento, música era como cenas na TV: eu nunca seria parte daquilo. No outro, qualquer um podia fazer qualquer coisa. Quando entrei nele, vi que não era só música: era político, sociológico, sexual. Tudo com o que eu sempre sonhara. O underground era diferente, e isso era importante. Aos 16, o que eu queria? Arranjar uma namorada, casar, trepar, ter filhos, blablablá. Com o punk descobri que havia muito mais a se fazer. Claro que não é preciso ser punk pra descobrir isso. Pode ser por meio de literatura, jazz, teatro, cinema — sempre haverá comunidades alternativas. Foi como um presente. Por isso que me sinto na obrigação de continuar na comunidade. Muitas pessoas viram que podiam fazer dinheiro em cima daquilo, e usaram o meio para se vender. E toda vez que isso acontece, a comunidade enfraquece. Quando as bandas assinam com majors é ótimo, se é isso que elas querem fazer, e se elas se lembram de onde vieram. Só não gosto de gente que diz: “Eu tinha que largar aquilo pra chegar aonde estou.” Nessa eu não caio. Henry fala mal do punk, mas… Como chegou à major? Ele não seria “Henry Rollins” se não fosse pelo Black Flag.

De jornalistas e zines

I. Mackaye
: Desculpem-me se falo muito… [risos] É que, quando dou entrevistas, tenho a oportunidade de repensar. Já respondi à maioria das perguntas antes, mas não fico entediado. Só com as do straight edge. [risos] Não me chateio porque é uma chance de ver, aos 32 anos, como penso, no que mudei. Volto às raízes. Mesmo com o straight edge: não é justo me recusar a responder. Foi por causa dessa música que estou aqui, agora. É uma ótima música, acho. Não me arrependo de nada do que fiz.O mais engraçado é que tem um monte de jornalista por aí perguntando: “Quem é o Ian?” Gente que nunca ouviu Fugazi nem Minor Threat, e faz pergunta idiota em entrevista coletiva.I. Mackaye

: Exato. Jornalistas são assim.É muito estranho.

I. Mackaye

: Mas escrever sobre música é estranho, porque música… Não se explica em palavras. Já é um meio estranho. [risos] Mesmo o que vocês fazem é estranho. [risos] Se bem que vocês fazem zines: escrevem sobre o amor à música, não sobre a música.Participamos de um debate em que houve uma discussão sobre o que era zine. Argumentávamos a diferença era o espírito — não uma capa colorida.

I. Mackaye

: Concordo. E isso não quer dizer que você tem que falar bem de tudo, porque, se você ama música, sempre vai achar que alguma banda é ruim. O posicionamento é diferente: um zine é sobre o que as pessoas sentem em relação à música; uma revista tem um monte de gente escrevendo de um ponto de vista do tipo “eu entendo de música”. E a maioria dos jornalistas não entende de nada — são só pessoas que foram contratadas para escrever sobre qualquer coisa.Uma curiosidade: você é direto e seguro quando fala. Como você consegue se manter tão 100% sobre as coisas? Parece que você nunca fica confuso!

I. Mackaye

: Sou um bom ator. [risos] Fico confuso muitas vezes. [longa pausa] Faço muitas coisas, e penso sobre elas. Tento simplificar. A vida é simples. Vejo as coisas assim: estamos aqui, agora. Ponto. Tudo o mais é distração — nosso cabelo, o que comemos, ouvimos. Tento simplificar o modo como vivo. Se me perguntam sobre dinheiro, digo: “Um dia não tive, outro dia tive um pouco…” Odeio ficar confuso. Tento simplificar, ser natural. É mais fácil. Não somos socialistas, religiosos, nada. Somos uma banda, só. Não quero confundir ninguém. A música é suficiente — ela contém a própria razão.

Mais um workaholic

Como é seu dia-a-dia?I. Mackaye: Trabalho o tempo inteiro na Dischord.E o que você faz nela?

I. Mackaye:

A Dischord é uma família [N. da E. Lá trabalham os irmãos de Ian, sua companheira, Cynthia, e amigos]. Minha tarefa é lidar com o que ninguém quer: grandes decisões. A maioria do planejamento da banda é meu. Vir ao Brasil, por exemplo, tomou umas três semanas inteiras de trabalho — passaportes etc. Os vistos saíram quatro horas antes do nosso avião! E quando estamos em casa, ensaiamos todo dia. Cinco dias por semana, três horas por dia. Somos loucos!Vocês já têm material novo?

I. Mackaye

: Algum. Está vindo devagar. Há duas razões para isso: a primeira é que estamos meio confusos sobre nossa música e o que queremos, como banda, agora; a segunda é que, de novo, estamos confusos com o que está acontecendo. É estranho que todas as bandas tenham assinado com majors.Que bandas, por exemplo?

I. Mackaye:

Diga uma!Superchunk!

I. Mackaye

: Eles não estão! [risos] ótimo! Mas falando em geral… Redd Kross…Jawbox, Henry Rollins…

I. Mackaye

: Henry Rollins! O Green Day já vendeu 1 milhão de cópias!Bad Religion…

I. Mackaye: Assinou! Com a Atlantic! Aí vai uma fofoca pra vocês [risos]: o Offspring emplacou um puta hit nos EUA, não me lembro o nome. 700 mil cópias. Eles são da Epitaph, que ficou “uau!”. Muito dinheiro. Então Mr. Brett, guitarrista do Bad Religion — e dono da Epitaph —, sai da banda. Pra ficar só com a gravadora. Muito dinheiro, muito trabalho.

Ele saiu antes da banda assinar com a Atlantic?

I. Mackaye:Depois! E quem está na banda agora? Brian Baker, ex-Minor Threat! That’s rock’n’roll!

E que se fodam vocês

E sua primeira vinda ao Brasil? Te criticaram, porque você estaria “com a namorada” [Jennifer, do L7] em um festival patrocinado por uma marca de cigarro.
I. Mackaye: Não sabia disso. Quem disse?Os jornais.

I. Mackaye

: Os jornais?! Primeiro, não vim com “namorada”. Minhas amigas do L7 me convidaram pra vir ao Brasil. Aceitei. Não tinha idéia do que era o festival. Não fiz dinheiro. Se querem me criticar, foda-se! Não me importo. Eles não tem mais nada pra fazer? O L7 não sabia que era patrocinado por cigarros! Ninguém sabia, até chegar aqui.Você ficou puto?

I. Mackaye

: Não, quer dizer, eu era só um convidado. Tudo o que fiz foi afinar o baixo da Jennifer e carregar algum equipamento. Mas é interessante: se eu não tivesse vindo em 93, talvez não teríamos vindo agora. Pra mim, por um lado, foi ridículo estar naquilo — eu nunca tinha estado num evento daquele, foi uma experiência. Por outro, me fez vir ao Brasil — e querer voltar. Então, sei lá, fiquei feliz por ter podido vir.
E aqueles que me criticaram, que não vão aos shows. Podem me odiar. [risos]Pergunta clássica: você conhece alguma banda brasileira?

I. Mackaye

: Poucas.O IHZ [N. da E. Banda hardcore de Santos] disse que te mandou um 7” e você respondeu.

I. Mackaye

: Sim, me lembro. Respondo todas as cartas. Leva uns cinco meses, mas respondo. Mas minha banda brasileira predileta é Mutantes. Adoro. Realmente adoro.Muitas pessoam gostam. Jello, Kurt Cobain…

I. Mackaye

: Acho até que foi Jello que me deu a fita deles. E quanto ao Kurt Cobain, acho que fui eu que dei a fita pra ele, naquele Hollywood Rock…

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