comissão

Desde quando eu consigo me lembrar, sempre fui de escrever muito rápido. As palavras explodem na cabeça e pedem aspirina: eu nego e as espremo pro papel (ou pra tela do computador, no caso) sem pensar duas vezes. Talvez seja esse o fato responsável pelas coisas erradas ou confusas que saem por aqui. Tenho a impressão de que se eu planejasse, não sairia nada; tenho um bocado de ideias temperamentais. O Papa foi eleito, o Renan Calheiros também e o Marcos Feliciano igualmente. Todo mundo sabe disso. E essas notícias que todo mundo sabe guardam uma espécie de poder secreto ou zica amaldiçoada escondida (intencionalmente?) dentro dela: não vale a pena falar sobre uma coisa que já foi dita setecentas e noventa e oito vezes anteriormente.

Todos sabemos que Calheiros é um pilantra (assim como a Veja) e que o Feliciano é mais um daqueles vampiros religiosos. Que fique claro: o vampirismo está na parte da falcatrua, não na religião. Talvez ainda não saibam que o Papa argentino, por mais que as piadas sobre sua nacionalidade, o futebol e o Maradona tenham um caminho promissor pela frente, parece ter se envolvido com os militares hermanos na época da ditadura deles, participando do famoso órgão responsável por atrocidades como roubo de bebês e tortura, entre outros pontos de apoio das outras ditaduras latino-americanas. Bom, agora ou talvez mais pra frente fiquem sabendo. Mas e aí?

Já fizeram pressão popular. Já assinaram os trocentos abaixo-assinados que enviaram por email. Os próprios deputados já pediram pelo fechamento daquela dita Comissão dos Direitos Humanos que se recusa a entregar os direitos devidos às “minorias” e prometeram analisar (o que também pode ser entendido como “arquivar”) as imensas petições contra a presidência do Renan. Quanto ao Papa, só o tempo vai dizer se as más línguas e as histórias da ditadura são mentiras ou passado, ou ainda, se o negócio é esse mesmo e a tendência de alheamento à sociedade do século XXI nas altas cúpulas da igreja é de prosseguir, vento à popa. O Vatileaks (os escândalos de corrupção e nepotismo descobertos na terra do Sô Pedro) vai ficar esperando por respostas, guardadinho sobre a mesa do novo escolhido que, sabendo o tamanho do abacaxi que lhe presenteiam, deve ter por dentro de suas sagradas mangas um pulso incrivelmente firme, ou espaço o suficiente para esconder a mega-fruta de pecado.

É tranquilo tomar providencias no começo de uma tempestade. Quando todo mundo sabe o que fazer, é preciso um pouco de coragem pra dizer “então, vamos lá?” e começar a sujar as mãos. Mas os problemas de hoje estão sempre em andamento, em processo de resolução, em verificação, enfim: naquele espaço secreto e invisível de transição em que o mundo inteiro se vê confortavelmente obrigado a abanar as mãos e dizer: “é, vamo ver cumé que fica”. Ainda assim, eu me pergunto, e pergunto desesperado também a você, caro (hipotético) leitor: o que é que deve fazer um aspira medíocre de jornalismo numa hora dessas?

Talvez a solução mais racional nesses tempos difíceis seja mesmo sentar e esperar. As probabilidades de um milagre são sempre pequenas (com ou sem Papa). Talvez encontrar uma outra solução, uma outra resposta pra nossa (demo)cracia falha e desigual que proíbe amor e incentiva violência. Quebrar uns prédios, sequestrar uns empresários, barganhar uns direitos na marra. Mas a verdade é que não presto pra hippie, anarquista ou “bandido”; e um pouco menos ainda pra pensador político. A única coisa que eu sei fazer realmente bem é escrever rápido. Tão rápido que não sobre tempo pra pensar sobre as chances desse texto ser lido, ou as chances dele mudar a cabeça das pessoas ou do mundo em si. Mais rápido ainda do que os segundos que eu levo pra pensar que talvez o povo não queira o bem do país de forma unanime, porque boa parte dele não se educou (nem foi educado) para pensar nessas coisas. Nesses segundos ínfimos em que as palavras ganham vida louca e despreocupada, é como me surgisse uma espécie de esperança desesperada e sem sentido. Não pensa duas vezes e escreva. Uma hora o tiro acerta (ou não).

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