cronica neymar

Não me considero uma pessoa bonita. Não sempre, mas enfim. É o tipo de coisa que não costumo dar muita importância, mesmo nos momentos em que deveria. Típico de quem se garante com o charme inabalável de um bom vivant que come bons queijos, bebe bons vinhos e faz amor com lindas mulheres. Será que deu pra enganar alguém com essa? Talvez, serei vaidoso. Engraçado quando a quebra de expectativa nos pega de calça curta. Com o passo acelerado, caminhava até o ponto de ônibus até ver duas moças que entregam panfletos de imóvel do outro lado da rua. Farol fechado para pedestres, parei e esperei. Reparei que as duas pareciam muito felizes pra quem trabalhava num sábado pela manhã, mas até aí, não desconfiei de nada. Quem sou eu pra fiscalizar felicidade alheia? Gilberto Kassab?

Quando pude atravessar, apertei o passo novamente pra manter o ritmo paulista do pseudo-apressado. Após cruzar caminho com as duas moças, uma delas grita descaradamente “AE GOSTOSÃO!”. Meu primeiro pensamento foi de não ser comigo, mas reparei que era o único homem no quarteirão. Assumindo a possibilidade de que o elogio (era um elogio, certo?) poderia ter sido dirigido a mim, reparei que o uso exacerbado de ironia pode transformar gente comum em gente babaca. “GATINHO, NÃO FINGE QUE NÃO VIU NÃO”, ouvi logo em seguida. Era comigo mesmo e aparentemente não era ironia. Uau, alguém me achava aquilo tudo mesmo de mim. Ah, se minha mãe me visse naquele momento. Ela riria muito.

Como esse tipo de coisa não acontece comigo com frequência, olhei na direção das duas e sorri timidamente. Não sabia o que fazer. Naquele momento, me senti como um pedaço de carne assada na Somália ou uma mulher sem sutiã passando na frente de uma obra. Perguntei-me se era assim que as mulheres se sentiam quando passavam perto de algum homem mais animadinho, que encarna uma mistura de Shakespeare com Kid Bengala e tece os mais maravilhosos comentários sobre suas taras mais intensas ou simplesmente sobre atributos físicos visivelmente avantajados. Seja lá como for, me senti bem. Ainda que tenha achado estranho ter sido elogiado da forma como fui. E eu nem estava tentando ser bonito. Talvez nem precise tentar. Autoestima, é você aí?

Tudo bem, foi só uma cantada pedreira, mas imagine como deve ser a vida de quem é elogiado o tempo todo. E nem estou falando especificamente de beleza, mas da bajulação que pode ocasionar um comportamento diferenciado. Se eu me senti bonito com um elogio, imagine o que Neymar não fará com os milhões e os fã-clubes que tem. Claro, pode ser que ele simplesmente não ligue para nada daquilo e siga com sua vida, mas sou inclinado a pensar na possibilidade de estarmos criando um monstro do lago Ness. Se você continuar dizendo como ele é bonito com aquele cabelo de cacatua do inferno e como ele joga bem porque sabe correr e cair a todo segundo, ele tem chances de se tornar o próximo Adriano Imperador. Ou até mesmo pior.

cronica neymar

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